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A Natureza: mãe e pandora de Brás Cubas











[...] O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição dessas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

Brás Cubas (DE ASSIS, 2019, pg. 8)

 

Como disse Machado de Assis por meio de Brás Cubas, a obra é o todo. Não existe uma maneira de escapar de seu relato. Por isso, hoje, no século presente, analisamos o enunciador textual [Natureza], baseada nas teorias dos linguistas Ducrot e Rabatel, pelo trabalho interessante de Michele Monte (Universidade de Toulon) com a tradução cautelosa de Evandro Catelão.

 

A proposição de Monte trata-se sobre enunciadores textuais, os quais trariam a voz e a organização de discursos consecutivos e simultâneos dentro de um texto. Na prática, pode-se pensar na poesia: o sujeito lírico que constrói o poema não é o autor do texto, mas uma voz narrativa para postular a experiencia de linguagem. O mesmo ocorre com textos narrativos ao postularem narradores de diversos tipos, ainda que se trate de uma autoficção.

 

Assim, o narrador não é o mesmo que autor.  Até mesmo em um relato de autoficção, não se fala do autor pessoa física, mas uma entidade do texto que narra sua própria vida. No caso de Brás Cubas, narra a sua vida como um privilégio dado pela Natureza, sua mãe e sua pandora. Aqui, trata-se dessa personagem [Natureza], que rouba para si uma enunciação, ou seja, postula algo novo pelo enunciador principal: Brás Cubas.

 

Sua enunciação é: ao ser tragado para a Morte, encontra o fim dos séculos e dali encontra motivos para narrar sua vida.

 

[...] Tens razão — disse eu — a coisa é divertida e vale a pena —, talvez monótona, mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam granas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me (DE ASSIS, 2019, pg. 20).

 

É claro que aqui não se entra na discussão se a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas é um romance de realismo mágico, quando evidentemente tem seus traços de especulação: o narrador morto, a presença da enunciadora [Natureza] e tantos outros fatos assumidos por Sr. Cubas.

 

Entretanto, o que chama atenção na leitura é justamente o fato da enunciadora [Natureza] carregar a proposição fantástica de toda narrativa, quando é ela que coloca Cubas para dentro de si e cobra a sua vida para si. Como afirma ao personagem:

 

[...] — Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada (DE ASSIS, 2019).

 

O Grande feito do Bruxo do Cosme Velho para a literatura de especulação no Brasil é justamente utilizar uma enunciadora textual que desprende não somente o enredo, mas a linguagem do lugar: a partir dessa enunciação, o narrador está em outro movimento no tempo-espaço da narrativa. Isso mostra, cara pessoa-leitora, que o registro fantástico não precisa estar somente nos fiar das palavras, sobretudo, podem estar na postulação da linguagem.

 

[...] Nas situações 2 (Enunciador Textual Apagado) e 3 (Enunciador Textual Condutor), que se põem neste ponto às situações 1 (Enunciador Textual Presente) e 4 (Enunciador Textual Apagado com Pontos de Vista sem Locutores), o ET cria um universo ficcional que dele se desprende. (MONTE & CATELÃO, 2023).

 

Obliquação dos sentidos, em O Sonho (1937), de Salvador Dali
Obliquação dos sentidos, em O Sonho (1937), de Salvador Dali

Para muito além de um debate óbvio do realismo mágico, por meio de um Enunciador Textual Presente (Brás Cubas) e uma Enunciadora Textual Apagada com Ponto de Vista de Locução (Natureza), Machado de Assis postula uma nova forma de especular pela literatura: a obliquação [obscurecimento] dos sentidos. Brás está morto, porque a Natureza foi sua Pandora, mas também ela foi sua Mãe, pois criou uma entidade capaz de enxergar até mesmo o último século de todos os tempos.

 

Com isso, Machado de Assis coloca-se como o grande mestre do jogo de xadrez da linguagem, ao trazer novos sentidos por diversos pontos de vista dentro do texto. O autor transforma sua literatura em um carrossel de iluminações e formas diferentes, nas quais quando mais são giradas, mais tornam-se complexas pelo movimento do tempo trazido pela proposta de linguagem da narrativa especulativa.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

DE ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas, São Paulo, 2019, Editora Ciranda Cultural.

 

MONTE, Michèle, Entre Autor e Locutores. O Enunciador Textual: Conceito Inútil Ou Figura-Chave? Trad. Evandro de Melo Catelão In: CAVALCANTE, Mônica Magalhães (org) et al, Texto, Tecnodiscursividade e Enunciação: Traduções – Volume 2, Campinas, São Paulo, 2023, Pontes Editores.


1 comentário


Evandro
há 3 dias

Lindo trabalho! Parabéns, Luiz, pela proposta do texto, especialmente pela forma como você conduziu e mobilizou os elementos teóricos e a obra de Machado, assunto que me é particularmente caro.

A articulação que você estabelece entre a leitura literária de Memórias Póstumas de Brás Cubas e a noção de enunciador textual enriquece significativamente a análise desenvolvida. Para mim, você fez um percurso analítico consistente, coerente e bem fundamentado para uma obra rara.

Gostaria também de ressaltar sua sensibilidade crítica, que contribui para a relevância e a qualidade do texto. O resultado é uma reflexão instigante!

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