Diálogos entre Donna Haraway e Aline Valek: pensar o mundo para além do humano
- Carolina Oliveira

- há 5 horas
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Desde o início da minha pesquisa sobre ficção científica no doutorado Donna Haraway e Aline Valek – a filósofa e zoóloga estadunidense, e a escritora e ilustradora brasileira, estavam no meu radar de leituras. A primeira, com o texto famoso e respeitadíssimo “Manifesto Ciborgue” de 1985, e a segunda com os livros lançados em conjunto com Lady Sybylla e intitulados de “Universo desconstruído – ficção científica feminista” (2013; 2015), antologias em dois volumes que reuniam uma série de contos de autoras e autores brasileiros, propondo, principalmente, uma quebra de estereótipos femininos no gênero.
Confesso que ao longo dos anos o tempo dedicado aos contos foi bem menor que as leituras mais teóricas, – pelo menos era desse jeito que eu dividia na minha cabeça. Além disso, a literatura em si não era o meu objeto de estudo, mas o cinema, ainda que muitos recortes e modos de análise pudessem ser compartilhados, sobretudo ao pensar a representatividade feminina, seja no âmbito das mulheres como autoras ou personagens.
Anos se passaram até que eu compreendesse que as figuras híbridas das quais Donna se referia em um de seus textos mais clássicos, – essa mistura de máquina e humano – poderiam ser expandidas, considerando o que a própria autora chamaria alguns anos depois de espécies companheiras, o que, confesso, me interessaria mais que os ciborgues da primeira leitura. No livro “O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa” (2021), era praticamente impossível seguir com leituras em uma divisão sobre o que era teórico – e útil para minhas análises acadêmicas –, e o que não era. Os textos de Donna me ensinaram que essa imbricação não era passível de uma separação realmente objetiva, pois são, para além de uma coisa que desejamos incessantemente classificar e nomear, várias coisas em uma coisa só.

A prova de que as “coisas” acadêmicas não estavam só na academia, e o que estava fora dela valia tanto quando o que colocávamos dentro dela, veio com esses textos. Embora a FC fale também de outras formas de vida, ela invoca, antes de tudo, a nossa própria vida: os ciborgues não estavam exatamente num futuro distante e distópico, e as alteridades significativas tinham a ver com fronteiras cada vez menos protegidas entre as espécies (e aqui consideramos fortemente nossos próprios companheiros animais de estimação). O interessante disso tudo é que, apesar de não fazer ideia se essas duas autoras já haviam se lido algum dia, elas compartilhavam por meio dos textos um jeito maravilhoso de se aproximar e reconhecer a existência do outro. Contudo, o outro a que me refiro aqui não é exatamente um outro como você, leitora ou leitor, ainda que também possa sê-lo, mas um outro que é distinto do “eu”, do “nós”. Basicamente, estou falando de tudo aquilo que não é semelhante ou próximo do ser humano. E é justamente aí onde eu promovo um encontro entre essas duas mulheres, encontro é o termo que costumo usar ao costurar minhas referências em um texto.
Foi um texto de cada autora que, juntos, fizeram a minha cabeça explodir, ainda que eu não estivesse descobrindo nada de exatamente novo: o re(encontro) com seres que sempre estiveram por perto, mas escondidos sob palmos de terra quase imperceptíveis para uma garota da cidade e acostumada com o concreto. Em “Ficar com o problema: fazer parentes no chtuluceno” (2023), Donna propõe que enfrentemos as crises ecológicas de uma forma realista, dispensando a esperança salvadora e considerando a habitação da terra de uma maneira crítica, fazendo parentescos (o que não significa se reproduzir ou fazer bebês humanos necessariamente, mas cultivar a vida entre outras espécies), e assumir nossas responsabilidades na destruição do planeta. A ideia de ficar com o problema não se limita a assumi-lo como parte irresolvível, mas como algo que precisa ser lidado, e não ignorado. Apesar disso, lidar com os problemas não significa resolvê-lo em prol das pessoas, somente, como se fôssemos a única vida possível no planeta terra. É nesse momento que os parentescos ou alteridades significativas são tão importantes quanto qualquer um de nós, ou seja, é passada a hora de deixar o antropoceno de lado!

Alguns desses seres citados pela zoóloga são, justamente, aqueles que estão embaixo da terra, o que ela vai chamar de seres ctônicos. Sim, estamos falando de insetos, bactérias, vidas tentaculares e seres simbióticos que tampouco vemos, sabemos nomear ou entendemos para quê servem. É bom deixar o nojinho de lado e concentrar nessa explosão de consciência sobre o que tem embaixo da terra que pisamos, já que esses seres importam tanto quanto aqueles que pisam nessa terra. É nesse lugar embaixo da terra que um dos contos de Aline Valek entra na jogada, provando mais uma vez que as histórias da FC são capazes de ultrapassar elaborações teóricas, aproximando-se do inesperado, de seres que tampouco sabemos os nomes ou de uma minhoca, por exemplo, algo tão próximo de qualquer pessoa que seja capaz de cuidar de uma vaso de planta.
“A mulher que vestiu a montanha” (2023) é um texto da Aline que foi publicado no livro “Irmãs da revolução: Antologia de ficção especulativa feminista”, organizado por Ann e Jeff VanderMeer. Ele é o último de uma lista que reúne várias mulheres escritoras ao redor do mundo que pretendem, como nos livros do “Universo Desconstruído”, propor uma leitura da sociedade – ou o que se espera dela –, a partir das lentes do feminismo.

No conto, Devra – uma escultora turística, é responsável por criar cenários virtuais para as pessoas visitarem, já que não é mais possível fazer isso de verdade. Devra é chamada para uma conversa com o seu superior, já que ela teve acesso a informações e vivências sobre um local real – uma montanha –, o que implicaria em uma ameaça para todo o sistema. Devra conseguiu, ao tomar o corpo de uma serpente de forma virtual, se embrenhar em um lugar proibido e que há tempos ninguém visitava de fato. Esse acesso proibido aos seres humanos desperta em Devra não só uma consciência diferente, mas sensações que antes o seu corpo era incapaz de sentir: ela percebe os sulcos e as veias abertas pelo garimpo, as vibrações e pulsações da montanha, ela consegue sentir o peso da idade de milênios desse amontoado infinito de pedras.
(...) vestida de montanha, percebeu-se gigante, antiga, viva. Era estranho como ter um corpo de pedra não carregava a sensação de rigidez e imobilidade. Pelo contrário, a montanha era cheia de vibrações minúsculas e constantes, ou de pulsações que vinham como soluços com intervalos de milênios. Além disso, era pura memória. Toda ela, de uma vez. (Trecho do conto)
Depois de descobrir a capacidade de vestir-se de qualquer outro ser, de tomar qualquer outro corpo para si e sentir o que esse corpo pode sentir, não há mais ponto de retorno. Devra e seu superior, maravilhados com tal capacidade, vão até superfície para tentar encontrar outros seres esquecidos pela virtualidade. Na história, a escultora turística parte em busca de pessoas com asas de pássaro, como ela mesma diz, e se dá conta de que ela também é parte da montanha.
Após essas leituras, assim como Devra, é impossível seguir a vida da mesma forma de antes, ainda que eu não saiba exatamente o que posso fazer de diferente, mas compartilhar essas reflexões me parece uma boa ideia para começar. Esse texto eu dedico especialmente aos meus cachorros companheiros, Rita e Tafarel, que seguem sempre ao meu lado, dormindo profundamente no sofá ou roncando sob o sol enquanto eu costuro as palavras no notebook, afinal, o apoio deles é precioso tanto para começar quanto para acabar um texto.




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