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Recife Frio: Kleber Mendonça, jabuticabeiras e um filme que não existe

Carolina Oliveira











Depois de todo o alvoroço em torno do filme “O Agente Secreto” (2025), que deveria, sim, ter ganhado o Oscar deste ano — não que eu, particularmente, como crítica de cinema, me preocupe profundamente com a premiação estadunidense, mas reconheço que ela traz a visibilidade de que precisamos para fazer nosso cinema rodar! —, o único filme que me vinha à cabeça a todo momento do diretor pernambucano — e que, na verdade, nunca saiu dela desde o primeiro dia em que o assisti — era “Recife Frio” (2009).


Indexado também como uma ficção científica, “Recife Frio” é o que podemos classificar como um mockumentary ou, no bom português, um falso documentário. Isso significa que ele brinca com as fronteiras entre os filmes de ficção e documentário, usualmente entendidos como antônimos na produção cinematográfica. O tal do falso documentário tende a ocupar um lugar delicado nas produções, já que é considerado, como argumenta o pesquisador Alfredo Suppia (2013), uma espécie de “filho bastardo”. Assim, ele é um híbrido muitas vezes renegado pelos mais puristas, o que, por si só, já chama a atenção por causar incômodo e estranheza, desmontando a ideia de documentário como um espelho da realidade — ainda que ele possa se respaldar nela para existir.



No filme, que começa como uma reportagem de um programa argentino, a investigação se dá a partir de um meteoro que cai sobre a cidade de Recife e, daí em diante, a temperatura do local fica completamente bagunçada, transformando a cidade tropical em um lugar frio, chuvoso e cinzento. A região, conhecida pelo calor intenso, agora enfrenta temperaturas baixíssimas, o que faz com que a população tenha que se adaptar ao novo clima: roupas, costumes e modos de viver completamente diferentes, como num futuro distópico em que é preciso se adequar ao “novo normal” para sobreviver.


Cientistas isolando o meteoro em Recife
Cientistas isolando o meteoro em Recife

Os pinguins agora frequentam as praias de Recife e, vistos como uma nova oportunidade de mercado, ficam disponíveis para adoção por estrangeiros por apenas alguns dólares. Os artesanatos locais passam a representar a cidade com outra paisagem: casinhas cobertas de neve e pessoas em volta da lareira — algo antes visto apenas no cinema, como aponta um dos artistas. Já os prédios caríssimos que habitam a orla da praia perdem seu valor imobiliário por terem se tornado frios, inabitáveis e sem o devido aquecimento.


Cômica e, ao mesmo tempo, absurda, a narrativa se constrói por meio de entrevistas que revelam opiniões quase sempre bem-humoradas: o grupo de repentistas faz rima com a nova situação; o Papai Noel pernambucano agora vive melhor com a temperatura adequada às suas vestes natalinas; e a empregada Gleice, que trabalha para uma família de classe média, perde o seu “quartinho dos fundos” — o local mais quente da casa — para o adolescente da família, uma situação absurda, mas não incomum em uma sociedade que ainda vive sob os ecos de uma herança escravocrata.


Repentistas recifenses cantando sobre o frio
Repentistas recifenses cantando sobre o frio


“Recife Frio” possui tantas camadas quanto as inúmeras roupas que agora os recifenses precisam vestir para se proteger do frio. Podendo ser lido também como uma ecodistopia — subgênero relativamente comum em nosso cinema a partir dos anos 1970 —, se, lá em 2009, o filme pareceria uma situação distante da realidade, hoje — pelo menos a partir da minha experiência em sala de aula, exibindo o filme para discutir os limites do gênero —, ele já não causa tanto alvoroço, mas abre possibilidades para pensar em outras situações tão surreais quanto e, ao mesmo tempo, tão próximas de nós.


Gleice passando frio em um quarto que não é dela
Gleice passando frio em um quarto que não é dela


Em uma das aulas nas quais passei o filme de Kleber, um grupo de estudantes começou a pensar na proposta de trabalho final do curso. Relembrei o filme, trazendo-o como uma possibilidade de referência, e uma das alunas começou a contar sobre uma experiência que, a princípio, não sabíamos onde iria dar. Ela contou que, um dia, chegando mais cedo para a aula, ouviu uma conversa entre o jardineiro da escola e alguém que passava por ali. Pelo visto, o jardineiro havia dado alguma dica sobre como cuidar de uma planta, e a outra pessoa estava agradecendo por isso. Em seguida, perguntaram ao jardineiro se ele poderia arrumar uma muda de jabuticabeira — uma das maiores árvores que existem no pátio da escola. O jardineiro olhou, preocupado, e respondeu: “Está cada vez mais difícil conseguir uma muda boa, ela não vinga mais”. Nesse momento, a aluna, que estava de “butuca”, se assustou e lembrou que, algumas semanas antes, havia pedido ao pai que comprasse jabuticaba na feira, e ele não havia encontrado.


A reação imediata foi de susto — “será que não vou conseguir mais comer jabuticaba daqui para frente?” —, ela se perguntava, trazendo o questionamento para dentro da sala de aula. Diante da situação dramática, a única ação possível para os estudantes de audiovisual naquele momento era pensar em um filme que falasse sobre isso. E foi aí que começamos a criar um roteiro mental sobre a história de uma jabuticabeira — a última do mundo —, que se encontrava em uma escola da Zona Leste de São Paulo. As cenas envolveriam seguranças que a guardariam com zelo para que não fosse roubada ou destruída; repórteres de todos os lugares que viriam até a escola para mostrar tal raridade; grupos de proteção ambiental que se juntariam para defendê-la vorazmente, enquanto negacionistas evitariam o assunto e continuariam suas vidas de destruição. Tínhamos um filme sobre a última jabuticabeira do mundo e a ideia, apesar de boa, não era tão distante da nossa realidade — afinal, a jabuticaba-branca (diferente da que temos na escola, que é a roxa) está, sim, em risco de extinção.


A ideia do filme era empolgante, mas sua motivação era perturbadora — tanto que os estudantes optaram por fazer um filme de terror (não que o primeiro também não fosse aterrorizante). Essa história não escrita ainda ronda os meus pensamentos toda vez que passo ao lado da jabuticabeira. Torço para que, se um dia esse filme existir, ele seja apenas a recordação de uma época em que as pessoas se achavam superiores a qualquer outra criatura sobre a Terra — e não uma intuição sobre o que vem pela frente, como tem sido “Recife Frio”, um dos meus filmes brasileiros de ficção científica prediletos.

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