Deixe o Jinni Sair do Poço
- Luis F. Buzzato

- há 14 horas
- 2 min de leitura


Em ‘Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar’, romance de Diogo Bercito, encontramos a história de Brutus e Yacub, dois jovens sírios que vivem o início da década de 1930. Brutus fica embebido da possibilidade de se mudar para o Brasil, onde o personagem descreve que tudo é verde, frutífero e nunca se passa fome. Tudo o que ele não poderia ser na Síria, poderia ser no Brasil:
Quase podia enxergar a semente do Brasil sendo plantada na cabeça dele.
Uma Árvore dessas com que Brutus sonhava,
Com um tronco tão largo que era impossível abraçar.
(Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar, pg. 16)
Entretanto, tudo muda quando Yacub e Brutus vão fumar no poço, onde reza a crença de seu povoado que mora um Jinni, criatura feita pelo marjii, o vento escaldante. Segundo Yacub, a criatura poderia matar assim como os turcos e os franceses, se fosse liberta por alguma razão.
Ao fumarem no poço, Yacub entrega-se ao desespero de perder Brutus e confessa uma história erótica para o garoto, em que resulta em um momento íntimo dos dois. Quando terminam, o poço está aberto e, posteriormente, Brutus é pego pelo Jinni, ao menos pensa Yacub.

Bem, o poço como alegoria do desejo lacrado e aberto pelo desejo materializado revela a sensação de ansiedade de ambos os garotos, em suas descobertas do âmago. Embora não seja nosso tópico aqui, trago isso como ponto de partida para a discussão: quando o Jinni sai do poço e leva Brutus consigo, Yacub entra em uma aventura de descobrir o desconhecido.
Atravessa o oceano, vai ao Brasil, suja suas mãos de tinta de novo – recomendo a leitura da obra para que compreendam essa frase – e decide refazer a vida. Encontra vida, paixão, talvez obsessão e encontros narcóticos com o Jinni.
Até se encontrar presencialmente com a criatura, entende-se vivo e desfaz todas as suas regras, em memória de Brutus. Um diálogo interessante entre os personagens narra o dilema do protagonista:
— Não tem nada que eu possa dizer para você vir comigo?
[...]
— Não tem nada que eu possa dizer para você ficar aqui comigo?
(Vou Sumir Quando A Vela Se Apagar, pg. 14)
O ficar dos dois, ainda que Brutus tenha decidido ir antes de ser pego pelo Jinni, significou a destruição de tudo aquilo que poderiam ser. Entretanto, é quando Yacub desvenda o inominável, o mundo além-daqui, encontra as respostas para si e as respostas de sua perda.
Se em algumas colunas narrei sobre o amor e Kollontai, aqui falo sobre o amor para se encontrar, aquele que usamos para abrir novas portas, sejam do mundo ou internas.
Portanto, leitor, recomendo que abra o poço.
Deixe o Jinni sair.
Enfrente o desconhecido e o inominável.
REFERÊNCIA:
BERCITO, Diogo, Vou Sumir Quando a Vela Se Apagar, 2022, Rio de Janeiro, Intrínseca.




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