O Limiar do Maravilhoso: portais na fantasia
- Pedro Schettino

- há 9 horas
- 3 min de leitura

Olá, uma vez mais, caros leitores, novamente estamos aqui reunidos em torno do tema fantástico. Dessa vez trago uma proposta de debate sobre um dos fundamentos da literatura fantástica, e do universo fantástico como um todo. As portas e portais, limites entre o mundano e o maravilhoso.

Desde tempos muito remotos, o ser humano sempre experimentou o mundo a partir da noção de limites. Eu e o outro, humanos e animais, aldeia e floresta, dia e noite, humano e divino etc. Inúmeras são as possibilidades de divisão que nossos ancestrais podiam observar na natureza e, toda essa dicotomia, acabou por criar fortemente uma noção bem clara de limites. Fronteiras imaginárias foram estabelecidas que ainda hoje ecoam em nosso imaginário.
No campo das narrativas, há demonstrações desse fenômeno desde as mais antigas histórias mitológicas. A epopeia de Gilgamesh, para ficar com o exemplo mais emblemático, pois é o poema mais antigo de que temos registro, narra uma passagem interessantíssima na qual o herói, buscando compreensão sobre a vida e a morte (outra problemática relacionada ao que dissemos mais cedo), atravessa a fronteira do mundo dos vivos e caminha até a terra mais além do por do sol.
Nessa antiquíssima história, podemos claramente ver que o limiar, essa fronteira, está separando o nosso lugar comum de um outro lugar, onde o maravilhoso e fantástico podem acontecer.
A porta é um perfeito personificador da noção de limiar, permite construir espacialmente um claro local de divisão, de fronteira. A partir desse objeto, podemos pensar num dos tópicos centrais para a nossa coluna de hoje: a fantasia de portal.
Chamamos assim toda história cujo cerne fantástico aconteça em um local, diferente do mundo comum ao qual estamos habituados a viver cotidianamente, que se faça presente dentro da narrativa, após o cruzamento de uma porta ou portal. Esse tipo de história ecoa questões muito antigas para nós.
Talvez o maior e mais óbvio exemplo desse tipo de narrativa seja o famoso “Alice no país das maravilhas”. A pequena Alice tem que seguir o coelho e entrar pela toca para chegar ao mundo fantástico, onde a história se desenrolará. Seguindo uma curiosidade (como fez o próprio Gilgamesh milênios antes), ela se vê cruzando um limiar vertical, uma queda abrupta em direção ao abismo do desconhecido. Talvez haja aí, de forma bastante poética, uma grande metáfora do nosso próprio processo de aprendizagem e crescimento.

Outra menção há que ser feita ao armário mágico das “Crônicas de Nárnia” que segue a mesma lógica do portal. Há nele um belo símbolo que também pode ser analisado, o guarda-roupa é um móvel ao qual recorremos quando queremos trocar as vestimentas e isso pode ser visto como uma possibilidade de trocar de persona. Os quatro irmãos, quando adentram o guarda-roupas e param em Nárnia, vivem lá toda uma vida, em que tornam-se reis e rainhas e desempenham papéis muito distintos dos que representavam no nosso mundo. Esse limiar, quando cruzado, convida-os a “trocar de vida” e experimentar uma outra possibilidade de existência.
Portanto, da próxima vez que estiver consumindo algum conteúdo fantástico, seja literário ou cinematográfico, no teatro ou no vídeo game, pense sobre como se dá o encontro com o mundo maravilhoso: grande chance há de que seja através de um portal.
E agora que você foi tocado pela fagulha da investigação simbólica, quem sabe não consiga encontrar alguma interpretação de um momento chave da história que ressoe com esse tema tão antigo e tão caro à nossa espécie? Aviso logo, se você decidir passar por essa porta, dificilmente conseguirá voltar….




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