"A Curva do Sonho" e as utopias irresistíveis
- André Agueiro

- há 30 minutos
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Sonhar é extremamente essencial para a sobrevivência humana. O inconsciente é tão importante quanto o consciente, e a união de ambos nos impulsiona para frente todos os dias. A Curva do Sonho, ficção científica publicada nos anos 70 por Ursula Le Guin, traz diversas reflexões quanto à realização dos nossos sonhos e das utopias pessoais. Já imaginou qual seria o mundo perfeito para você? Um mundo sem guerras, sem fome, sem pobreza? Onde todos tivéssemos oportunidades iguais e onde a injustiça não teria vez?
“Quando você dorme, você não controla seu sonho. Gosto de mergulhar em um mundo onírico que eu criei, um mundo que escolhi e que tenho controle completo sobre” — David Lynch.
A famosa citação de Lynch — talvez meu diretor de cinema favorito — se torna realidade no livro de Le Guin, embora nosso protagonista não tenha muito poder sobre o que está sendo sonhado. George Orr, um homem simples com um trabalho regular e uma vida ordinária, tem o “poder” de alterar a realidade de acordo com o que sonha enquanto dorme. Os chamados “sonhos efetivos” do personagem começam alterando fatores minúsculos na sua vida, que já o deixam assustado suficiente para tentar evitar sonhar a todo custo, seja tomando pílulas inibidoras de sonhos ou até mesmo lutar contra o sono e se manter acordado a maior quantidade de tempo possível.
George vive num mundo desolado em 2002, onde o aquecimento global, a superpopulação e a industrialização chegaram no seu ponto mais crítico, onde a vida parece ser vazia e sem sentido. Tentando evitar sonhos, George é pego com mais medicações do que o permitido e é então obrigado a se consultar com Haber, um psiquiatra ensimesmado, que se acha capaz de curar todos os pacientes que lhe são atribuídos. A ingenuidade de George o faz revelar sobre seu “talento” ao médico, que então começa a se aproveitar dessa capacidade atípica para realizar certos “ajustes” na sociedade, a fim de torná-lo habitável novamente e menos perigoso. Ele assume o controle total sobre George, e começa a usá-lo para realizar seus desejos.
As consequências disso são completamente desastrosas, e George começa a se preocupar quando, por um acidente, um de seus sonhos induzido por Haber apaga 6 bilhões de pessoas do planeta, o que o deixa cada vez mais consternado, até que a manipulação do psiquiatra sobre seu dom é escalonado a níveis aterrorizantes. Haber justifica usar George para fins de progresso e melhoria humana, mesmo que os meios que trazem esse fim não sejam nem um pouco justificados para George, que não tem escapatória das consultas com o psiquiatra.
A utopia que Haber busca é nociva até ser alcançada, e por mais que ele não veja isso — ou provavelmente finja não ver —, suas decisões são sempre justificadas para George como uma dádiva da evolução humana, e que se o bem pudesse ser feito assim, eles deveriam continuar sem pestanejar. George possui uma visão conflitante com a do médico justamente por achar que a natureza deve seguir seu curso, e que criar realidades alternativas onde certos problemas da sociedade não existam não parece ser exatamente a melhor opção, já que para atingir a tal utopia vários tipos de sofrimento seriam ainda necessários.
Le Guin utiliza-se da metáfora do sonho de um único indivíduo para nos alertar contra discursos autoritários e messiânicos, que prometem um mundo melhor, mas sempre às custas dos mais vulneráveis ou sempre impondo uma visão de vida a quem permanecer. Foi assim que movimentos populares e seitas proclamando superioridade foram formados. Outro exemplo claro é quando pensamos que a colonização ocorreu para que os países autodenominados “superiores” pudessem levar tecnologia e progresso para essas regiões, onde podemos estabelecer que a definição de progresso se define de acordo com o ponto de vista. Os vários séculos de escravidão, genocídio e aculturação afligidos pelas mãos dos colonizadores assolam até hoje as populações massacradas por essas intervenções ditas “salvadoras”.
Assim também pode ser entendido como uma crítica à líderes populares, que aparecem com narrativas conservadoras e que esbravejam que o paraíso na terra pode existir se as minorias se curvem a um plano conservador, onde as mulheres voltem a ser submissas, que negros voltem a ser escravos e que homossexuais e transsexuais sejam convertidos para expurgar sua suposta “perversão sexual e mental”. Discurso bastante similar aos movimentos nazistas e fascistas no século passado, se pararmos para pensar.
“Os fins justificam os meios. Mas e se nunca houver um fim? Tudo o que temos são os meios” [p. 107].
Para além disso, outro ponto trazido com essa narrativa eletrizante é a de que revoluções, e as tão desejadas utopias não devem ser formadas sob a vontade de um líder carismático, que tem grandes chances de se tornar autoritário assim que o poder lhe subir à cabeça. Toda vez que George questionava Haber sobre suas intenções, este se esquivava dizendo que tudo era em prol da sobrevivência humana e de sua sofisticação. Haber tenta criar um mundo sem guerras, mas isso ocasiona em uma ainda pior. Tenta acabar com a violência racial, mas retira a identidade étnica das pessoas, as tornando literalmente cinzas e idênticas umas às outras, em vez de estimular o respeito entre as diferenças raciais tão ricas entre nós, e que fazem parte da nossa identidade. Por mais que as intenções do psiquiatra fossem boas, o lema do sistema capitalista onde cada indivíduo tem de rejeitar a coletividade e lutar por si impera, e isso o deixa cego, pois por mais que queria acreditar estar fazendo o bem, não era isso o que de fato acontecia.
A mensagem de Le Guin com essa história é justamente defender que uma revolução não é construída pelas ideias de apenas um indivíduo, mas sim coletivamente. Os sonhos devem ser compartilhados, para que qualquer possibilidade de ego inflado possa ser cortado na raiz, e que o progresso venha sim, só que construído com as perspectivas de vários outros sonhadores. Devemos continuar sonhando, mas com consciência de que o mundo ideal para cada um de nós não afete a existência e a liberdade do outro.
“É preciso ajudar o próximo. Mas não está certo brincar de Deus com massas de pessoas. Para ser Deus, é preciso saber o que se está fazendo. E para fazer qualquer bem, não basta apenas acreditar que está certo e que seus motivos são bons. É preciso… estar em sintonia. [...] Não faz diferença se seus fins são bons; meios são tudo o que temos… Ele não consegue aceitar, não consegue deixar que as coisas existam, não consegue abrir mão do controle.” [p. 193].
Não vou trazer spoilers aqui pois queria muito incentivá-los à leitura desta obra provocadora e instigante. Mas o que resta no final dessa história, até então fictícia, é um mundo completamente caótico e vazio, onde a máxima do capitalismo foi levada até seu extremo limite e onde aspectos significativos deixam de ter um valor. O sistema capitalista deteriora nossas vidas, esmaga nossos sonhos e destrói o planeta onde vivemos, até que nada mais faça sentido. É difícil e triste pensar que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Espero que nossos sonhos nos carreguem mais longe, e que consigamos superar as amarras que nos prendem muito em breve, antes de sermos engolidos pelos resultados de nossas escolhas autodestrutivas.



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