"Não olhe!" O luto enquanto experiência sensorial fragmentada em "O Corvo"
- Caio Capella

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Em uma noite sombria na violenta metrópole, vaga uma figura espectral em meio às sombras. Face pintada de branco, olhos marcados em preto, batom escuro que desenha um sorriso mórbido, o cabelo desfiado, negro como penas de um corvo, e em trajes sombrios; ele singra os becos em busca de vingança. Aqui jaz um homem atormentado pela perda: Eric Draven.
O Corvo, de James O’Barr, é uma obra visceral e íntima sobre o luto. Nascida da experiência pessoal com a perda, projeta em Eric uma figura enigmática e corroída pela ausência. A obra oscila entre lirismo e brutalidade, marcas da tradição gótica.

Eric Draven move-se entre a vingança e o espectro da memória. Ao seu lado, um corvo negro, figura ambígua que ora observa, ora adverte. “Não olhe”, grasna. Não como ordem, mas como aviso: há memórias que ferem no instante em que são tocadas. Estes fragmentos, descontínuos no tempo, não organizam a narrativa, a fraturam. E é nessa fratura que o luto se revela como força motriz. A perda de Shelly Webster abre o abismo onde Eric se dissolve.
O’Barr constrói uma narrativa de beleza ferida. As páginas combinam referências musicais e lirismo visual, sustentadas por uma estética que torna o sofrimento quase tangível, não como fato, mas como presença.
O luto é um processo psicológico que encontra, de forma controversa, em Kübler-Ross (2017) uma de suas leituras mais conhecidas. Em Sobre a Morte e o Morrer, a autora propõe o luto como atravessado por fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, embora reconheça que tais estágios não seguem uma ordem fixa, nem são vivenciados por todos os indivíduos. Ainda que amplamente criticado, esse modelo permanece como um dos mais recorrentes esforços para dar linguagem ao indizível: a perda.
Os flashbacks fragmentados no tempo nos auxiliam a montar em paralelo o trágico romance de Eric Draven e Shelly Webster e a fatídica noite na qual eles foram brutalizados pela gangue chefiada por T-Bird e composta por seus comparsas Funboy, Top Dollar, Tin-Tin e Tom-Tom. Enquanto recurso narrativo esses flashbacks se tornam importantes não apenas por nos ajudar a reconstruir a história, mas pelo peso emocional que expressam.
Em um quarto vazio, uma figura sombria, sua cabeça pende para o lado de modo que seu queixo toca seu peito e seus olhos fitam o chão, como se evitasse encarar as memórias, seus braços estão cruzados, buscando consolo em seu próprio abraço, suas pernas estão igualmente cruzadas, às suas costas há uma janela, na qual é possível observar a chuva melancólica e à sua frente uma série de fotografias dispostas ao chão. Ao fundo é possível ouvir o lúgubre som de um violino tocando, cujas cordas são os nervos do próprio braço deste homem.
As cordas deste violino suturam todos esses fragmentos e revelam o ponto central do luto: o sofrimento e a incapacidade de olhar para trás, para o que perdeu, o que fez, deixou de fazer e todos os planos interrompidos. O Corvo sempre grita: Não olhe. Pois ele compreende como eles impactam o protagonista.
Há algo estranho nesta obra. Esses fragmentos de memória descontínuos no tempo e tão curtos conseguem nos tocar, de modo que podemos sentir o tormento de Eric Draven. Eles conseguem pois soam reais, cada momento possui um significado único para Eric e Shelly que é construído no enredo da história, o trecho Natal em Agosto foge completamente do significado geral de Natal, que acontece em Dezembro, mas possui um significado especial para os personagens. A apresentação deste fragmento acontece no clímax da obra, na qual as emoções estão à flor da pele.
A própria movimentação corporal do personagem, que por vezes dança, não apenas aprofunda o tom dramático e mórbido da obra, mas possui um significado especial nesse luto do personagem, que não sabia dançar, mas promete à sua amada que melhoraria suas habilidades.
Os fragmentos de memória são momentos nos quais o personagem vivencia a negação, barganha e depressão principalmente. O mundo real o confronta principalmente com a raiva, o que resulta em todas as interações violentas com a gangue assassina e seus capangas. Por fim, em seu encontro com a morte ele passa pela fase final, a aceitação.
O’Barr, afirma que o cavalo branco preso em um arame é uma metáfora visual para a perda, não apenas de Eric, mas para a sua própria, e que por coincidência essa parte foi cortada da primeira versão da obra, mas que anos após com a possibilidade de uma nova edição ele decidiu integrá-la. A obra é repleta de metáforas e referências construídas a partir do significado que o autor construiu para sua perda, o carro por exemplo é central.
Segundo o autor, a morte de sua amada na vida real foi causada por um acidente de trânsito. Ao tentar consolidar seu tormento, o carro está presente, mas no lugar de um acidente, há o ataque da gangue de T-Bird e a brutalidade que se segue aos personagens. Uma forma talvez de tentar representar a mesma dor que o autor sofreu ao perder sua amada, utilizando-se de significados que chocam a população no geral, mesmo que não tenham passado pela mesma perda que ele.
Logo no início do quadrinho, há um fragmento onírico no qual Eric se encontra em um trem. A viagem transcorre tranquila, com um dia iluminado e o personagem encarando o exterior, até que um cavalo branco surge. Ele olha para este cavalo com felicidade que logo é destroçada pelo horror: o cavalo se choca com um arame farpado, aquela figura passa do belo e sublime para uma imagem torturante pelo sofrimento do belo animal. Em Faísca, o cavalo branco retorna, com sua forma e brilho espectral, claramente em suplício enrolado por arames farpados, o que leva o personagem a acabar com seu martírio, ao passo que o corvo o indica para seguir adiante assim que vir a enigmática figura da mulher de preto novamente.
Esse fragmento talvez seja a síntese do alerta do corvo: não olhar. Não há aqui felicidade, apenas a brutalidade do real, aquela para a qual Eric, no início, ainda não estava preparado. Ao final, depois de confrontar seus algozes e atravessar o labirinto das próprias memórias, ele se vê diante da última fronteira do luto: perdoar a si mesmo e seguir adiante.
Seguir adiante não é esquecer. É continuar apesar do que foi perdido. Como se diz no último gesto da obra, as cicatrizes da alma não desaparecem, elas permanecem como as do corpo: às vezes latejam, como os pulsos do violinista; às vezes apenas existem, silenciosas, como a lembrança do que nunca termina de partir.
Referências Bibliográficas
KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer: O que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
O’BARR, James. O Corvo: Edição Definitiva. Tradução: Érico Assis. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2018




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