Às Alturas, “Into The West”
- Frederico Cavalcanti

- 20 de abr.
- 3 min de leitura

Quem nunca se viu dentro de si, imaginou-se vencendo lutas, fazendo belos discursos, realizando uma ágil manobra ou acrobacia, dando aquela resposta perfeita – que não calhou em poder ser dita na hora em que deveria ter sido dita – enfim, quem nunca esteve tão absorto em se imaginar fazendo algo, em um momento no qual a imaginação é muito protagonista, e figura, enquanto a realidade circundante tornou-se coadjuvante, um fundo distante do qual se destacou a visão de um vívido devaneio?
Não raro, estes momentos estão temperados pela música e atravessados por sua letra.
Vamos lembrar de uma expressão da fantasia épica de O Senhor dos Anéis, de Tolkien, uma canção chamada Into The West / “Para dentro do Oeste” ou “Adentrando o Oeste”. Aqui se tem um recorte da canção, imbuída implicitamente da ideia de acolhimento e segurança. Não seria possível que este convite pudesse afastar-se da ideia de cuidado, sendo que “cuidar” usa do mesmo radical etimológico de “curar”:
Why do you weep? / Por que você chora?
What are these tears upon your face? / O que são estas lágrimas sobre sua face
Soon you will see / Logo você verá
All of your fears will pass away / Todos os seus medos passarão
Safe in my arms / Seguro em meus braços
You're only sleeping / Você está apenas dormindo
A letra sugere colocar alguém, cujas lágrimas surgem para serem enxugadas, no colo que oferece segurança e um antídoto a todos os temores para encontrar o próprio sono, de modo que a dor expressa pelas lágrimas seja substituída por um tipo de bem-estar, no desenho de uma circunstância benigna o suficiente para que se possa dormir em paz.
A música afeta a biologia do cérebro ao ativar vias neurais especializadas, sintonizar padrões de disparo de agrupamentos neurais e modular neurotransmissores e hormônios essenciais. Juntos, eles impulsionam uma série de mudanças que são importantes para nossa sobrevivência e bem-estar. A música estimula o relaxamento quando estamos estressados; pode reduzir a pressão arterial ou facilitar o controle do diabetes; nos acalma quando estamos deprimidos e nos energiza para a prática de exercícios físicos (Levitin, 2025, p. 12-13).
Entre interpretações e efeitos vivenciais prováveis, cada ser terá sua experiência única pela singularidade que lhe é inerente – não significando inexistência de proximidades e semelhanças entre o que fora experimentado por uma e outra pessoa. A música é de tom épico, alude a uma história desse teor – trilha sonora da versão cinematográfica da obra O Senhor dos Anéis.
A alusão se dirige, mais especificamente, ao final de tudo, quando todos os que assim o quiserem, poderão seguir para Valinor, lugar paradisíaco reservado aos justos e heroicos.

Céu que se localiza no mistério além do horizonte oeste, talvez, mais a oeste que o próprio oeste, por ser lugar de transcendência. Possível evocação à ida ao paraíso, o retorno ao lar mais original. Frodo e Bilbo, depois Samwise, dirigiram-se para aquele paraíso.
Interessante que o paraíso é dado como um ideal de sentidos, legitimador da busca das virtudes que são sistematizadas de acordo com a doutrina que o descreve, bem como pode representar atitudes de fuga da realidade mundana, ao invés de meramente suscitar uma vida virtuosa. Para Tolkien, coerentemente com a canção, Valinor, que fica no continente de Aman, só pode ser alcançado por meios misteriosos, caminhos sabidos pelos Elfos.
Embora seja descrito como Oeste, no imaginário de ser místico, há um quê de (quase) inalcançável como em todo céu / paraíso. Tudo deve ter uma região onde se habita, para e dentro da visão humana (Ortega, 1961, p. 112-113) .
Mesmo os objetos espirituais, que já não pertencem à experiência primária da vida, têm de ser localizados (assim se representa o céu no cristianismo, como a «região» das alturas). Esta é uma característica fundamental dos seres humanos; enquanto seres que habitam um corpo e podem ser objeto de uma localização espacial e temporal, necessitam de espacializar e temporalizar para tornar compreensível o que não é da ordem do espaço e do tempo (Morujão, Carlos, 2020).
Cuida-se de entrar em contato com uma utopia para se inspirar e para suportar viver neste mundo. Qual seria ou quem faria parte da sua utopia?
Referências:
ORTEGA Y Gasset, José. O Homem e a Gente. Trad. J. Carlos Lisboa. Livro Ibero-Americano, Rio de Janeiro: 1961.
MARUJÃO, Carlos. Antropologia Filosófica: uma perspectiva a partir da fenomenologia. Coleção Estudos de Filosofia. Universidade Católica Editora, Lisboa: 2020.




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