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Poesia Especulativa: uma análise do poema 'Distâncias', de Volnei Freitas






A poesia é a experiência limítrofe da linguagem, na qual as palavras movem-se como imagens projetadas em uma tela de cinema.


Todavia, nesta coluna, começo uma discussão sobre: O que é a poesia especulativa?


Não se pode falar de literatura sem ler literatura. Esse erro clássico coloca a escola e o ensino de literatura em defasagem, quando se fala de escolas literárias sem necessariamente ler as obras dos escritores, pensando em quais termos as características autorais criam essa horizontalidade de temática ou estilo.


Entretanto, não falaremos disso hoje. Para tentar mapear os sentidos sobre a poesia especulativa, vamos analisar o poema “Distâncias” de Volnei Frestas, disponível gratuitamente na edição vinte da Revista Especular.


Em primeiro plano, não se trata apenas de temática, ou seja, o tópico do assunto. Como disse logo acima, a poesia é como ler imagens em movimento, mas especificamente o poema especulativo guarda em si uma tentativa de metalinguagem da imagem.


O que isso significa? Significa que traz uma imagem insólita (que não pertence ou não faz pacto com a realidade) para um jogo de outras imagens. O poeta cria uma cena de fotografia: traz o objeto insólito e desenha pela sombra a imagem do objeto.


Por exemplo, na primeira estrofe, Volnei traz a imagem da Mandinga, da Bruxaria e do Encantado:

Do banco

(fundo do vagão)

Olhares finalmente se entrecruzam, sorriem

Bruxaria bendita da benzedeira do bairro

Pelo salário de um mês

Para o encantado há um ano.


Perceba que o poema amarra essas imagens pelo signo do [vagão], que entre parênteses retoma uma técnica primorosa da poesia com João Cabral de Melo Neto para reforçar uma informação ao leitor. Ao fazer isso, Freitas produz uma caricatura do objeto insólito, ou seja, está jogando uma imagem no jogo de outras imagens.


Outro fator relevante para o mapeamento da poesia insólita é a tensão entre as imagens. Vejam bem, qualquer poema pode pegar uma garrafa e torná-la encantada por algum efeito estético.


Todavia, na poesia especulativa, o poema ganha outra camada: as imagens tensionam-se para criar um pacto de quebra da realidade, uma ruptura com o padrão  do pacto do esperado. Por isso não existem metáforas ou outras figuras de linguagem no sentido apenas figurado, mas denotativo (literal dentro do próprio universo) do poema.

Por exemplo:

A atenção

Às águas travessas que escoam despercebidas,

À aproximação de expectativas etéreas

Que inundam o vagão,

Ao púrpura cintilante que une os corpos,

Aos quinze que se tornam 10,

8, 3, 1 metros


Percebam como o poema articula a relação de uma imagem com a outra: você percebe que a metáfora das cores, luzes, explosões, a ladeira-água... Não são só recursos estilísticos de composição, mas uma descrição da cena. É um exercício de fotocópia, de troca da luz do ambiente.


Se o ato de especular é inerente a toda poesia, a poesia especulativa se diferencia por operar, de fato, uma metalinguagem das imagens.


REFERÊNCIA:

CIDADES ENCANTADAS E A MAGIA NO COTIDIANO: POEMAS DISTÂNCIAS, Revista Especular, pg. 20, 2026.

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