"Cidades encantadas e a magia no cotidiano"
Na edição n° 020, a Revista Especular propõe um deslocamento do olhar: em vez de buscar o maravilhoso em mundos distantes ou mitologias grandiosas, convida o leitor a perceber a magia que se infiltra silenciosamente nas rotinas urbanas, nos gestos mínimos e nos espaços esquecidos das cidades.
Desta maneira, esta edição investiga o fantástico como revelação — uma força que não rompe o real, mas o inclina, expondo fissuras onde memórias, afetos e experiências invisibilizadas ganham densidade simbólica. A magia aqui não se anuncia em espetáculos, mas em cafés de madrugada, em becos e viadutos, em figuras comuns atravessadas por acontecimentos que exigem escuta, responsabilidade e transformação.
O conto “O Turno da Madrugada”, de Volnei Freitas, exemplifica essa poética ao apresentar um café 24h onde o pagamento pode assumir a forma de lembranças, medos e decisões íntimas, transformando o trabalho noturno em ritual urbano. A poesia de Luis F. Buzzato e Volnei Freitas reinscreve a cidade como território sensível, habitado por soberanias ocultas, melancolias e presságios. Já o artigo de Tiago Marinho investiga a feitiçaria discreta dos espaços liminares — becos, escadas e viadutos — como zonas onde a lógica cotidiana se fragiliza e outras narrativas emergem. Fechando a edição, o ensaio de Gabriel Mello, “O Mar Sem Estrelas” e o direito ao encantamento, propõe a fantasia urbana como uma pedagogia de resistência: um gesto político de desaceleração, atenção e desobediência sensível frente às lógicas da produtividade e da previsibilidade urbana.
A edição n° 020 da Revista Especular afirma que o verdadeiro encantamento talvez não esteja em escapar do mundo, mas em reaprender a enxergá-lo. Porque o cotidiano, longe de ser neutro ou esvaziado, permanece carregado de pactos silenciosos, histórias não ditas e possibilidades à espera de quem ousa perceber que ele nunca foi inteiramente comum.
#20 Revista Especular, n° 020
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