Minhas Lágrimas de Choro, Enquanto (Sou)Rio: sobre preconceito e heroísmo
- revistaespecular
- há 1 dia
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Existem tantas razões para chorar. Até nas razões para rir, podemos “chorar de emoção”, pois, “nem todas as lágrimas são más” (Gandalf, Tolkien, 2020, p. 1464).
Pessoas jogam RPG (jogos de interpretação) e se deparam com histórias de personagens como Drizzt Do’Urden do mundo de Dungeons and Dragons (D&D). Drizzt, terceiro filho homem da Casa dos Do’Urden, deveria ter sido sacrificado a Lolth, divindade macabra dos elfos Drow, elfos de pele escura, habitantes dos mundos subterrâneos naquele mundo de fantasia (D&D).

Drizzt é um personagem canônico do mundo de D&D, nascido em uma cultura de pura crueldade. Não assimilou aquilo que os Drows tinham a oferecer, então, como não podiam tolerá-lo, perseguiram-no. Viveu em túneis sombrios, graças à condenação de tudo a que amava, vindo a emergir à superfície para sanar-se da vida sem luz, à qual era adaptado.
Ao conceito marcado pela generalização do que deveria ser um Drow, correspondia um preconceito, em relação a Drizzt, cuja vontade e feitos distinguiam-se por auxiliar outros, algo impensável em sua cultura. Existem aqui, lágrimas de dor e de luta. Pode-se chorar lágrimas invisíveis? Lágrimas contidas em Drizzt, ele as poderia estar derramando por meio do modo como fazia justiça e libertava inocentes. Quantos Drizzt existiriam no mundo real?

Os pensadores Leandro Karnal e Luiz Estevam, no livro Preconceito: uma história, delimitam o tema:
O preconceito é formado antes de uma experiência real, a partir de uma generalização. Como a base de quase todo pensamento racional é a experiência real e concreta das evidências, aqui esbarramos, de saída, no caráter não científico do preconceito. O preconceito é algo que contraria a lógica elementar de toda ciência. O preconceito nasce sem que necessite de dados objetivos. O preconceito, antes de tudo, vem de alguém com uma limitação intelectual conjectural — porque não conhece —, e que deduz sobre o vazio. (Karnal & Estevam, 2023, p. 14).
De fato, o pré-conceito, é um conceito criado antes do contato verdadeiro com aquilo ou aquele(a) a cuja existência o conceito se dirige. Como pode estar tão certo o julgador, quando julga o que não chegou a conhecer? Seria o conhecer do que ainda não existiu ao conhecedor, de certo imponderável.
Karnal e Estevam cuidam de lembrar que ideias, mesmo as mais preconceituosas, possuem diversas funções sociais.
Há a questão do pertencimento a um grupo, onde identidades comungam preconceitos, sem os quais não se permite às próprias adesão e enquadramento na moldura torta pela qual ela e o grupo se definiriam (Karnal & Estevam, 2023, p. 15).
Há também o preconceito que pode atuar como uma via construtora de bodes expiatórios, oferecendo explicações, para ocorrências das quais serão culpabilizados aqueles indivíduos diante dos quais uma atitude de afronta poderia não apenas vir a ser conveniente, como não ofereceria represália alguma de alguém que importasse (Karnal & Estevam, 2023, p. 14-16).
O preconceituoso elogia a si, pela forma como usa o outro, sem se importar com quem o outro venha a ser, rebaixando-o como meio de se dizer o quanto se é “bom”. Assim, genérico e superficial mesmo. Da mesma forma, tornar o outro “mau”: um caminho fácil para que o preconceituoso se sinta bem consigo mesmo, pois criticar o “mau” é pretensamente dizer-se “bom” (Karnal & Estevam, 2023, p. 17).
E Drizzt sofria preconceito, e nem por isso se impediu de tornar-se um herói. Na história, encontrou pessoas que o ajudaram. Talvez, nunca seja possível, nem mesmo na fantasia alcançar algo relevante sozinho. Muitos são heróis de travessias, jornadas do mundo, pelo choro, pelo riso, pelo rio verdadeiro que são, nunca deixando de fluir, mesmo diante de pedras de preconceito em seu leito.
Referências:
KARNAL, Leandro; & ESTEVAM, Luiz. Preconceito: uma história. Editora Schwarcz S.A., São Paulo, SP: 2023. (LeLivros).
TOLKIEN, John Ronald Reul (1892 - 1973). O Retorno do Rei: Terceira Parte de o Senhor dos Anéis. Tradução de Ronald Kyrmse – 1ª Ed. – Rio de Janeiro, Harper Collins Brasil, 2019. 608 p.



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