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Negócios Estranhos: uma visão geral do pacto na literatura

Pedro Schettino















Olá, queridos leitores, mais uma vez estamos aqui para mergulharmos em um tema da fantasia. Desta vez vamos falar um pouco sobre um tipo de personagem, ou melhor, sobre uma maneira específica de manifestar poderes sobrenaturais.

 

Recentemente testemunhamos o desfecho da aclamada série Stranger Things e, deixando de lado debates sobre a qualidade do final da série (discussão que gerou polêmicas, divergências e até teorias da conspiração pela internet), focaremos em um dos pontos principais que virou polêmica no mundo digital.

 

Em determinado ponto da temporada, um personagem (sim, estou propositalmente protegendo de spoiler aqueles que ainda não assistiram a série) manifesta poderes sobrenaturais e os demais personagens, tendo o jogo de interpretação (RPG) Dungeons and Dragons enquanto referência, chamam-no Feiticeiro (Sorcerer).

 

A polêmica deu-se por esta classe, dentro do jogo, descreve indivíduos que nascem com a magia em seu sangue e seu acesso aos poderes manifesta-se de forma que até eles mesmos desconhecem. Muitos fãs, porém, argumentam, com base nos eventos narrados na série, que estes poderes não seriam inatos do personagem, mas sim adquiridos mediante um pacto, o que o caracterizaria enquanto um Bruxo (Warlock) de acordo com as regras do D&D.

 

Pois bem, esta briga de nomenclaturas nas redes sociais abre-se para nós como uma possibilidade de exploração: os personagens que fizeram pactos para obtenção de poderes.

 


Primeiro precisaremos caracterizar esta prática. A ideia de se fazer um pacto, um sacrifício, pagar um preço ou algo semelhante em troca de algum favor divino ou infernal é algo muito antigo no imaginário da humanidade. Desde que nossa espécie passou a propor a existência de forças e de seres superiores aos homens, podemos identificar narrativas que contam sobre mortais firmando alguma espécie de acordo com estes seres.


A natureza do pacto estabelecido pode ser diversa. Sacrifícios, acordos ou trocas, o fato é que o homem sempre buscou meios e modos de se conectar com poderes superiores para obter vantagens sobre seus semelhantes.

 

Quando analisamos as diversas mitologias do mundo, percebemos histórias parecidas. Na narrativa do Jardim do Éden, por exemplo, há implícita troca visando poder maior: Adão e Eva trocam a sua inocência pela obtenção do conhecimento divino. Quer tenham sido enganados ou convencidos pela serpente, o fato é que se pode enxergar este evento como uma espécie de pacto.

 

Os diversos sacrifícios de animais em tradições religiosas da antiguidade também guardam esse caráter pactual: os mortais imolam os bichos em um determinado rito seguindo determinadas condições, estas estabelecidas por narrativas mitológicas, visando aplacar a ira dos deuses ou pedir alguma benesse específica. Novamente, o pacto enquanto um sacrifício de algo em troca de um poder maior.

 

Fausto

Talvez o mais emblemático de todos os personagens que operam dentro deste arquétipo seja Fausto. Personagem muito enigmático da história, não há consenso que realmente tenha existido, mas foi muito explorado em narrativas, principalmente na Alemanha. A mais famosa de suas histórias é narrada por Goethe, emblemático autor alemão do século XVIII/XIX.

 

Em seu poema, Fausto é um grande estudioso que passou a vida buscando a verdade e a sabedoria, mas se vê encurralado ao perceber que envelhece e que não conseguirá ler tanto quanto quer em vida. Diante desta situação e ante o medo profundo da morte, resolve invocar entidades sobrenaturais para reverter o quadro, acabando por conhecer Mefistófeles, um demônio, com o qual firma um pacto.


Fausto pede para não mais envelhecer, viver uma eterna juventude em que poderá perseguir todos os seus sonhos acadêmicos, em troca da sua alma e de servidão ao demônio. Assinado com sangue, o mais famoso pacto da literatura é feito.

A história de Fausto provavelmente inspirou grandemente a classe Bruxo do RPG Dungeons and Dragons, que mencionei no início do texto. Emblemática, a natureza do acordo de Fausto e Mefistófeles tem exatamente os elementos centrais que buscamos compreender. O entendimento do homem enquanto um ser limitado, a concepção de que há algo superior, mais poderoso que ele próprio, o desejo de negociar com esta força suprema e, por fim, a renúncia de algo valioso como barganha com o sobrenatural. Estes são os ingredientes perfeitos para um pacto de sucesso.

 

Diversos outros personagens na literatura vivenciam situações semelhantes, em que querem (ou às vezes precisam) abrir mão de algo valioso em troca de um favor ou benesse divina. Como é tradição em minhas colunas, trago em exemplo os livros das Crônicas de Gelo e Fogo.


Este universo tem todo o seu sistema de magia baseado em sacrifícios: Daenerys precisou sacrificar Khal Drogo e a feiticeira Mirri Maz Duur em uma fogueira para fazer os três dragões nascerem. Melissandre de Asshai, a feiticeira vermelha, faz inúmeros sacrifícios para suas magias. Até mesmo Bran teve de pagar altos preços para conseguir ter suas visões na gruta do Corvo de Três Olhos. É um mundo onde imperam os poderes adquiridos por meio de pactos.

 

Portanto, da próxima vez que estiver lendo, assistindo ou jogando alguma história que tenha magia e outros elementos sobrenaturais, repare nestes aspectos. Esses poderes que os personagens possuem, são fruto de algum acordo, pacto, sacrifício ou algo semelhante com entidades maiores? Tenho certeza que se surpreenderá com a quantidade de bruxos que existem nas narrativas por aí.

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