Carta Às Pessoas-Escritoras Brasileiras Da Especulação: Escrever a Vulnerabilidade
- Luis F. Buzzato

- 13 de abr.
- 4 min de leitura

Caras pessoas-escritoras do Brasil, escrevo um texto subversivo aqui. Não é apenas mais um ensaio, mas carta encarecida para aqueles que usam a linguagem enquanto estética, especialmente no caso da escrita pela especulação: criar mundos, línguas, realidades, criaturas, novas formas de vida.
Moramos no país que mais mata pessoas LGBTQIA+ (ainda mais letal para pessoas trans), no país que bateu o recorde de feminicídios no último ano, no país em que 86% das 4.000 mortes realizadas pela polícia são pessoas negras... e a lista segue. O nosso país mata. O Brasil Mata. Sem objeto direto nessa oração. Só Mata. Qualquer pessoa, qualquer vida, qualquer floresta.

Como escrever ficção-especulativa em um cenário desses? Qual é a nossa resposta diante de tudo isso? Uma das possibilidades me ocorreu quando lia a entrevista “Minha Vulnerabilidade é o Meu Poder” de Ocean Voung, traduzida pela incrível Julia Raiz, quando o autor diz que precisamos escrever com cuidado:
"[...] Sempre senti que o cuidado é a raiva melhorada. O cuidado é o resultado da raiva, e eu diria que é por causa da raiva que muitas coisas são feitas. [...] Então escrever, para mim, no melhor dos casos, é um ato natural de cuidado, porque você está trabalhando em um material que é muito delicado." (Voung & Raiz, Minha Vulnerabilidade é o Meu Poder, 2026, Chão de Feira, pg.6)
Talvez, pessoa-escritora, estejamos na hora de se levantar e dizer simbolicamente: basta. Basta de tanta morte. Basta. E são nos nossos atos simbólicos que construímos um discurso pela vida, seja ela qual for. Escrever pela vida não é seguir a regra do moralismo conservador, escrever pela vida é saber nomear as violências que permeiam nosso entorno e lembrar de quem as sofre diariamente.
Para isso, sem esquecer que elas fazem parte de quem somos e de que lugar se fala, precisamos sair de nossas identidades:
"Acredito que a outridade é um trabalho mais certeiro. Quanto mais escrevo, mais entendo que estou construindo um cômodo, estou criando espaço para as pessoas, e ler é um esforço de criar espaço. Você constrói uma sala, as pessoas a ocupam." (Voung & Raiz, Minha Vulnerabilidade é o Meu Poder, 2026, Chão de Feira, pg.8)
Escrever é um espaço discursivo, pessoa-escritora. Precisamos escrever um espaço em que as pessoas possam ocupar, fazer aterramento, assentar estruturas, dialogar com a linguagem e posteriormente com o mundo. Existe uma ideia vazia de que o discurso é codependente da vida, mas é o oposto: a vida é inventada pelo discurso, já que ele permeia todos os níveis da língua, da palavra aos livros. Está em tudo. E a pessoa-escritora inventa seu discurso. Inventa a vida. Entende o poder de sua caneta?
Voung fala de queeridade como rota. O termo consiste em quebrar os caminhos, as forcas de controle, os arames farpados impostos por quem tem o poder e abrir nova trajetória na mata do incerto. É quebrar a norma heteronormativa de seguir o que foi proposto, substituir o sistema binário de “sim” ou “não” por “pode ser” e “por quê?”.
O trabalho da pessoa escritora não se refere tanto a definir algo, mas a abrir espaço para o empenho da curiosidade, alargar o teatro do maravilhamento, e isso para mim é algo bastante queer. Mas não é algo somente disponível para as pessoas queer, a heteronormatividade pode ser abandonada se você tiver coragem de fazer isso. (VOUNG & RAIZ, Minha Vulnerabilidade é o Meu Poder, 2026, Chão de Feira, pg.10)
Pessoa-escritora, levante-se: é a hora do cuidado, levantar-se durante a bagunça e dizer algo, fazer algo por si e pelo outro, pois nas nossas dores habita o poder essencial de transformação e revolução. Chegou a hora de se substanciar em linguagem pela vida que temos levado. Basta de morte. Basta! Nem uma vida a menos!
Nossa Vulnerabilidade é o Nosso Poder:
"Acho que criamos barreiras para escondê-la, construímos mecanismos por vergonha do vulnerável, mas o vulnerável é o mais normal, mais humano do que a bravata ou mesmo a ironia ou a máscara masculina do poder." (VOUNG & RAIZ, Minha Vulnerabilidade é o Meu Poder, 2026, Chão de Feira, pg.13)
O ocultista Alesteir Crownley descreve Thoth em seu tarot, ilustrado por Lady Frieda Harris, pensando-o na carta do Hierofante como o guardador de Aeon, a divindade que regerá os próximos passos do mundo.

Todo nascimento do Aeon, pela cosmologia de seu tarot, significa a morte de seu antecessor; é sobre o paradigma daquilo que se vive hoje e o que quer se viver amanhã. A realidade da morte regida pelo Aeon da violência e do paradigma está em vigor, mas em certa decadência. Já o próximo, rege o amor e todas as formas de vida; a qual paradigma os escritores da especulação, responsáveis por criar vínculos com o imaginário, destinam sua escrita? Ao da morte ou ao da vida?
Escrever a especulação é como jogar cartas de tarot: ler o mundo por outros signos.
São tantas as perguntas que destino à classe escritora, mas estou atado pelas impossibilidades e limites que a linguagem enseja enquanto experiência limítrofe. No nascimento do novo Aeon, a palavra pela especulação é o berço seguro daquilo que a humanidade precisa. É necessária a habilidade de dominar a linguagem, o discurso e as enunciações em busca da vida; lembrando-se sempre do cuidado como palavra de ordem.
REFERÊNCIAS:
VUONG, Ocean. Minha vulnerabilidade é meu poder. Tradução e transcrição de Julia Raiz, Belo Horizonte: Chão da Feira, 2026. (Caderno de Leituras, n. 188).




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