A Cura que mata, remédios milagrosos, controle e um consentimento que nunca foi pedido
- Gabriel Mello
- há 3 horas
- 6 min de leitura

Existe um padrão que a ficção científica retorna compulsivamente. Não é sempre "o robô que ganha consciência", nem "a inteligência artificial que nos substitui". É algo mais antigo, eu diria, e até mais próximo: a substância que nos salva de nós mesmos. A droga que resolve o problema que a humanidade não conseguia resolver sozinha. Dada, distribuída, absorvida, e só depois revelada como grilhão.
Karin Boye escreveu Kallocaína em 1940 e ela não estava pensando em ficção científica como gênero. Ela estava pensando na Suécia em tempo de guerra, no Nacional Socialismo, no stalinismo. O que ela produziu foi um romance sobre um químico que inventa o soro da verdade perfeito: administrado, o sujeito revela não apenas o que sabe, mas o que pensa, o que deseja, o que nunca teria dito em voz alta. A droga é apresentada como ferramenta de segurança do Estado. A Kallocaína protege a ordem. Ela torna o cidadão transparente ao governo como nunca antes. E o inventor, Leo Kall, acredita genuinamente que fez algo bom.
Oitenta e cinco anos depois, Shinichirō Watanabe estreia o anime Lazarus com uma premissa espelhada. No futuro próximo de 2049, o neurocientista Dr. Skinner desenvolve a Hapna, uma droga analgésica revolucionária que alivia completamente qualquer tipo de dor. A substância se torna, rapidamente, uma sensação médica mundial que praticamente erradicou a dor e revolucionou a indústria médica. O planeta respira. A humanidade resolve um de seus problemas mais básicos. Depois, Skinner ressurge para anunciar que a Hapna é, na verdade, um veneno letal, e que todos que a ingeriram morrerão dentro de trinta dias.
![Lázaro [Adult Swim]](https://static.wixstatic.com/media/6c96a0_48ea0ce993f941ed8ed24b4a61802dd1~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_552,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/6c96a0_48ea0ce993f941ed8ed24b4a61802dd1~mv2.jpg)
Watanabe confirmou em entrevista que a crise dos opioides foi uma das inspirações diretas para o anime. Isso importa porque ancora o que poderia ser fantasia distante em algo que aconteceu e segue acontecendo. A OxyContin foi vendida como avanço farmacológico, como solução para a dor crônica, como produto que não causaria dependência segundo as afirmações de seus fabricantes. O que se seguiu foi uma crise de saúde pública que matou centenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos. Não havia Dr. Skinner com um plano deliberado, mas havia empresas, lobbies, reguladores capturados, médicos desinformados e pacientes que confiaram no sistema. O efeito foi comparável.
A ficção científica é eficaz em nomear essa estrutura porque ela pode levar a premissa até o fim sem restrições factuais. Boye podia dizer: imagine uma droga que elimina a mentira e veja onde isso leva. Watanabe podia dizer: imagine uma droga que elimina a dor e veja onde isso leva. O resultado em ambos os casos não é um argumento contra a medicina ou contra o progresso, mas uma interrogação sobre o tipo de confiança que depositamos em sistemas que prometem nos proteger de nós mesmos.
Existe uma assimetria de poder que as duas obras tornam visível de formas diferentes. Em Kallocaína, a assimetria é explícita: é o Estado que detém a droga e a usa contra os cidadãos; o poder é imediatamente reconhecível como coerção. Em Lazarus, a assimetria é mascarada por décadas de farmacologia de boa-fé: a Hapna chega como oferta, como benefício, como democratização do alívio da dor. O consentimento existe formalmente. Ninguém foi obrigado. Mas o consentimento informado exige que o que é informado seja verdadeiro. A Hapna foi tomada livremente, mas com base em uma mentira. Isso é consentimento?
Mas existe uma variante contemporânea desse padrão que nem Boye nem Watanabe chegaram a imaginar com precisão, talvez porque ela exigisse um grau de estranhamento cultural que ainda está em curso. Não é uma droga que o Estado impõe. Não é uma droga que um cientista messiânico distribui para destruir. É uma droga que o mercado oferece para resolver algo que o mercado mesmo criou como problema.
A semaglutida entrou na consciência pública como tratamento para diabetes tipo 2. Depois, os estudos clínicos mostraram redução significativa de peso corporal. O que veio depois é difícil de descrever sem soar alarmista, e é difícil descrever com precisão sem soar complacente: em poucos anos, injeções semanais de Ozempic e Wegovy passaram de prescrição médica especializada a marcador cultural, a objeto de desejo, a escassez fabricada, a tópico de conversa em redes sociais onde pessoas documentam a transformação dos próprios corpos com a mesma linguagem que usariam para descrever uma revelação espiritual. O milagre chegou, e desta vez ele cabe numa caneta injetora.
