Lágrimas e(m) Constituição Pessoal: conjecturas sobre O Cavaleiro Preso na Armadura
- Frederico Cavalcanti

- há 2 dias
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Você já pensou na sua Constituição Pessoal? Existe uma Constituição Federal, uma norma maior de um sistema jurídico, e existe a sua norma maior pessoal, íntima a quem você é.
É a maneira de ler, algo essencial para a função do texto. Ao ler o livro referido no título, como uma peça de Fantasia, caberia lembrar: fantasia e realidade pulsam em unicidade.
A premissa do livro de Robert Fisher se derrama na existência de um cavaleiro que está sem conseguir tirar a armadura, e, o que era uma (suposta) escolha, torna-se um problema: uma inescapável aderência entre ser e casco vestido pelo ser.

A armadura, dentre muitas interpretações, consiste na coisa concreta, objetiva, utilizada para direcionar um candeeiro sobre a ideia de proteção, diretamente dizendo da falta de contato: tudo uma metáfora psicológica e simbólica.
A armadura só é protetiva, pelo fato de limitar contato do corpo com o entorno. Uma espada não conseguiria transpassar a placa de aço que a estaria separando do torso daquele ser, e isto lhe é, evidentemente, algo protetivo: ele não desejaria morrer pela espada que lhe atravessasse o peito.
No texto, o homem preso na armadura tem dificuldade de se alimentar, e de fazer diversas coisas cotidianas. E o que seria relacionar-se com o mundo, senão o encontro do próprio corpo com tudo, de maneira mediada pelo sistema sensorial?
A palavra “sensorial”, de “senso”, de “sentir”, é quando a consciência se permite realmente engajar em um contato com a gama de acontecimentos do mundo, com o despontar, por exemplo, de uma figura para aquele momento, a partir de um fundo repleto de possibilidades. O rei, e outros personagens dizem ao cavaleiro: “todo mundo usa uma armadura”, em algum momento, em maior ou menor apego.
Aqui a armadura simboliza tudo aquilo que temos em nós, que nos distancia, que serve para que o mundo e os contatos não sejam “demais”.
Por que trazer tai coisas, aparentemente óbvias? Do óbvio, ou, justamente por isso, surge um subestimar, um tratar como dado, quiçá desdém, gerando um olhar superficial sobre o mundo, desprezador de tesouros ocultos, indispensáveis ao bom entendimento. Ainda assim, todos precisam de alguma proteção, considerando que o mundo ainda apresenta inospitalidade considerável.
Exemplificativamente, a Gestal-Terapia: “nem todo contato é saudável, e nem toda fuga é doentia”. A proteção, neste sentido, se alinha com o sentir, como uma limitação para este sentir, sendo o sentir uma forma de contato. A fuga do contato seria uma forma de evitação diante daquilo com o qual viria o ser a se contatar. Para a Gestalt-Terapia, faria sentido dizer que em uma condição saudável de viver, deve-se estar apto a fazer um bom contato, tanto quanto oscilar em uma fuga bem-organizada (Perls et. al., 1988, p.35).
Ora, se aquilo que se estaria a poder sentir, vier a ser insuportável naquele momento, o não contato subsistiria como uma proteção, sob pena de se tocar ou ser tocado por algo que causaria um trauma gigantesco, um sentir que habitaria fora da janela de capacidade de tolerância, diante do mundo.
Sempre se deverá estar em contato com algo, assumindo que seja conceitualmente possível o contato consigo mesmo: reflexivo. Fato é que o contato com algo, pode significar um foco e uma escolha de não estar em contato com outras situações.
Neste contexto, eis que o Cavaleiro do livro diz: “Quase morri pelas lágrimas que deixei de chorar”. No entanto, não seria vida, um eterno afundar-se no próprio chorar?
As defesas são processos e aprendizados que têm razão de ser. Não há sentido concreto em que a pessoa viva a vida toda em armadura. Entretanto, em um sentido psicológico, também não faria sentido estar sem armadura alguma, mesmo supondo que isto seria possível, senão utópico.
Então, Gibran traz, sobre a dor, justificadora de toda armadura:
[a dor] É a poção amarga com que o médico dentro de vocês cura o interior doente.
(…), confiem no médico e bebam o remédio em silêncio e com tranquilidade: (…). E a taça que ele traz, embora queime seus lábios, foi feita com a argila que o oleiro umedeceu com suas próprias lágrimas sagradas.
Na Constituição Pessoal, vista aqui como uma carta de si para si, que todos (auto)escrevem, a ditar o belo e o feio, o permitido ou não, poderia ousar alguém dizer que:
As lágrimas são boas, e as armaduras são constitucionais, em trânsito para a inconstitucionalidade, ou seja, algo que é certo agora, mas, quando o contexto melhorar, terá se tornado não certo, pois um dia, todo sentir será tão aceito e amado, que ninguém censurará ou julgará, senão se aquele beijo teve mais ou menos sentimento.
Que não se precise aguentar tantas pancadas da vida, que ninguém sofra mais de discriminações, racismos, fobias diversas, violências diretas ou sutis: que as armaduras se tornem inúteis, enfim, porque a pele/alma não precisará ter medo do contato direto com o sol, a brisa, a chuva - e pessoas.
Referências Bibliográficas
FISHER, Robert. O Cavaleiro Preso na Armadura: Uma Fábula para Quem Busca o Caminho da Verdade. Trad. de Luiz Paulo Guanabara – 56ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2025.
GIBRAN, Khalil. O Profeta. Trad. Lígia Barros. São Paulo: Mantra, 2015.
PERLS, Fritz. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. 2ª Ed. Rio de Janeiro: LTC Editora – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1988.



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