A queda e a ascensão de "Garota Infernal"
- Celina Falcão

- há 7 dias
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Esses dias me deparei com o primeiro teaser de Forbidden Fruits (2026) e apesar de não ter tido a impressão de que se trata de nada de novo ou revolucionário, fiquei imediatamente ansiosa.
O motivo?
A produção é assinada por Diablo Cody, criadora de Juno (2007), filme pelo qual conquistou o Oscar de melhor roteiro original. Minhas colegas fanáticas de terror ou, simplesmente, adolescentes dos anos 2010, talvez se lembrem de Cody por uma obra um pouco mais infame: Garota Infernal (2009).

Garota Infernal sofreu um tremendo makeover de reputação, do tipo reservado para filmes “à frente de seu tempo": de fracasso de bilheteria e crítica a clássico cult. A recepção em seu lançamento, especialmente considerando o sucesso de Juno, apenas dois anos antes, foi catastrófica: faturamento mundial aproximado de $31,5 milhões em resposta a um orçamento de $16 milhões e críticas que advertiam sobre uma “obviedade de revirar os olhos" e decretavam Cody uma “roteirista espertinha [...] que acha que algumas piadas são suficientes para subverter o gênero de horror adolescente".
Esse fenômeno é frequentemente atribuído ao marketing do filme, que usou e abusou do status de sex symbol de Megan Fox, recém feita estrela de Transformers (2007), como tática de promoção. A roteirista Diablo Cody afirma que o estúdio responsável pelo filme estava determinado a direcionar a campanha publicitária para homens jovens, na mesma entrevista que conta que o filme começou com a principal intenção de fazer um filme “centrado em mulheres". A teoria de que essa campanha foi completamente destoante do filme e, por isso, alcançou o público errado, é basicamente pacificada, sendo corroborada pelas estrelas do filme e pela diretora, Karyn Kusama.
Por mais que essa imagem tenha atraído um público-alvo diferente daquele que era almejado pelas realizadoras Cody e Kusama, a realidade é que, em termos de conteúdo, não se trata de uma representação infiel do produto final. Garota Infernal é, de fato, profundamente sexualizado, e não acredito que a escolha da atriz tenha sido feita sem ter em mente que a personagem Jennifer Check é, acima de tudo, uma jovem que usa do corpo e da aparência como ferramenta de poder e controle.
“Nós temos todo o poder, você não sabe disso? Eles são como bombas guiadas” Jennifer diz a Needy, agarrando seus seios. “Aponte-os na direção certa e a coisa fica séria.”
Além disso, é inegável que há pelo menos uma dezena de clichês presentes no enredo. Uma cidade pequena de nome sugestivo, uma barganha faustiana, uma visita à seção de ocultismo da biblioteca. Mas Cody constantemente ironiza suas próprias escolhas. A virgem sacrificada não é uma virgem “nem na porta de trás”, o vocalista da banda maligna imprime um ritual que encontrou na internet. “Nossa escola tem uma seção de ocultismo?” pergunta o namorado de Needy.
E é claro que a cada cena em que Jennifer se despe, seduzindo uma de suas vítimas, o filme utiliza-se de tropos e referências muito comuns nos gêneros de sexploitation e rape revenge – infames por seu viés misógino. Mas faz uso desses símbolos para subvertê-los (beijinhos ao crítico do Boston Globe que citei lá em cima!). A sexualização de Jennifer, tanto pela câmera quanto por si própria, é tão extrema que alcança o absurdo e proporciona a oportunidade de refletir sobre a sexualização de outras protagonistas do gênero.
De forma semelhante ao poder contido nas cenas finais de A Substância (2024), em que o excesso grotesco e visceralidade exagerada refletem o absurdo irracional da busca pela beleza e juventude a todo custo, a sensualidade caricata de Jennifer, especialmente quando contrastada com o potencial sensível das cenas que retratam a amizade entre ela e Needy, refletem o ridículo do male gaze cinematográfico.
Se o objetivo de Diablo Cody era escrever um roteiro centrado em mulheres, e mais especificamente, na amizade entre mulheres, teve sucesso. Para o olhar feminino, a relação entre Needy e Jennifer é terna e dolorosamente familiar. Há um amor inegável, que em vários momentos toca o romântico, mas há também uma necessidade de validação através da superação de outra mulher.
A supervalorização da beleza, que é uma fonte fugaz e precária de poder. A consequente insegurança. A codependência, a paixão, a competitividade, a constante oscilação entre afeto e destruição. Entre garotas adolescentes, a amizade muitas vezes parece mesmo uma questão de vida e morte.
Hell is a teenage girl.
É esse olhar afiado – além de um senso de humor mordaz que nem a crítica foi capaz de negar – que me mantém animada para futuros projetos de Diablo Cody.
Atualmente, Garota Infernal conquistou tal redenção com o público que talvez seja mais controverso dizer aqui que está longe de ser um filme perfeito. Sua conclusão tende ao melodrama e a exploração dos temas é, por vezes, superficial. Mas não é difícil perceber por que muitas mulheres e pessoas queer adotaram o filme como um clássico do gênero.





Análise perfeita. Quando assisti esse filme pela primeira vez não havia refletido acerca das camadas dele, vi apenas enquanto um filme engraçado. Ao longo dos anos reassistindo tive outras aproximações dele que tornaram ele mais interessante.