top of page
  • Instagram

Toda ficção é política

Danilo Heitor















Recentemente, uma citação de Andy Weir, autor de The Martian (“Perdido em Marte”) e de Project Hail Mary (“Devoradores de Estrelas”), gerou debate nas redes. Traduzida automaticamente do inglês para o português no X, ela dizia (aqui, a citação original em inglês):

 

Eu não gosto de comentários sociais. Tipo… eu realmente odeio. Quando estou lendo um livro, só quero me entreter, não levar sermão do autor. Além disso, isso estraga o encanto da história se eu sei que o autor tem uma agenda política ou social a defender. Eu deixo de especular sobre todos os possíveis desfechos da trama porque sei, com certeza, que o universo daquele livro vai conspirar para garantir que a agenda política do autor seja validada. Eu odeio isso. Eu não coloco nenhuma política ou comentário social nas minhas histórias. Quem acha que vê algo assim está interpretando por conta própria. Eu não tenho nenhum ponto a provar, nem estou tentando influenciar a opinião do leitor sobre nada. Meu único objetivo é entreter, e eu me atenho a isso. Por isso, também não falo publicamente sobre minhas opiniões políticas pessoais. Sinceramente, nem quero que os leitores saibam. Não quero que isso fique na cabeça deles enquanto leem o que eu escrevo.

 

Os grifos são meus.


Parece brincadeira discutir esse assunto em pleno 2026, ainda mais quando descobrimos que essa fala do autor é de 2017, mas resolvi gastar esta coluna para isso.

Antes de começar, deixo claro que, sim, eu sei que muitas vezes polêmicas são criadas apenas para engajamento. É o caso aqui: o perfil que resgatou a citação não disse que ela era de 2017 e aproveitou o lançamento do filme para se promover. Por isso mesmo, não o linkei aqui, mesmo sabendo que qualquer busca de dois segundos no Google trará o resultado para quem quiser ler. Apesar disso, acredito que discutir política em ficção científica, um gênero recheado de autores, leitores e comentadores conservadores, me parece sempre necessário, principalmente porque, em geral, o que está sendo chamado de “política” é, na verdade, uma opinião progressista ou radical.


Vamos começar pelo grifo mais problemático: Eu não coloco nenhuma política ou comentário social nas minhas histórias. Isso é simplesmente impossível. Desde que os dois primeiros seres humanos negociaram (ou disputaram) qualquer coisa na História, eles fizeram política. Se você escreve uma história que se passa no mundo contemporâneo, sem nada fantástico, ela já será automaticamente um comentário social sobre o mundo contemporâneo. Se você escreve ficção futurista, como é o caso de Weir, isso se torna ainda mais óbvio: ao especular o futuro, você precisa necessariamente especular as forças políticas desse futuro, nem que seja para assumir que elas seguem sendo as mesmas de hoje. Quem levou os astronautas para Marte em “Perdido em Marte”? Por que foi essa agência espacial e não outra? As perguntas são retóricas, e você, eu e o autor sabemos as respostas.


Quando Weir diz que “odeia comentários sociais”, ele está dizendo indiretamente que odeia perspectivas de futuro melhores ou aquelas em que as forças políticas sejam diferentes das de hoje. Ou seja, ele não odeia o comentário social, não odeia a política inerente a qualquer obra de arte; ele odeia a ideia de mudança. Essa mensagem se reforça quando Weir afirma que estraga o encanto da história se ele sabe que o autor tem uma agenda política ou social a defender. Então, se o autor defende qualquer mudança social, a história está estragada? Por quê?


Para responder, é impossível não olhar para quem é Andy Weir.

Andrew Taylor Weir nasceu nos Estados Unidos em 1972, filho de um físico de partículas e uma engenheira elétrica. Formou-se programador e, com 39 anos, lançou The Martian. Hoje, com 53 anos, vive com a esposa, é agnóstico, declara-se “economicamente conservador e socialmente liberal”. Também declara sofrer de afantasia, ou seja, é incapaz de visualizar voluntariamente imagens mentais. Por último, mas não menos importante, Weir é um homem branco. Todas essas informações são públicas.


Em uma época em que personagens de ficção científica e fantasia vêm se diversificando, com mulheres e pessoas negras como protagonistas, o que significa um homem branco estadunidense de 50 anos, famoso e com dinheiro, dizer que odeia comentários sociais e que não fala publicamente sobre suas opiniões políticas pessoais? Como “separar autor da obra”, movimento bastante controverso que, indiretamente, Weir está sugerindo, frente a esse tipo de declaração?


