Venezuela ou Arrakis? Petróleo, Especiaria, Imperialismo e a Ficção Científica na atualidade
- Gabriel Mello
- há 3 dias
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Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque militar direto contra a Venezuela. Explosões em Caracas e em estados estratégicos, captura do presidente Nicolás Maduro por forças especiais estrangeiras, condução do chefe de Estado a um tribunal em Nova York. A operação foi celebrada por Washington como uma vitória contra o narcotráfico e a tirania, no entanto, a ação foi condenada por parte significativa da América Latina e do Sul Global como violação flagrante da soberania nacional.
O fato é histórico. E, curiosamente, profundamente familiar.
Não há nada de inédito no roteiro — apenas nos nomes próprios, nas justificativas atualizadas e nos enquadramentos midiáticos que buscam suavizar o impacto do que, em essência, permanece o mesmo: a intervenção armada de uma potência sobre um território soberano em nome de um bem maior, definido unilateralmente.
“Quem controla a especiaria, controla o universo.”
A frase de Frank Herbert, em "Duna", repete-se hoje com uma clareza quase incômoda. Troque “especiaria” por petróleo — ou por lítio, gás, água, terras raras — e Arrakis deixa de ser um planeta distante para se tornar um mapa político reconhecível. A ficção perde o véu e um espelho se revela.

Em "Duna", Arrakis é um mundo hostil, árido, aparentemente condenado à miséria. Ainda assim, é o centro absoluto do universo conhecido, pois abriga a melange: a substância que move a economia, sustenta a navegação interestelar e mantém de pé toda a arquitetura imperial. Sem ela, o império colapsa. Por isso, Arrakis nunca pertence aos seus habitantes; pertence àqueles que precisam de sua riqueza.
A administração do planeta muda de mãos, mas o princípio permanece: explorar, extrair, controlar. As casas nobres disputam o território como concessionárias temporárias de um recurso que jamais lhes pertenceu moralmente. A população local — os fremen — é tratada ora como obstáculo, ora como mão de obra descartável, ora como mito exótico. Nunca como sujeito histórico pleno.
O domínio de Arrakis, contudo, não se sustenta apenas por naves de guerra e exércitos privados. Ele exige algo mais sofisticado: uma narrativa. Uma história contada e repetida até que a violência se torne normalidade. Até que a ocupação se apresente como gestão. Até que o saque se chame "estabilidade".
Os Harkonnen não são apenas cruéis ao povo fremen; são descritos como eficientes na sua contenção cultural. O Imperador não é um tirano; é o fiador da ordem galáctica. A brutalidade nunca se assume como tal; ela se apresenta como necessidade histórica, como custo inevitável do progresso, como sacrifício técnico em nome de um bem abstrato.
O mesmo mecanismo opera fora da ficção.
A captura de um presidente latino-americano em exercício é enquadrada como ação policial internacional. O bombardeio de infraestrutura soberana torna-se “operação cirúrgica”. A suspensão prática do direito internacional é rebatizada de defesa da democracia. A linguagem é a primeira arma do império — porque ela redefine a violência antes mesmo que os mísseis cruzem o céu.
Em "Duna", Herbert formula seu alerta de modo direto: impérios não se veem como vilões. Eles se veem como administradores inevitáveis da história e como forças naturais. Como a única alternativa possível ao caos. Tudo o que fazem é descrito como resposta, nunca como iniciativa; como correção, nunca como agressão.
É por isso que "Duna" costuma ser mal interpretado como uma simples epopeia de ficção científica. Herbert não estava interessado em heróis predestinados, nem em batalhas espetaculares. Seu livro é, acima de tudo, uma crítica feroz ao messianismo político, ao colonialismo fantasiado de missão civilizatória e à crença arrogante de que certos povos nasceram para governar enquanto outros existem para ser governados.
A ficção científica, afinal, nunca foi sobre o futuro. Ela sempre foi sobre o presente deslocado.
É o gênero que torna visível aquilo que, visto de perto demais, se naturalizou. Ao exagerar estruturas de poder, ela as desnuda. Ao projetar impérios para além da Terra, ela revela a lógica dos impérios terrestres. Quando lemos "Duna", não estamos olhando para adiante; estamos olhando para os lados, e para trás, com mais nitidez.
Quando tropas atravessam fronteiras em nome da ordem, quando tribunais estrangeiros se arrogam o direito de julgar líderes de nações soberanas, quando recursos naturais justificam a suspensão seletiva das regras que deveriam reger o sistema internacional, não estamos diante de exceções históricas. Estamos diante do funcionamento regular do império.
A Venezuela, assim como Arrakis, não é invadida apesar de sua riqueza, mas por causa dela. Sua instabilidade não é um acidente externo, mas parte estrutural de uma economia política global que depende da fragilidade permanente de "outros"". Um território plenamente soberano, com controle absoluto de seus recursos estratégicos, é uma anomalia intolerável para sistemas imperiais.
A invasão de 2026, não éum evento geopolítico isolado. É um sintoma. Um lembrete brutal de que a América Latina segue sendo tratada como zona de exceção, como espaço onde a legalidade é flexível e a soberania é condicional. Um planeta periférico cuja função histórica, aos olhos do centro, é fornecer aquilo que sustenta o império — e pagar o preço por isso.
Frank Herbert não escreveu sobre vermes gigantes e desertos infinitos por acaso. Tudo ali é alegoria. Tudo é estrutura. O cenário extremo serve apenas para evidenciar o custo humano da dominação, a falência moral dos que acreditam controlar a história e a tragédia dos povos que sangram por riquezas que nunca escolheram possuir.
Arrakis não está no futuro. Arrakis não é metáfora distante.
Arrakis é agora.
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