O que isso tem a ver com Kallocaína e com Lazarus não é a toxicidade. Os análogos de GLP-1 têm respaldo científico sólido e perfil de segurança monitorado. A analogia, neste sentido, não é farmacológica, mas estrutural. É a pergunta que nenhuma das duas obras deixa de fazer: quem define o problema que a droga resolve?
Em Kallocaína, o problema definido pelo Estado é a possibilidade de dissenso interior. O cidadão que pensa diferente é uma ameaça. A Kallocaína resolve isso tornando o pensamento visível e portanto controlável. O problema existia antes da droga? Em certo sentido, sim. Pessoas sempre guardaram pensamentos que não podiam expressar. Mas a urgência de resolver esse problema, a codificação dele como ameaça que exige intervenção química, isso é uma construção do Estado Totalitário. A droga não vem antes do problema. Ela vem depois da decisão de que o problema precisa de solução.
Em Lazarus, a Hapna resolve a dor. Mas a escala de adoção global que o anime pressupõe, a velocidade com que a humanidade inteira abraça uma substância desenvolvida por um único indivíduo sem que ninguém pergunte o que está por trás, isso só faz sentido dentro de um contexto onde a dor foi previamente construída como problema intolerável que exige solução tecnológica imediata. O sofrimento humano sempre existiu. A convicção de que ele pode e deve ser eliminado por intervenção farmacológica é uma posição histórica específica, não uma verdade universal.
O que os análogos de GLP-1 iluminam, de um ângulo que a ficção científica ainda está tentando alcançar, é uma versão do mesmo movimento aplicado ao corpo gordo. A obesidade foi gradualmente recodificada ao longo de décadas, saindo do domínio da variação corporal e entrando no domínio da doença crônica que exige tratamento contínuo. Isso não aconteceu por acaso e não aconteceu apenas pela ciência. Aconteceu também pelo esforço sistemático de indústrias com interesse financeiro direto na medicalização de corpos que funcionam de formas que o mercado considera indesejáveis. Quando a droga milagrosa chega, o terreno já foi preparado. O problema já foi nomeado. A solução já parece óbvia.
O que Boye intuiu em 1940 é que a droga sempre pressupõe uma definição de normalidade que ela vai restaurar ou proteger. A Kallocaína pressupõe que o cidadão ideal é transparente ao Estado. A Hapna pressupõe que a humanidade ideal não sente dor. Os análogos de GLP-1, na versão que o mercado vende com entusiasmo crescente, pressupõem que o corpo ideal é magro.
Isso não é o mesmo que dizer que a droga é ruim. É dizer que a droga carrega embutida uma visão de mundo, e que parte do que a ficção científica faz, quando faz bem, é tornar essa visão de mundo visível antes que ela se torne tão naturalizada que pareça apenas bom senso.
O que incomoda na atual difusão dos remédios de emagrecimento não é a farmacologia. É a velocidade com que a promessa foi absorvida culturalmente como se não houvesse nada para examinar. A mesma lógica que fez gerações de pessoas confiarem na indústria farmacêutica sobre opioides, a lógica de que o progresso científico é neutro, de que o médico sabe, de que se funciona é bom, opera aqui com a mesma eficiência. E o que Kallocaína e Lazarus perguntam, cada um à sua maneira, é: funciona para quem? Para quê? Segundo que definição de funcionar?
A obsessão da ficção científica com drogas milagrosas não é escapismo nem paranoia farmacológica. É um exercício de atenção sobre estruturas que preferem operar sem ela. O que muda, de Boye para Watanabe para o presente, é apenas a elegância com que a injeção é oferecida. O braço que a recebe continua sendo o mesmo, não?
Referências:
BOYE, Karin. Kallocaína. Tradução de Guilherme da Silva Braga. São Paulo: Aleph, 2023. LAZARUS. Diretor: Shinichirō Watanabe. Produção: MAPPA; Sola Entertainment. Distribuição: Max / Adult Swim. País: Japão / Estados Unidos. 2025. [1, 2, 3] O Criador de Cowboy Bebop acha que a realidade é mais distópica do que a Ficção Científica [Tradução do autor]. New York Times. Acesso em 24/06/2026.
O criador de 'Lazarus', Shinichiro Watanabe, fala sobre a ação ousada de seu novo anime para Adult Swim. Animation Magazine. Acesso em 24/06/2026.
Semaglutida: medicamento vem revolucionando o tratamento do diabetes e da obesidade. Acesso em 22/06/2026.




Comentários