Césio-137, racismo ambiental e a vigilância feminina
- Carolina Oliveira

- há 1 dia
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Infelizmente, a memória coletiva – as lembranças e histórias que as pessoas compartilham sobre o passado – não são coisas passíveis de guardar em um depósito e que ficam disponíveis a quaisquer momentos para serem acessadas. Na verdade, as memórias podem ser essas “coisas” sim, quando são tangíveis, como objetos e monumentos, mas uma parte delas – uma boa parte delas – é como pó, que se fragmenta e se perde por aí, podendo não só ser esquecida, mas desaparecer de fato.
Essa ideia da memória coletiva ficou me rondando desde que eu assisti a série Emergência Radioativa (2026), lançada pela Netflix e que conta sobre o desastre nuclear com césio-137 em Goiânia no ano de 1987. A história – a realidade e a ficção – começa quando uma dupla de catadores encontra em 13 de setembro de 1987 um aparelho de radioterapia desativado no antigo prédio do Instituto Goiano de Radioterapia. A partir daí, a dupla vende a cápsula de metal que retiram do equipamento para um ferro-velho, local onde a fonte radioativa é aberta e o misterioso pó branco com brilho azul começa a atrair as pessoas.

O césio-137 que matou diretamente 4 pessoas – Leide das Neves Ferreiras, uma criança que ingeriu as partículas do pó; Maria Gabriela Ferreira, a esposa do dono do ferro-velho; Israel Baptista dos Santos, trabalhador que ajudou a desmontar a cápsula e Admilson Alves de Souza, também funcionário do local –, também foi responsável pela morte de mais de 100 pessoas ao longo dos anos.
Esse pó radioativo capaz de queimar a carne das pessoas e que chama ainda mais atenção no escuro, foi capaz de denunciar falhas estruturais de segurança e comunicação à época: o abandono de um equipamento perigoso na antiga clínica em um prédio desativado, a falta de controle e monitoramento da bomba de césio-137 por parte dos órgãos oficiais, a ausência de símbolos evidentes de perigo no equipamento e a própria demora no diagnóstico das pessoas contaminadas.
Para além das pontuações mais evidentes e a partir de uma visão mais atualizada sobre o acidente, as discussões acerca do racismo ambiental – também abordado no texto Desigualdade Ambiental na Sci-Fi, da Stella D’Avansso aqui na coluna –, perpassam todo o caso do acidente, já que a negligência do Estado acabou afetando, justamente, as famílias mais vulneráveis. O racismo ambiental é um conceito atribuído ao ativista afro-americano Benjamin Franklin Chavis Jr., que atuou como secretário de Martin Luther King, ademais, suas denúncias sobre a população negra mais vulnerabilizada e vítima da degradação ambiental são capazes de desfazer um mito muito comum em torno das questões ambientais: a de que todos somos atingidos da mesma maneira.
São inúmeras as evidências que comprovam que as catástrofes climáticas – na cidade ou no campo – possuem mais efeitos sobre os grupos minoritários: mulheres, pessoas pretas, indígenas, quilombolas, moradores da favela e de periferias. O movimento Mulheres Negras Decidem, por exemplo, fundado em 2018 com o intuito de qualificar e promover a agenda liderada por mulheres negras, busca estratégias para superar a falta de representatividade, destacando assuntos como a crise climática e reforçando a impossibilidade de pensar na proteção ambiental longe de uma perspectiva transversal. É preciso, portanto, pensar e agir em conjunto, pensar e agir, inclusive, da maneira como nas histórias citadas, as mulheres buscaram agir.
Tanto na série quanto no filme Césio 137 – O pesadelo de Goiânia (1990), de Roberto Pires, as mulheres – Joana Fomm e Denise Milfont (Maria Gabriela e Santana, a mãe de Leide) e Ana Costa e Marina Merlino (Antônia, esposa do dono da ferro-velho e Catarina, mãe de Leide), possuem papéis fundamentais que não se resumem, apenas, ao avanço da narrativa, mas a tomada de decisões importantes quando do ponto de vista da gravidade do acidente.

Na história oficial, foi Maria Gabriela quem colocou o objeto suspeito em uma sacola e o levou ao posto de saúde, local em que o cilindro permaneceu até que se descobrisse a real gravidade da situação. No caso do filme, é Santana quem ameaça os vizinhos a fazer algo com relação ao objeto estranho, já que foi a partir da sua chegada que as coisas começaram a desandar e as pessoas começaram a ficar doentes. É claro que, a ideia aqui não é destacar essas mulheres – do cinema e vida real – como heroínas irretocáveis, pelo menos não no sentido de protagonistas da história, já que não é disso que se trata, mas tentar compreender como os cotidianos sufocantes, penosos e cheios de desafios – a criação dos filhos, o relacionamento com os maridos e o enfrentamento dos preconceitos –, invocam uma perspectiva distinta diante de um objeto estranho e desconhecido, o que nos força a estar sempre atentas e vigilantes, a pensar no outro, a olhar para as pessoas a nossa volta.
Inclusive, na série – capaz de abordar não só a perspectiva das vítimas, mas das pessoas que participaram efetivamente de todo esse processo como físicos e médicos, por exemplo, a quantidade de personagens femininas em papeis científicos é algo que também merece destaque, apesar de não terem existido desta mesma forma na vida real: Esther (Leandra Leal) é doutora em física responsável por dar apoio aos pacientes que são transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro; já Paula Matos (Clarissa Kiste) é uma das físicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) mobilizada para contribuir com os trabalhos de controle do césio-137, mas para além de seus saberes científicos, ambas as personagens se mostravam solidárias e profundamente preocupadas com as pessoas, seus filhos, amigos e parentes.
Tanto a série quanto o filme se desenrolam a partir das descobertas – graves e irreversíveis em seus mais diferentes níveis de poder, e que são remorados por meio dessas obras, que também se apresentam como um suporte poderoso para o resgate e a perpetuação da memória. Mas o mais chocante na série, pelo menos para mim, foi quando no último episódio uma câmera aérea mostra o depósito do lixo radioativo – cerca de 6 mil toneladas de roupas, móveis, entulhos e solo –, localizado do município de Abadia de Goiás. A imagem é de incontáveis tambores amarelos e contêiners que foram concretados para evitar o vazamento do conteúdo que, segundo especialistas, só devem se livrar dos riscos de contaminação após 200 anos.

Diferente do “pó da morte”, como ficou conhecido o césio-137 – que se aproximava da forma do sal, como alguns relatam –, e que se perdeu na cidade, na água, no corpo das pessoas e nos lugares onde elas passavam, todos os rejeitos ainda permanecem ali, como memórias que invisibilizamos, mas ainda presentes.



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