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Deixe o Jinni Sair do Poço

Luis F. Buzzato











Vou Sumir Quando a Vela Apagar

Em ‘Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar’, romance de Diogo Bercito, encontramos a história de Brutus e Yacub, dois jovens sírios que vivem o início da década de 1930. Brutus fica embebido da possibilidade de se mudar para o Brasil, onde o personagem descreve que tudo é verde, frutífero e nunca se passa fome. Tudo o que ele não poderia ser na Síria, poderia ser no Brasil:


Quase podia enxergar a semente do Brasil sendo plantada na cabeça dele.

Uma Árvore dessas com que Brutus sonhava,

Com um tronco tão largo que era impossível abraçar.

(Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar, pg. 16)


Entretanto, tudo muda quando Yacub e Brutus vão fumar no poço, onde reza a crença de seu povoado que mora um Jinni, criatura feita pelo marjii, o vento escaldante. Segundo Yacub, a criatura poderia matar assim como os turcos e os franceses, se fosse liberta por alguma razão. 


Ao fumarem no poço, Yacub entrega-se ao desespero de perder Brutus e confessa uma história erótica para o garoto, em que resulta em um momento íntimo dos dois. Quando terminam, o poço está aberto e, posteriormente, Brutus é pego pelo Jinni, ao menos pensa Yacub.


Digo Bercito
Digo Bercito, o autor

Bem, o poço como alegoria do desejo lacrado e aberto pelo desejo materializado revela a sensação de ansiedade de ambos os garotos, em suas descobertas do âmago. Embora não seja nosso tópico aqui, trago isso como ponto de partida para a discussão: quando o Jinni sai do poço e leva Brutus consigo, Yacub entra em uma aventura de descobrir o desconhecido.


Atravessa o oceano, vai ao Brasil, suja suas mãos de tinta de novo – recomendo a leitura da obra para que compreendam essa frase – e decide refazer a vida. Encontra vida, paixão, talvez obsessão e encontros narcóticos com o Jinni


Até se encontrar presencialmente com a criatura, entende-se vivo e desfaz todas as suas regras, em memória de Brutus. Um diálogo interessante entre os personagens narra o dilema do protagonista:


— Não tem nada que eu possa dizer para você vir comigo?

[...]

— Não tem nada que eu possa dizer para você ficar aqui comigo?

(Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar, pg. 14)

 

O ficar dos dois, ainda que Brutus tenha decidido ir antes de ser pego pelo Jinni, significou a destruição de tudo aquilo que poderiam ser. Entretanto, é quando Yacub desvenda o inominável, o mundo além-daqui, encontra as respostas para si e as respostas de sua perda.


Se em algumas colunas narrei sobre o amor e Kollontai, aqui falo sobre o amor para se encontrar, aquele que usamos para abrir novas portas, sejam do mundo ou internas.

Portanto, leitor, recomendo que abra o poço.

Deixe o Jinni sair. 


Enfrente o desconhecido e o inominável.

 

REFERÊNCIA:

BERCITO, Diogo, Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar, 2022, Rio de Janeiro, Intrínseca.

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