Severance: sobre ruptura e alienação do trabalho
- André Agueiro

- 31 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

O que você faria se tivesse a oportunidade de nunca mais se preocupar com o seu trabalho, pois suas memórias fossem separadas entre o seu eu que trabalha e o seu eu que apenas aproveita a parte externa a isso?
Esse tipo de cenário é abordado no universo de Severance (Ruptura), série lançada em 2022 pela Apple TV. Nesse mundo distópico, é possível realizar uma cirurgia cerebral que instala um implante capaz de ser ligado e desligado, separando a atividade cerebral de um mesmo corpo físico em duas: uma que exerce a jornada de trabalho (personalidade apelidada de innie) e outra que vive toda a vida externa ao labor (o chamado outie).

Trata-se de uma vivência que, por si só, é bastante complexa e até paradoxal. Ao não se lembrar do que acontece durante o período de trabalho — já que o cérebro do outie está “desligado” —, uma pessoa conseguiria viver sem nenhum tipo de estresse ou preocupação causada pelas oito horas diárias em que ficaria retida dentro de um escritório.
Entretanto, se essa possibilidade existisse, seria saudável aderir a esse tipo de procedimento?
Quando tive a experiência de assistir aos primeiros episódios, o conceito de alienação do trabalho, de Marx, foi o que me ocorreu de forma mais incisiva. Mark, o protagonista, e seus três companheiros de trabalho fazem parte do departamento de Macrodata Refinement, cuja função consiste em agrupar números em caixas quando estes emitem alguma “emoção” para o responsável da tarefa. Se essa atividade não faz sentido para nós, espectadores, para os personagens faz ainda menos. O conceito de alienação se evidencia quando nem os próprios trabalhadores compreendem a serventia daquilo que fazem. Os supervisores não explicam nada sobre o propósito do trabalho, uma vez que os funcionários devem apenas seguir ordens para atingir as metas estabelecidas. Soa familiar, não?
Como não compreendem o resultado final de seu trabalho e não possuem referências externas para se orientar, os innies são, teoricamente, manipulados com maior facilidade. Afinal, é muito mais simples controlar pessoas que não têm uma mente fora do ambiente de trabalho e que vivem exclusivamente para aquilo do que indivíduos que possuem vidas próprias e questionam a estrutura na qual estão inseridos. Esse controle se intensifica ainda mais, pois qualquer tentativa de compreender a importância do departamento dentro da empresa ou o seu papel em um contexto maior já é vista como um desafio aos olhos dos supervisores.
Outro aspecto intrigante é a personificação do culto à figura do fundador da empresa e de seus sucessores, elevados a um papel quase divino para esses funcionários. É bizarro o quanto isso se mostra relacionável. Fora da ficção, vemos pessoas completamente medíocres sendo exaltadas por serem ricas ou por terem acesso a certos lugares que pessoas “comuns” não têm. É algo tão próximo da realidade que chega a ser arrepiante visualizar a facilidade com que se manipulam indivíduos em um sistema que os ilude com conceitos como o de meritocracia. Mesmo sendo um tema debatido há tempos, ainda há quem insista em acreditar que apenas o esforço individual leva alguém a algum lugar.
A ambientação desse escritório é tão minuciosamente pensada que é possível perceber de maneira quase palpável o quão frio é o ambiente interno em comparação com a vida externa dos outies. Ali dentro, os innies são pessoas sem família, sem passado e sem futuro. Já os indivíduos que vivem a vida externa possuem histórias ricas em detalhes, que auxiliam na própria construção de caráter. Ainda que a vida desses trabalhadores fora do trabalho não seja perfeita, trata-se de um privilégio enorme poder viver 16 horas do dia sem as preocupações que o trabalho traz.
No entanto, o quão ético é aprisionar uma versão de si mesmo a uma vida de escravidão laboral?
Além de todas essas questões, a série aprofunda ainda mais a exploração de dilemas éticos em sua segunda temporada, o que torna a narrativa ainda mais complexa e rica em questionamentos. Quando apenas o corpo é compartilhado entre duas mentes expostas a ambientes totalmente diferentes, as personalidades também têm chances de se desenvolver de forma divergente — e, em um caso específico, até oposta. Como lidar com os seres humanos que trabalham e conciliar isso com aqueles que vivem suas vidas externas?
O sucesso da série e a atualidade extrema de sua temática não são, de forma alguma, injustificados. Ao expor hipocrisias e os comportamentos mais esdrúxulos da cultura corporativista tóxica dominante no mundo capitalista, Severance consegue questionar valores já explorados pela ficção científica e, ao mesmo tempo, trazer algo tão instigante e próximo da nossa realidade que os pensamentos não cessam a cada cena exibida.
Posso dizer que sou um grande apreciador de obras artísticas inteligentes e incômodas, aquelas que tocam na ferida de princípios incrustados na sociedade. Severance faz isso de forma genial, sem pressa — diferente de obras voltadas ao entretenimento puro — e com uma agudeza crítica perspicaz que só a ficção científica pode proporcionar. É entretenimento inteligente de qualidade, e eu não poderia recomendar mais.





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