Graus de excentricidade e solidão de visionários na ficção científica
- Volnei Freitas

- há 6 dias
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Há um tropo recorrente na ficção científica que insiste em reaparecer, mesmo quando o cenário muda, a tecnologia avança ou o espaço narrativo se expande do laboratório para o cosmos: o visionário excêntrico e solitário. Não se trata apenas do gênio deslocado, nem somente o indivíduo apartado do mundo. Trata-se de uma figura liminar, suspensa entre dois estados – pertencimento e ruptura –, obrigada a escolher, cedo ou tarde, qual desses polos sacrificar pela capacidade de ver além.
A ficção científica, desde seus primórdios, parece sugerir que enxergar longe demais cobra um preço íntimo.
A ficção científica parece insistir numa tese incômoda: ver além não é um dom neutro. É uma condição que exige decisões irreversíveis e cobra um preço que raramente é pago em termos abstratos. O custo é íntimo, cotidiano, afetivo.
Em Frankenstein, de 1818, Victor Frankenstein encarna talvez a matriz mais pura dessa dicotomia. Sua excentricidade não reside apenas no experimento que ousa realizar, mas na lenta, quase imperceptível, recusa do mundo ordinário. À medida que se aproxima do segredo da vida, afasta-se da família, dos afetos, do cotidiano. Não é expulso da convivência humana, abandona-a.
O laboratório torna-se clausura; o conhecimento, isolamento. Cada avanço científico aprofunda uma escolha liminar: permanecer entre os vivos ou atravessar o limiar do conhecimento proibido. Shelley constrói um personagem que escolhe reiteradamente o isolamento como condição necessária para criar, até que a solidão deixa de ser meio e torna-se destino.
A solidão não é punição moral, trata-se de consequência estrutural da visão que escolheu sustentar.
Já em O Homem Invisível, de 1897, H. G. Wells radicaliza o tropo ao torná-lo literal. A invisibilidade de Griffin não é apenas óptica: é social, ética e afetiva. Griffin deixa de responder às regras do convívio, às expectativas do outro, à empatia mínima que ancora a vida em sociedade.
A excentricidade aqui não nasce apenas da genialidade científica, mas da corrosão progressiva do vínculo humano. A invisibilidade funciona como metáfora extrema de uma escolha ética: sem ser visto, ele não se reconhece mais obrigado a responder.
Wells revela o custo dessa decisão com precisão cirúrgica. A excentricidade, inicialmente científica, converte-se em descolamento moral; a solidão, antes circunstancial, transforma-se em antagonismo absoluto. O personagem cruza um ponto sem retorno em que já não é possível reintegrar-se ao mundo.
O autor parece nos perguntar: o que resta do sujeito quando ninguém mais o vê – por ironia, nem ele próprio?
Mais de um século após, em outra mídia, o filme Interestelar, de 2014, desloca esse tropo para o espaço profundo, e o reelabora sob uma luz que podemos entender como mais ambígua e madura. Cooper não é um cientista enclausurado nem um visionário corroído pelo orgulho. Piloto aeroespacial, sua excentricidade é funcional, quase silenciosa: compreende antes dos demais que a permanência é impossível.
A escolha liminar que lhe é imposta, salvar a humanidade ou permanecer com os filhos, não admite síntese. Não há conciliação possível. Cooper vê o que um círculo limitado de cientistas defende e que o restante da humanidade não pode, o colapso iminente e a necessidade do sacrifício, e por isso aceita uma solidão que não é fruto de arrogância, mas de responsabilidade.
O preço pago não é a loucura nem a monstruosidade, mas a ausência prolongada, o esvaziamento do tempo compartilhado, a perda irrecuperável do cotidiano.
Aqui, a ficção científica amadurece o tropo: o visionário não é punido por ousar, mas ferido por compreender cedo demais.
O que aproxima essas narrativas é menos a ciência que as estrutura, e mais a assimetria perceptiva que define seus protagonistas. Personagens que veem algo antes ou com demasiada profundidade, vivendo um descompasso: sabem algo que os outros ainda não sabem ou não suportariam saber.
A excentricidade surge como sintoma desse descompasso, não como traço de personalidade, mas como sintoma narrativo, como sinal externo de uma consciência deslocada no tempo, no espaço ou na ética. E a solidão, como efeito colateral inevitável. Em todos os casos, há um momento preciso, ainda que nem sempre explícito, no qual cruza-se um limiar. Antes dele, há escolha; depois, apenas consequência.
Talvez seja por isso que a ficção científica insista tanto nesses personagens. Eles encarnam uma angústia profundamente contemporânea: até que ponto compreender mais o mundo nos aproxima ou nos afasta uns dos outros? Do Mundo? Em uma era marcada por aceleração tecnológica, crises sistêmicas e futuros antecipados, o visionário solitário deixa de ser exceção e passa a funcionar como presságio.
A ficção científica, no fim, nunca falou apenas de máquinas, experimentos ou estrelas distantes. Falou e continua falando do custo humano de sustentar uma visão quando ainda não existe um mundo pronto para compartilhá-la.





Ótima reflexão meu caro Volnei. O poder da ficção científica é refletir sobre os problemas humanos através da ciência.
Muito interessante, nunca havia pensado sobre essa perspectiva. Acho que o livro devoradores de estrelas se encaixa bem nessa sua análise, e oferece uma mudança interessante, a de que a escolha não foi percebida mas não foi feita pelo personagem, foi feita por ele por uma outra pessoa : )