O que será (d)o mundo?
- Frederico Cavalcanti

- há 17 horas
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Podemos citar O Senhor dos Anéis, do inesquecível Tolkien, como o primeiro exemplo de realidade virtual do qual se tem notícia.

Para ele criou idiomas, mapas e personalidades verazes, na cronologia e na lógica narrativas. Descreveu a mudança da vegetação, do tempo, e da fadiga existencial, em tensão psicológica com o senso de dever e a esperança, enquanto os personagens realizavam uma travessia mais do que real, tal o detalhamento que se propôs a apresentar.
Tudo que existe pode consistir em um redemoinho - real ou fantasioso - de relações. Tudo que existe é de alguma forma um relacionamento entre ser e mundo. E um não existe conceitual e efetivamente sem o outro. A Terra-Média não existiria sem Tolkien; o grande autor realizou-se por meio dela.
Assim pois, somos seres ambientais!
Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman chamaram essa condição de organismo/ambiente (Perls, 1997, p.64, et passim). Mesmo outros seres humanos ao nosso redor compõem nosso ambiente social, marcado pela noção de intersubjetividade.

Sobre realidade psicológica, citamos Kurt Lewin e sua Teoria de(o) Campo, (Lewin, 1973). Tal campo é um espaço não físico, onde coexistem as mais diversas relações na perspectiva psicológica, de possibilidades, medos, desejos, fantasias e sonhos. E cada um tem o próprio Espaço de Vida (Lewin, 1973, p. 30-33), onde as relações podem ser vistas em sua singularidade, o que se permite e o que lhe é proibido conforme suas próprias crenças e valores.
Afinal, no Espaço de Vida de um bombeiro, seu ambiente, está permitido que possa ou deva adentrar a uma casa em chamas; permissão taxada de loucura ou grande proibição no Espaço de Vida, no ambiente das demais pessoas.
É que conforme Peter Berger e Thomas Luckmann afirmam em Construção Social da Realidade, estamos permeados por diversas construções sociais, ambientes aos quais poderíamos chamar de realidades (Berger, Luckmann, 2014).
Em cada realidade distinta, o ser humano interpreta um papel; à luz das características que lhe seriam exigidas ou esperadas, por si e pelo mundo; à luz das características do lugar que se debruça sobre o ser, tanto quanto o ser se debruça sobre o referido lugar.
Na verdade, um ambiente trata-se daquilo que é de mútua e simultânea coexistência. Conosco. Inclusive não há separação entre interno e externo, entre o ser e o entorno. A distinção de palavras e conceitos atende à noção didática de organizar o pensamento e a vida.
Como separar, realmente, os passos do chão e o chão da trilha pela qual andarilho e mundo se constroem mutuamente? E então como perceber a si sem se estar sendo percebido per si e pelo mundo? O mundo é a casa do ser. O ser, a casa do mundo. Em última instância, somos a primeira casa de nós mesmos, ambiente no qual tudo é inseparável.
Para Tolkien, cada ser originava-se do sagrado Eru Illúvatar, criador dos primeiros seres, com quem compôs tudo o mais, tudo por meio do cantar. Nesta realidade virtual, o mundo é uma canção que se derrama sobre si mesma, torna-se tudo que existe. Substancialmente, uma melodia cósmica.
Tolkien concebeu-o como uma série de obstáculos potencializadores de heroísmo, por cuja travessia busca-se um final de salvação. Tal qual o autor propôs em sua obra, cada humano é um mundo de si, uma obra cujas decisões determinarão o destino não apenas de um, como de muitos. Tanto o um como o muitos, são o mundo. Tolkien argumentou que apenas um pode gerar grande diferença - não por ser grandioso, mas por ser grandiosa a vida, a existência, a hora.
E nesse sentido, Lewin afirmou que "para entender um sistema, temos que mudá-lo."
Assim: o que estamos fazendo com nossas horas? Que mundo(s) estamos construindo?
Referências Bibliográficas
BERGER, Peter L. & LUCKMANN, Thomas. A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 36 ed. Tradução de Floriano de Souza Fernandes. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
LEWIN, Kurt. Princípios da Psicologia Topológica. São Paulo: Cultrix, 1973.
PERLS, Frederick Salomon, et al. Gestalt Terapia / Frederick Salomon Perls, Ralph Hefferline & Paul Goodman. Trad. Fernando Rosa Ribeiro. São Paulo: Summus, 1997.





Grande reflexão, Frederico! Lembra-me um artigo do Saramago onde afirmou inexistir a figura do narrador: tudo é autor. Nesse caso você expande o conceito, para tudo que representamos, absorvemos e compartilhamos como uma senda pessoal, um mundo em construção - então, toda fantasia, todo universo imaginado é uma reflexo de seu autor assim como parte do mundo pessoal de seus leitores.