Arco, Íris e o Sul Global
- Danilo Heitor

- 15 de jul.
- 3 min de leitura


Depois de muito procrastinar, finalmente assisti “Arco”, animação francesa indicada ao Oscar, cuja história envolve emergência climática, viagem no tempo, futuro pós-apocalíptico e relações humanas. É esse o tipo de intersecção de temas que mais me atrai na ficção científica contemporânea (embora “Arco” seja uma obra que atravessa a fronteira do gênero com a fantasia). Adoro viagens no tempo, mas gosto mesmo é de histórias em que elas sejam pano de fundo para falar de pessoas, cotidiano, sentimentos, emoção, vínculo.
“Arco” começa com um trocadilho que, pesquisei, foi intencional: a coprotagonista da história se chama Íris, enquanto o protagonista leva o nome do filme. Juntos, Arco e Íris, separados por quase um milênio, tentam resolver mais que um problema de viagem no tempo: os dois sentem falta dos vínculos familiares, Íris em 2075, quando a Terra vive uma série de eventos climáticos extremos, e Arco em 2932, com e os seres humanos vivendo em plataformas suspensas acima das nuvens, à semelhança de galhos de árvore. Mas, se a narrativa familiar encanta, não consegui me conectar emocionalmente com as personagens. Não por algo intrinsecamente delas, mas pelo tempo do filme (a história avança mais rápido do que me pareceu necessário para criar empatia com os dilemas das duas crianças). Além disso, a família de Arco me trouxe algumas questões.
Quase mil anos depois da nossa época, vivendo nos céus, em uma sociedade ecologicamente sustentável, os seres humanos ainda se organizam em torno da família nuclear, pai-mãe-filho-filha. Pior: a relação entre pai e filho ainda é marcada por austeridade, distanciamento, proibições arbitrárias e quase nenhum diálogo. Este não é só um descontentamento meu como espectador, mas uma inquietação histórica: se voltarmos mil anos no tempo, as famílias não se organizavam como hoje. Por que, então, imaginar que esse modelo, que hoje já é amplamente criticado e alvo de diversos tipos de propostas e práticas de superação, ainda será norma quando estivermos perto do ano 3000?
A busca da família de Arco através do tempo e a humanidade sensível conferida aos robôs que executam tarefas domésticas em 2075 ajudam, em parte, a relevar essa questão. Ao mesmo tempo, a realidade social daqui 50 anos, em algum lugar do Norte Global (o bairro e a escola de Íris me remeteram aos subúrbios de classe média típicos dos Estados Unidos, mas cabem com tranquilidade em qualquer país central do capitalismo contemporâneo), com bolhas de proteção contra tempestades e incêndios envolvendo as casas e robôs reconstruindo o que foi destruído após cada evento, me fizeram despertar um outro incômodo: a ausência de qualquer discussão de classe na animação. A humanidade em 2075 se resume a pessoas de classe média servidas por robôs, tentando viver como se a crise climática fosse algo natural e superado pela tecnologia? Todos estão protegidos, ou há quem não tenha acesso? A escolha de substituir os trabalhadores domésticos e da construção civil (além de, distopicamente, os professores) por robôs apaga a pobreza e a desigualdade que, hoje, são amplificadas pelo racismo ambiental, intensificado pela crise climática. Difícil imaginar que não continuaremos assim, ou pior (provavelmente), dentro de apenas 50 anos.

Talvez seja, uma vez mais, uma questão geográfica, já que “Arco” é uma obra do Norte Global, ambientada no Norte Global, tratando de problemas do Norte Global (que também enfrenta desigualdade, pobreza e questões de gênero e familiares, mas em escalas e dimensões diferentes das nossas). Escolher ameaças externas inescapáveis e “naturais”, como incêndios florestais e megatempestades, inibe a presença de outra “ameaça” mais incômoda, os pobres e a sua vontade de existir. Há quem vá dizer que discutir isso é descabido para uma animação infantil, do que discordo com todas as forças: apresentar o mundo às crianças apagando seus problemas e contradições é uma receita antiga e que só reforça a dominação de classe. Seja como for, minha experiência assistindo “Arco” foi atravessada por esses questionamentos, que fazem parte de mim enquanto habitante do Sul Global e pessoa desejosa de um futuro anticapitalista.
A tecnologia de viagem no tempo desenvolvida pelo filme, com capas arco-íris que desenham arco-íris no céu, é de uma beleza desnorteante. A narrativa, entretanto, poderia ser bem mais des-norteada. O que me leva a pensar que as cores e o seu apelo imagético acabam fazendo muito bem o papel de véu acortinador daquilo que o Sul Global insiste em apontar: nós também queremos caber nos futuros pós-capitalistas de vocês. E, claro, poder desenhar os nossos.
E você, assistiu Arco? O que achou do filme?
Como sempre, a caixa de comentários está aberta para a sua opinião.



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