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A Narrativa como Caminho, pessoal e coletivo

Frederico Cavalcanti











Hoje, a coluna será um depoimento mais íntimo, como início de uma reflexão mais ampla.

 

Sempre gostei mais de finais felizes, quando o bem vence, que a vida deveria imitar àquela forma de arte, que poderia ser assim, graças a uma suficiente vontade da maioria das pessoas. E há esperanças, lampejos de alegria, lágrimas de felicidade, risos de carinho, neste mundo, sim.

 

Quando assisti ao filme ‘O Retorno de Jedi’, aprendendo frases icônicas e refletindo o quão reais poderiam ser. Tinha uns 6 anos de idade, adorava ler poesia - e poesia era o que via naquela tela.

 


O Retorno de Jedi
"A Cena" / O Retorno de Jedi

Darth Vader diz a Luke algo como: “Tire meu capacete, para que possa olhar para você, com meus verdadeiros olhos”. E eu pensei: “acho que ele quer, na realidade, principalmente, que Luke o conheça melhor, que não apenas ele possa ver, como possa ser visto, por olhos ‘verdadeiros’”.

 

E Luke: “eu vou tirar você daqui, vou salvá-lo!”. Anakin Skywalker, simplesmente fala: “Você salvou, Luke… Você estava certo sobre mim, meu filho... diga para sua irmã que você estava certo…” Na luta, Luke dissera ao pai: “Eu ainda vejo bondade em você.”

 

Ver de modo tão heróico que um Pai se deixa influenciar pelo filho, ver um vilão se redimir, apesar de ter sido um emblemático monstro: aquilo me impactou. Eu havia lido a sinopse de Les Miserables: Jean Valjean, um ícone do heroísmo, a coragem, da ética, da justiça e da resistência, um ser de força.

 

Eu mesmo já havia brigado na escola, e, depois, entendido ser errado socar o colega na barriga, mesmo depois de provocado. O colega estava provocando com a fala. Não era justo que fosse respondido, senão também pela fala. Dar um soco foi um salto de violência, um erro. Sob uma premissa maniqueísta, poderia dizer que fui 'mal'; e aprendi que era errado estar sendo 'mal'. Pela reflexão tornei-me melhor.

 

Assim, não importa o que digam sobre você, importa que você mesmo tenha uma boa ideia de quem é, do que quer se tornar, evitando ficar à mercê da imposição de outros, de falas, vozes, vídeos e performances que explicitam o íntimo deles, deixando-se moldar não por você mesmo.

 

E se Anakin, ainda que moldado por outro, poderia se redimir, então, qualquer um seria capaz de vir a fazê-lo, consigo e com o mundo.

 

O Jedi que retornava, era sim Vader: voltava para o outro lado da força, para a luz. E como o plural de Jedi é Jedi, com Vader pode-se dizer na polissemia do título: toda a ordem Jedi retornava a existir, com Luke tendo passado pelo “batismo de fogo” e Vader cedendo às tentações da luz, como diria seu admirador, Kilo Ren, que também se redime; enfim, a Ordem dos Jedi renascida.

 

Senhor dos Anéis
Os hobbits, em cena de O Senhor dos Anéis, 2001

Desde aqueles tempos, fui fincando raízes do heroísmo em minhas vísceras. E, com o

Senhor dos Anéis, refleti: os considerados simples e até fracos, tornam-se também heróis.

 

Uma pessoa que faz o trabalho com amor e ética, é uma pessoa heróica. Talvez não devesse ser tão difícil, mas tenho visto que não deve ser fácil ser uma pessoa de uma comunidade, mantendo a honestidade, a gana pela vida, não apenas à própria, e continuando humana, mesmo com tempo apenas para dormir, trabalhar e, apesar de tanto trabalho, ainda passar necessidades.

 

E penso que é o amor, é o Amor que nos leva a caminhos bons de verdade. Foi o Amor que despertou Vader. Não a paixão. E estas narrativas educam, criam ideias moldadoras de quem as pessoas poderão ser. Rubem Alves, em uma palestra que assisti:


“Educação é a fonte, o leito e a foz do rio que somos… e ela se resume em dois pilares: estimular o desenvolvimento do saber e do sentir.” 

As narrativas que contamos uns para os outros, conceituam nossas relações e moldam nossa subjetividade pessoal e coletiva. O sentir. Cada cultura tem as ideias do que é certo e do que é errado, muito com base em histórias que contamos, ouvimos, sentimos e assimilamos.

 

Você é uma história que anda e tudo que você faz torna-se mais uma linha escrita na sua própria narrativa. Já parou para pensar se sua narrativa está sendo educativa? O que você está criando, através da sua contação, da sua narrativa pessoal?

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