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Jesus Alienígena e a Poesia Especulativa










Parte 1:

me conta Jesus sobre a sua coroação.

 

Dá pra ser engraçado

 

andei por uma calçada

onde uma planta com muitos espinhos

não deixava ninguém se aproximar da casa

 

 

que parte de mim é a casa?

 

que parte de você é o espinho?

 

Jesus se revelou pra mim essa noite

ele era um extraterrestre

e me disse

 

vocês me imaginam

humano

 

por que acham que eu não posso estar agora mesmo

dentro de suas cabeças?

 

e várias imagens se formaram

 

um pé gigante

mitocôndrias

rabos de lagartos dançando

espinhos furando

o colchãozinho

de sangue

que é o meu fígado.

(RAIZ, Julia, Terceiro Mistério, Lola Frita, 2022)

 

Nas últimas colunas, temos debatido a potência da poesia especulativa: a poesia que trabalha as metáforas e símbolos em um plano de materialidade. Hoje, trago a poeta Julia Raiz com seu texto “O Terceiro Mistério”, no qual retrata Jesus como um alienígena e uma força cósmica presente em todas as formas de vida do universo.


Na mesma linha, trabalha-se com a obra de Guita Soifer, poeta e multiartista visual, que retrata os ovos sob o espelho. Para Soifer, os ovos têm uma simbologia importante, já que em sua cultura, eles representam o ciclo da vida, a esperança da continuidade ainda que a morte se imponha no caminho, mas sobrando sempre a possibilidade de uma nova vida.

Ambas falam da vida como um ponto de partida e de chegada, a vida como um objeto sagrado da realidade. Em busca de caracterizar o que seria a poesia especulativa, acredito que o gênero converse justamente com temas essenciais da humanidade. Isso não quer dizer que a boa literatura não trate de temas humanos, mas a poesia especulativa coloca no centro as existências de vida: o amor que inunda tudo, o Jesus alienígena que se assume como fígado e por aí vai.

Quando a metáfora não assume seu papel imaginativo, ela se torna outra coisa: um traço de realidade, não qualquer realidade, mas uma puramente objetiva e extremamente humana. Entretanto, a fantasia humanista, subgênero que foca os conflitos fantásticos no universo amoral e subjetivo dos personagens, não é uma novidade. Nesse mesmo espaço, a proposta da poesia especulativa é traçar um novo plano da fantasia: alcançar os temas humanos (e não-humanos), amorais e transformar metáforas em traços da realidade.


Quando uma poeta imagina Jesus como um alienígena (por que não seria, não é mesmo?) e pensando no ser tão visceral por sua natureza insólita, que poderia ocupar as nossas mentes e estados de vida? Imagine se o nosso marco temporal-cultural for... um extraterreste? Uma forma de vida além-daqui que colonizou nossas mentes e espíritos com uma nova forma de consciência?


Convenhamos que talvez Jesus não tenha sido muito aceito, já que o “amar o próximo” é bem distante de quem afirma conhecê-lo, porém, a poesia especulativa de Julia Raiz dialoga sobre isso, ao mesmo tempo, traçando um debate dentro de nosso espaço: além da poesia especulativa fotografar as sombras da realidade, trata de temas humanos (e não-humanos) como centro de sua episteme*.


Tecer uma poesia especulativa, cara pessoa-leitora, pode ser um exercício pré-universal: nascer do escuro e do caos para criar uma nova forma de poetizar.

*Base ou o conjunto de regras inconscientes que moldam o que se pode saber e pensar em uma época específica

 

REFERÊNCIAS

RAIZ, Julia, O Terceiro Mistério, Lola Frita, 2022.

SOIFER, Guita, Sem Título, 2026.

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