Nenhum império é inevitável: softwares no lugar das Caravelas, ficção científica e o Neocolonialismo Digital na América Latina
- Gabriel Mello
- há 12 minutos
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Há um equívoco bastante confortável em imaginar a inteligência artificial como um fenômeno puramente técnico; como um produto neutro e consequência direta de avanços inevitáveis. A ficção científica, desde seu nascimento emblemático com a obra "Frankenstein", de Mary Shelley, nos ensinou o contrário: toda tecnologia é inseparável das estruturas de poder que a produzem. Se o século XIX temia o cientista que ousava imitar Deus, o século XXI precisa temer algo menos romântico e mais sistêmico: o software que é utilizado como instrumento de reorganização global do poder.
Vivemos um momento em que os grandes modelos de inteligência artificial são desenvolvidos, treinados e distribuídos majoritariamente por conglomerados sediados nos Estados Unidos. Não se trata de um simples detalhe geográfico, mas de uma infraestrutura política. Dados extraídos globalmente alimentam sistemas privados; idiomas periféricos são sub-representados; visões de mundo dominantes tornam-se padrão algorítmico. Se o colonialismo clássico exportava bandeiras e tropas, o neocolonialismo digital exporta plataformas, termos de uso e dependência tecnológica.
A ficção científica sempre desconfiou dos impérios. Em "Neuromancer", de William Gibson, o poder não está mais em Estados-nação, mas em corporações transnacionais que controlam redes invisíveis. A soberania desloca-se para quem domina o fluxo de informação. Hoje, ao observarmos a centralização da computação em nuvem, dos chips avançados e dos modelos proprietários, percebemos que a distopia corporativa não era exagero estilístico; era uma leitura antecipada de tendências.

Mas o recorte latino-americano exige ir além da crítica à Big Tech. A história da América Latina é marcada por ciclos de dependência econômica e intervenção externa. O neoliberalismo dos anos 1990, consolidado sob pressão de organismos financeiros internacionais, promoveu privatizações e enfraqueceu a capacidade estatal de investir em ciência e tecnologia próprias. O resultado é visível: importamos plataformas, alugamos infraestrutura e pagamos em dados. Nossa matéria-prima contemporânea — informação comportamental, cultural e linguística — é extraída e refinada fora de nossas fronteiras.
A ficção científica latino-americana, por sua vez, tem respondido a isso com crescente consciência política. Diferentemente do tecnoutopismo californiano, muitos autores da região abordam tecnologia como extensão de desigualdades históricas. Não é coincidência que, em diversas narrativas recentes, a vigilância algorítmica apareça associada a periferias urbanas, militarização e controle social. A pergunta não é “as máquinas vão dominar?”, mas “quem já está sendo dominado por meio delas?”.
Nesse ponto, o diálogo com a tradição do gênero se aprofunda. Quando Ursula K. Le Guin escreveu "The Dispossessed", por exemplo, não estava interessada apenas em naves e planetas, mas em compreender modelos econômicos concorrentes. A ficção científica, em sua vertente mais madura, sempre foi uma crítica a sistemas. Hoje, o sistema é o capitalismo de dados; uma fase do neoliberalismo em que a subjetividade vira ativo financeiro e o comportamento, mercadoria preditiva.
E onde entra a extrema direita latino-americana nesse cenário? Em muitos países da região, discursos autoritários têm se alimentado justamente de ecossistemas digitais opacos, potencializados por algoritmos de recomendação e segmentação. A desinformação não é um efeito colateral: é uma externalidade lucrativa de plataformas cuja lógica privilegia engajamento acima de coesão social. Assim, softwares desenvolvidos sob uma lógica corporativa global acabam operando como aceleradores de radicalização local.
A ficção científica clássica temia inteligências artificiais autônomas que escapavam ao controle humano — como em "2001: Uma Odisseia no Espaço". O presente nos mostra algo mais inquietante: sistemas que não precisam ser conscientes para produzir efeitos políticos sofisticados. Eles apenas otimizam métricas. A ideologia não está na máquina como intenção, mas na arquitetura que decide o que é visível, rentável e amplificável.
O neocolonialismo digital, portanto, não se manifesta por ocupação territorial, mas por dependência estrutural. Países que não controlam sua infraestrutura tecnológica tornam-se consumidores de decisões algorítmicas alheias. Políticas públicas passam a depender de plataformas privadas; campanhas políticas se organizam em ambientes cujo código-fonte é fechado; culturas locais competem com fluxos massivos de conteúdo estrangeiro moldado por lógicas comerciais externas.
Nesse contexto, a ficção científica escrita hoje na América Latina enfrenta um desafio singular: imaginar futuros onde a tecnologia não seja apenas importada, mas reapropriada.
A pergunta central deixa de ser “a IA vai substituir o escritor?” e passa a ser “quem controla os meios de produção algorítmica?”. Se o século XX discutiu a propriedade dos meios industriais, o século XXI discute a propriedade dos modelos e dos dados. A ficção científica, enquanto laboratório de possibilidades, tem a responsabilidade de tornar visível essa disputa.
Não se trata de demonizar tecnologia nem de romantizar atraso. Trata-se de reconhecer que, em tempos de neocolonialismo digital, softwares não são neutros. Eles carregam visões de mundo, interesses econômicos e assimetrias históricas. A extrema direita compreendeu rapidamente o poder mobilizador das redes; movimentos progressistas e intelectuais ainda tateiam estratégias para disputar esse espaço sem reproduzir sua lógica tóxica.
Se o gênero nasceu interrogando os limites da ciência, hoje precisa interrogar os limites do mercado. Talvez o verdadeiro gesto radical da ficção científica contemporânea não seja imaginar máquinas conscientes, mas imaginar infraestruturas justas. Em um mundo onde softwares substituem caravelas, e algoritmos substituem tratados desiguais, escrever sobre futuros alternativos é também disputar o presente.
A criatura de Shelley era visível, trágica e singular. Os softwares que moldam nosso tempo são invisíveis, distribuídos e sistêmicos. A ficção científica, mais uma vez, é convocada a especular aquilo que opera nas sombras, e a lembrar que nenhum império, nem mesmo o digital, é inevitável.




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