Abrigo Nuclear: a imaginação é uma doença fatal
- Titi Bayarri

- 5 de ago.
- 3 min de leitura

“No futuro… devido à poluição radioativa do meio-ambiente, a humanidade abandona a superfície hostil e tenta sobreviver nos corredores subterrâneos de um…

É com essa breve introdução, com letras brancas descendo por um fundo preto, como nos letreiros iniciais de Star Wars, que se inicia Abrigo Nuclear, longa-metragem de ficção científica do cineasta baiano Roberto Pires. O filme, que teve sua estreia no Festival Internacional de Teatro de São Paulo de 1981, hoje se encontra restaurado e em domínio público.
Abrigo Nuclear é considerado como a primeira incursão do cinema baiano na ficção científica, e trata-se de uma ecodistopia, conduzida por uma trilha sintetizada que referencia filmes do gênero e imagens esteticamente deslumbrantes de um futuro construído muito artesanalmente (além de diretor, ator e roteirista, Roberto Pires foi um excelente e apaixonado cenógrafo). A história, porém, se inicia distante da beleza ou do deslumbre: anos depois de uma catástrofe ambiental causada por acidentes nucleares e uso indevido do lixo nuclear das usinas, a sociedade, enclausurada no subterrâneo, vive sob o domínio de um autoritarismo que esconde o passado e oprime seu povo.
É a partir das incursões à superfície realizadas por Lat, personagem que, interpretado pelo próprio Roberto Pires, é responsável pela manutenção de máquinas que transformam a radioatividade nuclear presente no ambiente externo em energia para o Abrigo -, que uma parcela da população começa a sonhar com a possibilidade de, um dia, retomar a vida na superfície.
Uma das primeiras barreiras que encontram para isso é o desconhecimento que se tem sobre o passado, encoberto pelo regime: o povo nada sabe sobre seu passado, ninguém tem permissão de acessá-lo no “Terminal da Memória” e a reprodução de imagens do passado é condenada com pena de morte.
“Minha missão é mantê-los, a todos, vivos e saudáveis. O passado não existe. A imaginação é uma doença fatal” (fala da personagem Avo, líder autoritária interpretada pela atriz Conceição Senna)
Apesar de ter uma forma que me parece um pouco datada para os dias de hoje (toda obra de arte envelhece, afinal, de uma forma ou de outra), penso ser muito interessante olhar para Abrigo Nuclear como um filme que apresenta questões muito pertinentes para sua época.
A insegurança nuclear, que assolava o mundo na época, também aparece no romance Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, publicado originalmente em 1985 e sendo um dos pioneiros do tupinipunk (o cyberpunk brasileiro na literatura). No livro, porém, os perigos da exploração nuclear servem como pano de fundo para uma intriga política em um Brasil cada vez mais tecnológico e controlado pelas empresas, e o medo da ameaça nuclear é o medo de um futuro ainda a acontecer. Em Abrigo Nuclear, estes problemas não são mais distantes. Aqui, a catástrofe já ocorreu, e o filme aborda de forma muito direta como foi uma tragédia anunciada: a ciência alertou para os riscos, mas nada foi feito.
Soma-se a tudo isso, e aí entramos no que mais me interessa acerca da produção do filme, toda a crítica a um governo autoritário presente em Abrigo Nuclear e o fato da obra ter sido filmada, produzida e exibida durante a ditadura militar brasileira. A revolução para derrubar o governo autoritário do subterrâneo e retomar o conhecimento sobre o passado começa a ser traçada e organizada desde o começo da narrativa, tendo Lat como uma das personagens centrais disso tudo. Mas é depois da metade do filme que o roteiro aposta em uma jogada muito corajosa e, ao meu ver, acertada: a obra abdica de seu protagonista e passa a ter o próprio povo como protagonista, mostrando que a revolução não é feita por um só rosto, mas sim por uma multidão.
Abrigo Nuclear está disponível para ser assistido gratuitamente, tanto no YouTube quanto na plataforma da Libreflix.
E para ampliar:
Prepare os pulmões: ecodistopias no cinema brasileiro, ótimo texto da colega colunista Carolina Oliveira, faz uma análise que vai mais para o caminho de pensar questões ecológicas a partir dos longas nacionais Abrigo Nuclear e Parada 88 (1978);
O documentário Bahia SCI-FI (2015), realizado por Petrus Pires, traz histórias acerca da produção de Abrigo Nuclear com entrevistas muito afetivas com a equipe do filme (e pode ser especialmente instigante para quem se interessa por cenografia e efeitos práticos no cinema);
A belíssima trilha sonora de Abrigo Nuclear, disponível para ouvir no YouTube, traz bastante da energia e da psicodelia do filme.



Titi, interessante, desconhecia a obra e adorei a abordagem. Além, óbvio, das referências e possibilidades que acrescentou ao fim. Contudo, ainda mais importante: o fato de trazer o povo para o centro do debate, afinal "andorinha só não faz verão".