Body horror além do gore: a aterrorizante ideia de ter um corpo
- Celina Falcão

- há 3 dias
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Numa noite de verão em 2020, eu me sentei no sofá da casa da minha mãe para assistir Devorar (2019) depois de ver alguns comentários no Reddit que me fizeram acreditar que o filme estava acomodado exatamente no cruzamento entre dois grandes interesses meus, à época: terror e transtornos alimentares.

Talvez eu dedique mais tempo a esse filme em particular no futuro, mas hoje quero falar sobre outra coisa. O que você precisa saber agora é: era isso mesmo, mas não do jeito que eu esperava. Acho que eu tinha em mente algo como Eat (2014), com um orçamento mais gordo, ou o que viria a ser o livro You've Lost a Lot of Blood, de Eric La Rocca – gore, histeria, tripas. Cobrir os olhos com as mãos. Fiquei frustrada. O que encontrei imediatamente me provocou aquela enfadonha dúvida: isso é um filme de terror?
Tenho muita preguiça desse tipo de pergunta, especialmente porque sinto que, muito frequentemente, ela vem tingida de um esnobismo hipócrita. Na verdade, tendo a torcer o nariz pra tudo aquilo que tenta tornar um gênero ou categoria mais sólido, mais restrito, mais estável.
Então, tentei convertê-la numa pergunta mais interessante: o que mais podemos chamar de body horror?
Em geral, o termo se refere àquele gênero no qual o corpo humano sofre algum tipo de transformação ou mutilação que o torna assustador, grotesco, aflitivo. É um gênero que mobiliza nosso medo da podridão, da infecção, da morte, mas pode também se estender para lidar com todas as outras questões temerárias que conectamos ao corpo humano: o definhar, o controle, o próprio sujeito.
Muitos filmes mobilizam esse conceito de forma interessante, buscando ir além do fator do choque, lidar com questões mais pontuais. The Fly (1986) usa a mutação do corpo para articular questões de identidade. Helter Skelter (2012) e A Substância (2023) embarcam na dura missão de lidar com as atrocidades e violências que são impostas ao corpo feminino. Infinity Pool (2023) descarta, cria e violenta corpos, expondo o terror da dominação econômica.
Mas e se o terror não adviesse da transformação ou mutilação? Muitas vezes, o terror mais eficaz vem não daquilo que evitamos, mas do inevitável. O que me fez pensar sobre o body horror como forma de tratar não do horror que pode ser infligido sobre nossos corpos, mas que nossos corpos provocam em nós mesmos.
O medo do corpo. O corpo que é ingovernável. Que não se dobra aos desígnios da razão. O corpo, que nos torna menos do que seres pensantes, iluminados, que nos torna terrenos, animais.
A aterrorizante ideia de ser um corpo.
Através da história, o pensamento ocidental é marcado por um mal-estar diante da corporalidade. Em Platão, o corpo, embora seja também um meio de conservação e guarda da alma (psyche), é descrito como uma prisão e como um túmulo (séma) para a alma, a matéria que pune a alma e a mantém enclausurada. A verdade é intangível enquanto a alma permanece ligada ao corpo.
Essa desconfiança metafísica do corpo é herdada pelo cristianismo, onde a carne é a fonte do pecado, enquanto a razão e ainda mais a fé, fenômeno notadamente contrário ao material, aproxima o homem do sagrado. Segundo Agostinho de Hipona, a alma governará sempre ao corpo, por ser a substância de maior densidade ontológica, enquanto o corpo tende a afastar a alma de seu destino celestial através das tentações terrenas.
O dualismo mente-corpo permanece na modernidade. O Cogito, de Descartes, é a base da filosofia moderna, uma substância incorpórea dotada de pensamento, desejos e imaginação, e a mais certa e confiável afirmação científica, da qual todas as outras derivam (“Penso, logo, existo"). A “alma” se torna o “intelecto”.
A medicina, a anatomia e, mais tarde, a biopolítica passam a tratar a carne como um problema técnico a ser resolvido: algo que deve ser normalizado, controlado. A corporeidade passa a ser um conjunto de falhas, excessos e vazamentos que precisam ser geridos para que o sujeito moderno possa sustentar a ilusão de soberania sobre si mesmo. Diante da limpeza imaculada da razão, o corpo, por si só, se torna grotesco. Corporificar um ser é uma tática de dominação, de inferiorização.
Ao longo de toda a história ocidental, prevalece a fantasia de ser “algo mais” do que carne. A própria ideia da existência de uma substância não corpórea que o corpo somente expressa visualmente – seja ela a alma, o intelecto, ou até nossa preciosa identidade – é uma produção humana, desconfio, para sanar nosso temor de existir como corpos no mundo, da natureza vulgar e indomável do corpo.
Acredito que ainda podemos falar em body horror quando o terror não é o de que o corpo falhe, adoeça ou morra, mas o de que nunca houve nada em nós além de corpo. Gosto de pensar no body horror não como um subgênero do gore, que é muitas vezes utilizado para causar choque. Mesmo quando não há o fator gross-out, acho que todos tememos, de certa forma, a mera ideia de ser um corpo.




Que texto interessante, juntando terror e filosofia. Eu acho mesmo que o corpo humano já tem vários aspectos assustadores e o terror baseado nisso, como você disse, é ainda mais assustador, por ser inevitável
Ótima reflexão, o corpo de fato é um campo muito fértil para o horror, o fato de envelhecer/adoecer nos mostra nossa incapacidade de controlar nosso próprio corpo. E é essa perda de autonomia sobre o corpo, uma das facetas de nossa identidade, que nos causa horror. Parabéns pela texto Celina.