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Backrooms, espaços liminares, estranheza e IA generativa

Titi Bayarri












Uma das maiores surpresas do cinema de gênero no ano de 2026 é, sem dúvidas, o lançamento de Backrooms: Um Não-Lugar, novo longa-metragem de horror e ficção científica da A24 com direção de Kane Parsons. Conhecido no YouTube como Kane Pixels, o jovem de apenas 20 anos ganhou a atenção de um dos maiores e mais reconhecidos estúdios do cinema independente recente através de seu curta-metragem The Backrooms (Found Footage) (2022), que deu origem a toda uma série de vídeos expandindo um universo que vem sendo criado coletivamente na internet há alguns anos.


As backrooms fazem parte de uma creepypasta (uma espécie de “lenda urbana da internet”) que surgiu no ano de 2019 em um fórum anônimo do 4chan. O post, que hoje já está fora do ar, trazia uma imagem de um corredor vazio, de paredes e carpete amarelado e com luzes fluorescentes. O texto anexo à imagem dizia que, se não tomarmos cuidado e “nos desligarmos” da realidade no lugar errado, podemos acabar nas backrooms: um espaço que segue por quilômetros e quilômetros de salas idênticas. 


Imagem original postada no 4chan.
Imagem original postada no 4chan.

A partir dessa ideia e dessa imagem, Kane (e não só ele, como outros criadores na internet) começou a explorar e expandir a mitologia dessa creepypasta através de obras audiovisuais que mesclam horror e sci-fi. O fenômeno das backrooms logo se popularizou e, com ele, todo um movimento estético começou a crescer na internet, mesmo que alheio às backrooms ou à proposta do horror: o dos espaços liminares


Para a antropologia, a liminaridade representa a qualidade de algo que está em um “entre-lugar”, em um estado transitório. Um espaço liminar, portanto, seria um espaço de trânsito, um espaço em função. Aeroportos, shoppings, corredores e escadarias, estacionamentos, salas de espera: todos estes são espaços de trânsito, espaços que ocupamos no entre e que são intrínsecos, em sua função, à transitoriedade e/ou à espera. 

Os espaços liminares não são novidade na ficção especulativa. A ficção científica e o horror utilizam deles há muito tempo, de diferentes formas e com diferentes finalidades, seja no cinema, na literatura ou mesmo nos games. Os espaços liminares como espaços físicos cotidianos e de passagem, que por algum motivo tornam-se estranhos, já aparecem nos corredores do hotel do Iluminado (tanto no livro, de 1977, quanto no filme, de 1980), no resort de Cuckoo: O Medo Chama (2024), no “7º andar e meio” de Quero Ser John Malkovich (1999) e no elevador da famosa cena do Show de Truman (1998).


Há, também, obras que apresentam espaços liminares que existem em uma suspensão do tempo e da realidade: a Red Room de Twin Peaks (1990), o programa de TV de I Saw the TV Glow (2024), as Zonas de Visitação de Piquenique na Estrada (livro dos irmãos Strugátski, de 1972, adaptado para o cinema por Tarkovsky), ou mesmo a matrix do universo literário de Neuromancer (1984).


Espaços liminares que exploram a imagem e a ideia cíclica do trabalho também têm sua força: não somente em Backrooms: Um Não-Lugar (Clark trabalha em uma loja de móveis e encontra, na entrada do backroom de sua loja, uma enorme pilha de cadeiras e mesas), como também na arquitetura dos espaços onde se passam a série Ruptura (2022) e o jogo The Stanley Parable (2011), por exemplo.


De cima para baixo, frames de The Stanley Parable (2011), Ruptura (2022) e Backrooms: Um Não-Lugar (2026).
De cima para baixo, frames de The Stanley Parable (2011), Ruptura (2022) e Backrooms: Um Não-Lugar (2026).

Backrooms: Um Não-Lugar não é um filme que tenta assustar com artifícios como o gore ou jumpscares. O filme se propõe a criar horror a partir da ambientação imersiva e de uma extrapolação do estranhamento. Quando os personagens começam a vagar pelos corredores das backrooms, eles encontram móveis e objetos conhecidos, familiares, mas que criam um estranhamento a partir da forma como estão dispostos, por exemplo. Esses corredores também não são necessariamente assustadores no começo, mas o vazio, a randomização, a disposição de objetos aleatórios e afastados de sua função, sua infinidade e a ausência de pessoas acaba criando essa estranheza.


O conceito de “infamiliar” de Freud (Unheimliche), da psicanálise, pode servir quando pensamos nessa estranheza. Acontece, em Backrooms, que elementos reconhecíveis, familiares, acabam deslizando para o infamiliar, causando estranhamento, mas esse estranhamento só ocorre porque, em algum lugar anterior, se conhece aquilo que agora se estranha. Outro conceito valioso para se pensar o estranhamento desses espaços liminares é o vale da estranheza (uncanny valley ou bukimi no tami), que vem da robótica, onde Masahiro Mori teorizou sobre a sensação de estranhamento causada a partir da falha de reconhecimento que ocorre quando olhamos para a imitação quase perfeita do robô ao ser humano. É algo que se parece conosco, é familiar, mas que desliza para a infamiliaridade.


Tudo isso, no contexto de Backrooms, me faz pensar nessa sensação de desconforto e estranhamento possível e tão recente que sentimos com a IA generativa. Como, por exemplo, quando se utiliza da IA para “corrigir” ou remover determinado elemento em uma foto e a ferramenta devolve uma imagem onde, mesmo que levemente, nos vemos distorcidos da realidade, com características físicas que não são nossas. Ou mesmo com o limite cada vez mais borrado entre o real e o artificial, onde nos vemos tentando decifrar se determinados vídeos nas redes sociais são reais ou foram criados a partir de uma IA. 

Embora esse não seja o tema do filme, são muitos os elementos que crescem em Backrooms: Um Não-Lugar se o assistirmos sob esta ótica. Para você, que chegou até aqui, deixo uma lista que montei no Letterboxd com produções audiovisuais citadas aqui, além de outras que, de uma forma ou de outra, trabalham com espaços liminares: https://boxd.it/V2DNk.


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