Para ampliar a discussão, trago aqui a resposta do autor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão, também um homem branco, hoje com 89 anos, igualmente confortável financeiramente, durante uma entrevista que precede seu livro “O homem do furo na mão e outras histórias”, de 1993:

 

O ato de escrever é prazer, diversão. É a sensação de poder, de domínio. Criar gente, fabricar fantasias, inventar cidades, dar vida e dar morte, criar um terremoto ou furacão, fazer o que eu quiser. Escrever é um jogo, brincadeira. Conseguir segurar, prender uma pessoa, mantê-la atrelada a si (é o leitor diante do livro: sua sensação divina). Escrever é meu modo de gritar contra as dores do mundo, o sofrimento da condição humana, é meu depoimento sobre minha época, e a meu respeito, sendo eu um cidadão, síntese de toda uma classe social. Escrever é uma forma de tentar conquistar o amor das pessoas.

 

Grifo outra vez meu.


Li “O homem do furo na mão” na adolescência. Esse trecho da entrevista nunca me abandonou. Loyola Brandão, assim como Weir, não é um cidadão que precisa se preocupar com a polícia ao andar na rua, com o que comer no final do mês, com alguma conta para pagar, com a possibilidade de ser assassinado por ser homem ao encerrar um relacionamento. Poderia tranquilamente esconder seu posicionamento político e odiar “política” em obras de ficção. Apesar disso, o autor de “Não verás país nenhum”, romance distópico ambientado em uma São Paulo autoritária, escrito durante a ditadura civil-militar brasileira, sabe que, ao escrever, está inescapavelmente fazendo um comentário social.

Mais: sabe que representa uma época e uma classe social. Muitos são os motivos da diferença de posicionamento entre os dois autores, mas, sendo eu professor de Geografia, não posso deixar de apontar um deles, fundamental ao meu ver: Weir e Loyola Brandão nasceram em pedaços diferentes da América. E isso, politicamente, significa muita coisa.


Quando mais jovem, tive contato com o livro “Você não pode ser neutro em um trem em movimento”, do autor estadunidense Howard Zinn. Mais velho que Weir, nascido antes de Loyola Brandão (Zinn nasceu em 1922 e morreu em 2010, aos 88 anos) e originário da parte norte da América, Zinn, um historiador, pacifista e antibelicista, entendeu algo que escapou a seu conterrâneo Weir: se você não fala nada, não comenta nada, não se responsabiliza por nada, você permanece no mesmo lugar. E, se esse lugar é a cabine de um trem em movimento, você está no comando, e o trem se move para uma direção específica.


Aproveito o gancho para terminar a coluna indicando duas obras de ficção científica que não têm vergonha de assumir seu comentário social inerente: “O Expresso do Amanhã”, produção sul-coreana-checa que é literalmente um trem dividido em classes sociais em movimento constante devido ao congelamento do planeta, e “For All Mankind”, série de ficção histórica estadunidense cuja quinta temporada está sendo lançada aos poucos e que parte da premissa de que a União Soviética chegou à Lua antes dos Estados Unidos.


Nela, o primeiro homem a chegar em Marte não nasceu em nenhuma parte da América. E o país de origem dele tem tudo a ver com a geopolítica alternativa da série.


Se você me leu até aqui, não tenho medo da “política” na arte. Ela sempre estará lá, e, quanto mais você souber disso, melhor compreenderá os motivos e as escolhas presentes em cada uma delas. E, se você resolver assistir a alguma das minhas indicações, um conselho: não convide o autor de “Devoradores de Estrelas”. Ele vai odiar.

 


Quero aproveitar o tema para dizer que lancei, em dezembro, um livro de ficção científica ambientado no Brasil e com protagonistas adolescentes: Projeto Futuro. Nele, duas amigas de escola tentam descobrir o que está por trás de um estranho e-mail enviado pelo pai de uma delas, ligando experimentos científicos do passado aos desaparecidos políticos da ditadura civil-militar brasileira.


O livro está concorrendo no Prêmio Amazon de Literatura Jovem. Aqui, uma entrevista comigo sobre ele. Se você resolver ler, vou adorar receber seu comentário.

Comentários


bottom of page