Artistas brasileiros finalistas no Prêmio Nebula
- Titi Bayarri

- há 20 horas
- 4 min de leitura

No cenário internacional da literatura de ficção científica, são três as premiações mais reconhecidas: os prêmios Hugo, Locus e Nebula. As três premiações têm seus inícios em diferentes décadas (Hugo na década de 50, Nebula em 60 e Locus em 70) e, além de se proporem a reconhecer as melhores publicações literárias de ficção especulativa, nos últimos anos os prêmios têm aberto espaço para outras mídias, passando a premiar também, por exemplo, poesia, melhor roteiro de jogo, obra audiovisual, entre outras categorias que vêm surgindo.
Apesar de terem sistemas de votação e algumas categorias diferentes entre si, as três premiações possuem uma importante característica em comum: a de receber e avaliar apenas publicações em língua inglesa.
Apesar disso, esse ano o Brasil recebe uma boa surpresa: quatro artistas brasileiros estão indicados como finalistas no prêmio Nebula de 2026, na qual concorrem obras publicadas no ano de 2025, em duas categorias diferentes: Melhor História em Quadrinhos e Melhor Novela.

Na categoria de Melhor História em Quadrinhos, que estreia na premiação esse ano, a HQ Helen de Wyndhorn concorre com outras 7 publicações. Publicada pela Dark Horse Comics no exterior, e com publicação brasileira pela Suma, trata-se de uma obra de fantasia que conta com os brasileiros Bilquis Evely e Matheus Lopes ao lado do estadunidense Tom King. A obra, não faz muito tempo, recebeu 7 indicações no Prêmio Eisner, o maior prêmio norte-americano dedicado aos quadrinhos, ocasião onde a brasileira Bilquis Evely levou o prêmio de Melhor Desenhista/Arte-Finalista.
Já na categoria de Melhor Novela, são duas obras de autoria brasileira indicadas: But not too bold, da escritora argentino-brasileira Hache Pueyo, e Disgraced return of the Kap's Neddle, do carioca Renan Bernardo.
Originalmente publicada em 2022 pela Editora Dame Blanche com o título de Bem mal me quer, a fantasia But not too bold foi recentemente publicada lá fora pela Tor Books, contando com tradução para o inglês feita pela própria autora.
Já Disgraced return of the Kap's Neddle, de Renan Bernardo, é uma obra de ficção científica que foi escrita primeiramente em inglês, publicada no ano passado pela Dark Matter Ink, mas que já está em processo de tradução para o português pelo próprio autor: a obra será publicada no Brasil em breve, pela Editora Aleph, com título e data de lançamento ainda a serem revelados.
Não é a primeira vez que o autor Renan Bernardo figura entre os finalistas do Nebula: no ano de 2024, seu texto A Short Biography of a Conscious Chair foi indicado na categoria de Melhor Noveleta. Publicado no Brasil de forma gratuita pelo Fantástico Guia, este texto também foi finalista dos prêmios Argos e Ignyte.
É inegável que o acesso de autorias latino-americanas a esse tipo de premiação é dificultado por uma série de fatores, dentre eles, e principalmente, a barreira da língua. Uma vez que só concorrem obras publicadas em inglês, existe um filtro que, além de selecionar que tipo de obras ou autores podem figurar entre o que seria considerado o melhor do que se tem produzido na literatura de ficção especulativa, faz com que uma predominância de obras de autoria anglófona siga tendo a manutenção de seu espaço de publicação e tradução no mercado internacional.
Por isso é tão importante ver autorias brasileiras ocupando esse espaço e tendo suas produções reconhecidas internacionalmente: aqui é onde ocorrem fissuras que atuam diretamente e a seu próprio modo para a visibilidade e o crescimento do mercado literário nacional.
Em entrevista para a Especular, Renan Bernardo conta que identifica dois problemas no mundo da publicação: “Tem um tipo de problema lá fora e um tipo de problema aqui. Aqui o que acontece é que a gente consome muito - e estamos mudando isso para melhor nos últimos anos -, mas a gente consome muita coisa traduzida e muita coisa dos Estados Unidos, da Inglaterra... E a gente desvaloriza muito a produção nacional. Lá fora acaba sendo o contrário: eles consomem eles mesmos o tempo todo, raramente se abrem pro mundo externo. (...) Eles não leem a gente, não consomem a gente… Também tem melhorado nos últimos anos, mas ainda é muito fechado”.
“Então eu vejo essa indicação como positiva nesses dois sentidos: eu acho que vai fazer o pessoal daqui valorizar mais a literatura nacional e vai fazer o pessoal lá de fora enxergar melhor outros pontos de vista que não são os deles próprios.”
Renan conta, ainda, que a indicação o deixou tão feliz quanto surpreso. O brasileiro, que começou a experimentar escrever em inglês no ano de 2015 e teve sua primeira publicação internacional em 2020, deixa sua dica para escritores brasileiros que queiram também publicar seus textos no exterior: ter consistência na escrita e não parar. “Porque eu acho que se você não para, se você continua fazendo aquilo, se você consegue criar uma rotina ali, dia após dia, o negócio vai se tornando uma bola de neve e você vai sentindo que você vai melhorando (...). Embora seja meio clichê, a mensagem principal é essa, não desistir”. Ele indica, também, conhecer o trabalho do Fantástico Guia, gerenciado pelos escritores Jana Bianchi e Diogo Ramos, com diversos cursos voltados à publicação em inglês.
Agora nos resta, além de vibrar pelo reconhecimento da literatura de ficção especulativa construída por mãos brasileiras, torcer pelos finalistas. A cerimônia de premiação do Nebula ocorrerá no dia 6 de julho, em Chicago, nos EUA.




Comentários