Sobre histórias inacabadas
- Pedro Schettino

- há 3 horas
- 3 min de leitura
Olá, caríssimos leitores. Muitos de vocês sabem que eu sou um grande fã das crônicas de gelo e fogo de George Martin. Recentemente, houve certa polêmica na internet referente a um suposto vazamento de informações na editora que o publica, nos Estados Unidos, sobre possível data de lançamento, neste ano, do tão aguardado sexto livro: “Os ventos de inverno”. A polêmica foi desfeita e seguimos sem nenhuma data de lançamento ou qualquer sinal de que um dia leremos este sexto livro. E isto trouxe-me algumas reflexões que compartilharei aqui.

Primeiramente, precisamos dizer que, embora haja uma série de tv feita pela HBO adaptando os livros e que essa série terminou em 2019, dando um final à saga, estarei me referindo aqui somente ao conteúdo dos livros. Uma história de fantasia com enredo tão rico, tão cheio de tramas e personagens, tão grandioso, mas que ainda carece de final. O desfecho é, talvez, o aspecto da obra mais celebrado em nosso tempo. É quase uma lei pétrea do entretenimento que, não basta o enredo ser bom, o final tem que ser bom também, ou a história estará condenada para sempre. A série de TV “Lost” é um bom exemplo: louvada no início e, após um final que não satisfez ao público na época, virou chacota e sinônimo de final ruim.
E este culto ao desfecho me fez pensar sobre a situação amarga de espera em relação ao sexto livro das crônicas. Toda esta comoção que move afetos, que faz surgir rumores e boatos inventados, gira em torno do desejo extremo dos leitores em lerem o final da obra, de compreenderem para onde todos os pontos convergem. E, sobre este prisma eu lanço, talvez uma pergunta demasiadamente inquietante para muitos leitores: você está preparado para ler uma história sem final?
É importante pensarmos na possibilidade desta saga nunca ter o seu final publicado. E está tudo bem.

Diversas histórias, lendas, personagens e narrativas ao longo da história não possuem um final concreto. Claro, quando falamos de uma produção em romance moderno, feito por um autor nos moldes aos quais estamos acostumados, obviamente esperamos que a história tenha início, meio e fim - mas meu ponto aqui é que não é propriamente um problema a falta do desfecho.
Há beleza em mistérios que não são solucionados, sombras que não são explicadas, quebra-cabeças que não se concluem. Os contos de H.P. Lovecraft, para ficar em exemplo célebre, muitas vezes, não possuem explicações no final, tampouco são esclarecidas as dúvidas levantadas. O corvo do famoso poema homônimo de Edgar Allan Poe, não sabemos quem é, de onde veio, o que queria dizer com “nunca mais”. Sombras e mistérios que ainda jazem em silenciosas sepulturas.
Não seria diferente com a obra de Martin, caso ela não viesse a ter final de fato, não saberíamos quem fica com o trono de ferro, ou que fim levaria o ataque da frota de ferro, diversas dúvidas ficariam sem resposta e, ainda assim, digo que está tudo bem.
Quando não há um final, cai no colo do leitor a possibilidade de desfecho. Aqui entramos em um aspecto mais profundo da análise, a da recepção. O leitor, quando lê, produz inevitavelmente uma série de impressões e interpretações e, seguramente, o leitor que mais está engajado com a obra, tem consigo teorias, suposições e desejos quanto às perguntas que ainda não foram respondidas – e há beleza nisso.
Várias possibilidades podem ser construídas por diversos pontos de vistas, formando infinitas possibilidades de desfecho. A história sem final tem força para transformar-se em lenda, onde cada um dirá algo sobre o fim. Imaginem comentários no futuro debatendo uma história que não teve final escrito, alguém poderá perguntar o que aconteceu com tal personagem ao fim do conflito e poderá ouvir respostas como: “uns dizem que conseguiu derrotar o dragão e tornou-se rei, outros dizem que fugiu para a floresta e até hoje vive lá como ermitão”. Sim, há beleza nessa possibilidade.
Portanto, talvez o pior desfecho para esta situação não seja a história não ter final, mas a revelação da nossa incapacidade de receber algo que não está finalizado. Em tempos de entretenimento rápido, fugaz, barato e fechadinho, talvez nos faça bem uma história sem fim.






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