Breve reflexão sobre “Vitória Régia” e o conceito de “conto de advertência”
- Danilo Heitor

- há 5 horas
- 3 min de leitura

Essa é uma obra de ficção. Cabe a todos nós mantê-la apenas na ficção. Assim começa e termina “Vitória Régia”, curta brasileiro estrelado por Alice Braga que imagina um Brasil em que o 8 de janeiro de 2023 foi vitorioso — ou seja, o país sofreu um golpe de Estado.
Não é a primeira obra a tratar de um futuro distópico para o Brasil.
De cabeça, consigo lembrar, só nos últimos anos, de “Bacurau” e “Divino Amor”, o primeiro imaginando um futuro em que o território brasileiro se dividiu e o segundo tratando de uma teocracia evangélica instalada no país. Voltando um pouco mais no tempo, a ideia de distopia por aqui sempre me leva até “Não verás país nenhum”, clássico de Ignácio de Loyola Brandão escrito na década de 1980 que nunca virou filme, mas foi adaptado duas vezes para o teatro. E a lista pode se tornar bem maior com uma rápida pesquisa na internet. Duas coisas, entretanto, não aparecem na maioria dessas obras e me chamaram a atenção em “Vitória Régia”: o protagonismo indígena e, mais que tudo, o fato de ser uma obra de história alternativa. No curta, não estamos exatamente em um futuro por vir, mas em um presente que poderia ter sido. Um quase agora.

Assisti ao curta duas vezes. Nas duas, tive as mesmas impressões: ambientação construída rápido demais para um roteiro que quis contar uma história maior que o tempo disponível (e que, com isso, abusa do uso de recursos discursivos e diretos) e overdose de referências, artísticas, políticas e sociais: zapatismo, Aílton Krenak, o próprio Loyola Brandão, inúmeros fatos e situações da ditadura civil-militar brasileira, imperialismo estadunidense, Hollywood... em apenas 20 minutos. Junto à frase de abertura e encerramento, esses fatores todos justificam o adjetivo dado à obra de “filme-campanha”.
Isso não é necessariamente ruim, ainda mais sabendo que o filme foi produzido por uma aliança entre coletivos-ativistas e organizações do movimento indígena, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a G9, aliança de organizações indígenas de nove países (incluindo Brasil, Peru e Colômbia). “Vitória Régia” foi escrito para ser panfletário e fazer parte da campanha #arespostasomosnós, que destaca a importância do ativismo indígena na luta por um futuro menos distópico para o Brasil. Mas a correria do roteiro e o número de assuntos abordados em tão pouco tempo produziu em mim um efeito nada desejável para uma campanha desse tipo: distanciamento.
Não dá tempo de se identificar com muita coisa no filme. As personagens, as lutas, as situações de opressão, as ações, tudo acaba sendo superficial demais, como se fossem um discurso inflamado gritado em um microfone. De certa forma, “Vitória Régia” me lembrou exatamente disso, diversos momentos no movimento estudantil, social ou sindicalista em que ouvi alguém discursar sobre diversas pautas sem se aprofundar ou deixar algum tipo de reflexão maior sobre pelo menos uma delas. Para não ser injusto, há o protagonismo indígena: Alice Braga é a estrela do elenco, mas quem comanda as ações de resistência são os indígenas. Isso é bem interessante, embora os caminhos dessa resistência no filme sejam pouco diferentes do de qualquer manifestação de rua a que estamos acostumados — o que não seria um problema, não existe um jeito “indígena” de lutar, mas dentro do próprio contexto e das referências do filme faria mais sentido estratégias de luta ligadas à terra e à floresta. Há pinceladas de música, arte e rituais indígenas, mas todas elas parecem apenas enfeitar uma passeata essencial e demasiadamente urbana.
Na ficção científica, o conceito de “conto de advertência” (cautionary tale) está presente em quase toda distopia. A ideia é produzir um sentimento de perigo ou de urgência em relação a uma pauta. Em “Vitória Régia”, ele é literalmente declarado no abrir e fechar do filme. Faz parte da campanha e da tentativa de chamar a atenção para a necessidade de agir, mas, pelo menos para mim, o filme deixou um sentimento maior de caricatura que de urgência. Se a intenção é mobilizar, cativar o espectador (com uma personagem, uma situação, um contexto) me parece ser estratégia melhor do que bombardeá-lo com uma miríade de discursos. Em 20 minutos, talvez fosse melhor ter apostado em uma história mais curta, como fez Emicida, por exemplo, no pouco falado clipe de “Boa Esperança”.
E você, assistiu “Vitória Régia”? O que achou do filme?
Os comentários estão abertos para ampliar essa conversa.




Comentários