"Devoradores de Estrelas" e a importância das diferenças para a solução de um destino apocalíptico
- André Agueiro
- há 2 dias
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Existe uma certa beleza na possibilidade de o ser humano algum dia encontrar outras vidas no vasto universo em que estamos inseridos, e até mesmo na tentativa de comunicação e parceria entre duas espécies tão diferentes entre si. Essa talvez não seja a premissa principal de “Devoradores de Estrelas”, livro de Andy Weir que recentemente ganhou uma adaptação cinematográfica tendo Ryan Gosling como protagonista, porém definitivamente é o que torna o filme especial e emocionante em situações em que os sentimentos surgem de forma genuína.

A obra é muito bem adaptada para as telas de cinema, pois acredito que os roteiristas conseguiram cortar partes muito mais extensas do que o necessário, que são detalhadas no livro, a fim de tornar tudo mais dinâmico para um filme que pode ser considerado talvez o maior blockbuster da ficção científica até o momento neste ano.
A história gira em torno do professor de Biologia Ryland Grace, quando a Terra encontra, estranhamente, uma “linha” de seres vivos alienígenas — chamados de astrofágicos — que estão diminuindo o brilho do Sol, o que geraria mudanças catastróficas para a atmosfera do nosso planeta. No começo da narrativa, Grace acorda numa nave espacial em outro sistema solar e logo descobre que é um dos responsáveis por descobrir o motivo de a estrela Tau Ceti, que fica a 12 anos-luz da Terra, não estar tendo sua luz diminuída quando todas as estrelas ao redor estão, o que traria, assim, a solução para o problema terrestre.
O que Grace não esperava era que, ao chegar a uma distância segura da estrela, ele encontraria outra nave espacial, completamente ilógica para padrões humanos, mas que certamente guardava uma outra espécie alienígena. É a partir disso que encontramos Rocky, um ser vivo que vem do planeta chamado, na obra, de “Erida”.
O encontro dos dois e tudo o que se sucede é justamente o que traz a magia desta narrativa. Posso dizer que, por alguns momentos, eu até esqueci que ambos estavam em suas naves espaciais para salvar seus planetas contra os astrofágicos, pois a conexão estabelecida e a cooperação entre ambos, mesmo possuindo características físicas e mentais completamente diferentes, são de brilhar os olhos.
Uma das perguntas que a ficção especulativa possui é a de imaginar outros planetas que contenham vida, como ela se sustenta e quais condições a permitiram sobreviver na biosfera presente em seu planeta. Certamente, o livro explora muito mais essas questões, o que deixa o leitor instigado a querer descobrir como poderia haver vida em um planeta com pressão atmosférica bem mais alta que a da Terra e, para além disso, quais são suas fontes de subsistência em um planeta tão discrepante de onde vivem os humanos. O autor respeita bastante os limites entre ficção e ciência, misturando conceitos científicos já existentes para que estes se encaixem o melhor possível na narrativa exposta. Confesso que meus conhecimentos remanescentes de Biologia, Química e Física foram bastante aguçados no livro. Mesmo não conhecendo alguns conceitos básicos para quem é especialista nesses assuntos, tudo faz sentido para a história, e é possível entender a lógica das explicações abordadas, até porque o personagem principal é um professor.
Indo adiante, a obra traz, de forma bem simplificada, como seria tentar comunicação com uma espécie constituída de rochas e com um sistema de linguagem totalmente alternativo ao que usamos. Assistir a todo esse processo de aprendizado entre dois seres distintos é o que me deixou mais inspirado para escrever esta coluna hoje. Posso arriscar dizendo que o filme expande um pouco além do que fez um dos meus filmes favoritos que também aborda este aspecto, “A Chegada”, de 2016.
É tão sensível e delicado como a perseverança dos dois em prol de um objetivo maior os ajudou a entender suas diferenças, suas fraquezas e qualidades, e também como lutar com os recursos que cada um possuía para descobrir uma solução para o problema dos dois planetas.
Sendo assim, Grace, um cientista da Terra, e Rocky, um engenheiro de Erida, passam por várias dificuldades para desvendar o mistério que salvaria suas populações do destino apocalíptico que as aguardava. Toda a trajetória entre suas tentativas e acertos só é possível por sua cooperação, pois suas concepções e experiências, nada semelhantes, em planetas diferentes, são o que tornam possível o encontro da solução que tanto buscavam. Um contraponto disso é pensar que uma das pessoas vitais para que a nave “Hail Mary” decolasse e salvasse a Terra, Stratt, já tinha mencionado que, sem essa missão, por mais devastados que os países da Terra se encontrassem devido às mudanças climáticas, eles provavelmente entrariam em guerras, disputando por alimento e suprimentos, em vez de cooperarem para a sobrevivência de todos — o que é óbvio que aconteceria conosco nesse cenário, devido à situação geopolítica atual.
Em conclusão, é doloroso para mim, de vez em quando, entender que somos seres egoístas e pensamos no nosso próprio umbigo, e que, numa situação similar à apresentada no livro e no filme, nós conseguiríamos acabar uns com os outros mais rápido do que as mudanças climáticas — o que já é algo que está acontecendo no momento.
Dentre tantos conflitos e guerras recentes, que existem porque pessoas se sentem superiores por nascerem em certo ponto geográfico do planeta, além de outros motivos, é uma fonte de tristeza para mim pensar que talvez seria mais fácil cooperarmos com uma espécie alienígena do que com a nossa própria. Devoradores de Estrelas é uma obra muito otimista e não tenta ser diferente em nenhum momento, e talvez um filme otimista, com uma fotografia esteticamente prazerosa, seja algo de que precisamos no momento para ter o mínimo de sanidade no mundo bizarro em que vivemos hoje, onde até as ficções científicas mais distópicas se manifestam como realidade em determinados contextos.
