As eleições e as distopias brasileiras
- Danilo Heitor

- há 16 horas
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Pensando no texto desta coluna, me dei conta de uma coincidência: todas as distopias brasileiras que mais me marcaram nos últimos anos passam, de alguma forma, por mudanças jurídicas no Estado brasileiro que refletem desejos de grupos reais cuja agenda eleitoral está, hoje, a todo vapor, já que as eleições de outubro se aproximam. Estou falando de Bacurau, Divino Amor, Medida Provisória e O Último Azul.
À primeira vista, são filmes muito diferentes entre si. Um é um faroeste distópico ambientado no sertão; outro imagina um Brasil teocrático; o terceiro trata da deportação compulsória de pessoas negras; e o mais recente acompanha uma mulher idosa em um país obcecado pela produtividade e pelo descarte dos corpos considerados inúteis. Mas todos compartilham a mesma pergunta: o que acontece quando a violência brasileira sai do cotidiano e vira política de Estado?
Quando escrevi sobre Vitória Régia, usei o conceito do “conto de advertência”. Ele vale para todas essas obras também. Distopias não costumam prever o futuro, elas exageram tendências do presente para que possamos enxergá-las melhor. O problema é que, no Brasil, esse exagero tem sido cada vez menor.
Quando Divino Amor estreou, em 2019, muita gente tratou o filme como uma fantasia provocativa. Hoje, depois de anos de crescimento do fundamentalismo religioso na política, de ataques sistemáticos aos direitos reprodutivos e de tentativas de transformar determinadas interpretações religiosas em política pública, o filme parece menos fantasioso do que quando foi lançado. O Brasil não se tornou exatamente a teocracia imaginada por Gabriel Mascaro, mas aprendemos todos os dias com o noticiário que as instituições do Estado de direito continuam a ser corroídas por dentro, lentamente, em nome da moral.
Medida Provisória, de 2020, talvez seja o caso mais evidente. A premissa é absurda: o governo decide deportar pessoas negras para a África. Mas o filme não fala de deportação; fala de desumanização. Fala de um Estado que passa a tratar parte da população como problema administrativo. É impossível assistir a ele sem lembrar que jovens negros continuam sendo mortos em proporções muito superiores às de jovens brancos, que operações policiais seguem produzindo massacres em periferias e favelas e que o racismo estrutural brasileiro nunca precisou de uma lei de deportação para produzir segregação.
Bacurau¸ também de 2019, fez sucesso por muitos motivos, mas um deles me parece central: ele transformou em ficção um sentimento de abandono que grande parte do país conhece bem. A violência do filme não vem apenas dos estrangeiros que caçam brasileiros como esporte, vem também da cumplicidade das elites locais, da precarização dos serviços públicos, da ideia de que certas vidas são descartáveis. O sertão de Bacurau não é apenas um lugar, é uma metáfora de todos os territórios que o Estado lembra apenas em época de eleição.
Por último, O Último Azul, de 2025, meu preferido nessa lista, amplia ainda mais essa discussão. O alvo do filme não é apenas a velhice, mas a lógica que mede o valor das pessoas por sua utilidade econômica. Em um país que naturaliza o abandono de idosos, o trabalho precário, a destruição ambiental e a exclusão social, a pergunta do filme é profundamente política: quem merece continuar existindo, ser um sujeito político, ter direitos e o mínimo de autonomia?
Nenhum desses filmes inventa uma violência nova. Todos reorganizam violências que já existem.
Já ouvi muitas vezes que “misturar arte e política” empobrece a arte. Como escrevi em outra coluna, discordo disso profundamente e acredito que toda ficção, toda arte é política. A diferença é que algumas obras escolhem explicitar o conflito, enquanto outras fingem que ele não existe. As distopias brasileiras têm escolhido explicitá-lo. Em quase todas elas, o autoritarismo aparece menos como espetáculo e mais como cotidiano. Não há, necessariamente, um ditador gritando em um palanque. Há burocracias, aplicativos, igrejas, empresas, policiais, vizinhos, funcionários públicos, procedimentos aparentemente normais. O horror se instala quando a violência ganha formulários.
Isso dialoga profundamente com a nossa história. A ditadura brasileira não foi feita apenas de torturadores, foi feita de carimbos, pareceres, censuras, remoções, desaparecimentos administrativos. O racismo brasileiro não opera apenas por insultos explícitos, opera muito mais pela violência policial genocida, pelas diferenças salariais, pelo acesso desigual à educação, à saúde e à moradia. A transfobia não se resume ao discurso de ódio, ela aparece na expulsão familiar, na dificuldade de conseguir emprego, na expectativa de vida dramaticamente reduzida.
Não acho que um filme deva ou possa organizar pessoas para combater todas essas violências. Mas acho que a ficção, quando usada para ampliar nossa imaginação política, pode nos fazer perceber que os fascismos não surgem do nada, são projetos de sociedade gestados por pessoas que estão incrustadas nas mais diversas instâncias do poder institucional. Talvez por isso essas distopias tenham se multiplicado justamente na última década. Elas nasceram em um país que viu o crescimento do autoritarismo, o ataque às universidades, a explosão da violência política, o avanço do negacionismo, a tentativa de golpe de Estado e a transformação de grupos vulneráveis em inimigos públicos.
Outubro ainda não chegou ao calendário eleitoral, mas está quase aí. Cresci ouvindo que as eleições definem o futuro do país. Mas, se aprendi alguma coisa nas últimas décadas, com a realidade e com a ficção, é que a escolha de voto é um ato político menor no processo todo. Os candidatos não são todos iguais, não é esse o ponto, mas, assim como as mudanças distópicas no cotidiano expressas pelos filmes citados, transformações capazes de fazer as ameaças eleitorais deixarem de ser reais também passam por uma construção cotidiana. Existe política além do voto, e é essa política que precisa estar no nosso horizonte, o próximo e o distante.
A pergunta (porque de certezas estamos cheios) com que termino esta reflexão, então, e que me persegue desde que me desiludi com o tamanho diminuto do meu voto, vai bem além dele: queremos assistir a essas histórias ou morar dentro delas?
O que você me diz? Qual distopia brasileira mais te fez pensar no presente? E o que você acha importante fazer para não chegarmos até ela?
Os comentários, como sempre, estão abertos para ampliar essa conversa.



Ótimas referências e reflexões.
Gostei muito do Último azul, pensei bastante na minha própria condição...
Em tempos de escândalos com o INSS, mais ainda.