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As florestas na fantasia

Pedro Schettino












Saudações, leitores. Nesta coluna, eu queria abordar um tema muito comum às histórias fa

ntásticas e muito importante para o imaginário do ser humano desde sempre: A Floresta.

 

Divina Comédia
Divina Comédia, Canto I do Inferno, por Gustave Doré: Dante perde-se na Floresta Escura

Quando pensamos em florestas, nos vêm à mente, de forma primordial, um espaço que é diferente do nosso cotidiano, isto é especialmente verdade nos tempos modernos, em que vivemos, majoritariamente em espaços urbanos, racionalizados e desmistificados, muito diferentes da floresta.

 

Mesmo nos longínquos tempos em que os seres humanos viviam em pequenas vilas, em um ambiente rural, encaramos a floresta enquanto um espaço diferente do nosso. Um espaço onde, de fato, o maravilhoso poderia conviver, conversar e transformar o homem.

 

As grandes narrativas épicas da antiguidade são prova disso: sempre que algo maravilhoso ocorria, o cenário era natural. Longe das construções e do engenho humano, onde o divino e o mortal pudessem se encontrar. Diante disso, vale a pena passarmos por algumas histórias onde as florestas possuem papel central.

 

Começando pelos famosos contos de fadas. Ora, a floresta, em “Chapeuzinho vermelho” é um exemplo ótimo. Lugar de provação e iniciação, representa o desafio que tem que ser superado: quando chapeuzinho sai de sua casa e vai até a floresta, ela está adentrando ao desconhecido, “descendo” até um momento mais antigo. Talvez por isso a presença da vovó, simbolizando a conexão com o passado, onde a natureza impera e os homens não são donos do espaço.

 

Também podemos nos lembrar da história de “João e Maria”. É também na floresta que se encontram com o fantástico. A casa de doces da bruxa má só poderia existir na floresta, longe da cidade e das coisas “comuns”. A experiência do maravilhoso só pode ser feita neste ambiente, pois ali o divino, o mítico ainda encontra meios de sussurrar aos homens, onde a natureza não foi transformada e, por isso, conserva seu aspecto original. Evoca nosso arquivo de impressões inconscientes.

 

O contato com a natureza nos aproxima de uma era mais mítica da nossa própria existência. Uma era em que não estávamos totalmente no controle da situação.

 

Outra narrativa que muito evoca o tropo da floresta está em “O Senhor dos Anéis”. Tolkien insere-a especificamente como espaço intocado e que evoca ecos de uma era muito pregressa. Ávido leitor de mitologias, certamente foi influenciado nestas histórias para criar algumas de suas memoráveis florestas.

 

Fangorn é o lar dos Ents, criaturas mágicas muito mais velhas que todos os seres viventes da Terra Média. Árvores que andam e recordam inúmeros eventos ancestrais, guardam os nomes verdadeiros de todos os seres, realmente evocando esta ideia da floresta enquanto entidade presente desde sempre, ponto de conexão com o passado e com o divino.


O Senhor dos Anéis
Fangorn, a floresta dos Ents em "O Senhor dos Anéis" / Fonte: https://terramedia.fandom.com/wiki/Floresta_de_Fangorn

Por último, gostaria de lembrar das “Crônicas de Gelo e Fogo”. George R.R. Martin também se inspirou muito nos espaços naturais que guardam as conexões com o passado remoto. Grande parte da fantasia e da magia de seu universo (pequena, segundo o próprio Martin) vem justamente das árvores, os sagrados “represeiros”: grandes e brancas árvores que possuem rostos esculpidos em seu tronco.

 

Estas árvores guardam uma magia muito secreta e antiga e permitem a algumas pessoas uma conexão visual (através do rosto esculpido) com eventos do passado, uma fonte de poder inigualável e inestimável. Uma ligação forte e precisa com o passado distante. Em uma árvore.

 

Portanto, da próxima vez que você estiver em uma região mais afastada da cidade, mais perto do ambiente natural, respire fundo e desfrute, provavelmente você estará bem próximo da magia e do divino, ou das melhores história que já vivenciou.

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