Pregação ou blasfêmia: duas faces do terror religioso
- Celina Falcão

- há 1 dia
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Nenhum outro gênero tem as mãos tão firmemente atadas à religião – em especial, ao Cristianismo – como o terror. Le Manoir du Diable (1896), considerado por muitos o primeiro filme de terror, já retratava uma aparição do próprio Diabo, talvez como a forma mais simples e rápida de simbolizar o conflito narrativo travado entre o Bem e o Mal, com letra maiúscula. Possessão, barganhas faustianas e exorcismo são alguns dos tropos mais comuns no cinema até os dias de hoje. E, embora talvez não se possa dizer — pelo menos não sem muita controvérsia — que filmes centrados em forças demoníacas e infernais sejam exatamente “cristãos”, a religião é condição sine qua non para a existência de toda uma gama de filmes de terror. Por isso os chamamos de terror religioso.
A lógica religiosa em si não é estranha ao uso do terror como recurso disciplinar. A Bíblia é repleta de histórias de violência, tortura e aparições sobrenaturais grotescas. A mobilização do medo é uma tática extremamente efetiva de controle e manipulação.
Vejamos, por exemplo, a hell house estadunidense. A hell house é uma tradição evangélica na qual jovens devotos montam uma simulação de terror em que personagens "pecadores” queimam e gritam em infernos simulados de luz vermelha e chamas de papel crepom. Embora esse tipo de evento teatral seja menos comum hoje, abordagens menos sensacionalistas persistem. A própria existência de um inferno para aqueles que se opõem ao dogma cristão não é diferente de uma ameaça.
Parece então um tanto quanto incongruente que muitos filmes de terror que usam como premissa a confirmação de crenças religiosas, em especial cristãs, tenham sido repudiados pela igreja como blasfemos, satânicos, como se a representação de forças demoníacas tornasse o próprio filme demoníaco.
Mas a verdade é que alguns dos principais e mais bem sucedidos exemplos de filmes de terror no geral, se alinham às ideias de temor divino promovidas pela religião que abordam. Filmes como O Exorcista (1973), O Bebê de Rosemary (1968) e A Profecia (1976) exploram possessão demoníaca, pactos satânicos e a chegada do Anticristo. Apesar de haver nesses filmes uma articulação primorosa de temáticas sociais relevantes à época do seu lançamento, é impossível negar que deixaram de cabelo em pé até os cristãos menos ortodoxos. Mesmo onde há algum questionamento, da parte dos personagens, sobre a natureza das forças macabras em ação, ela é confirmada pela narrativa; estamos de fato num mundo em que “O Coisa Ruim” existe, e busca atormentar os filhos de Deus.
No entanto, o terror religioso não precisa se limitar à cumplicidade com a noção metafísica difundida pela religião que retrata. No século XXI, com uma prevalência maior de críticas e questionamentos às instituições religiosas, aparecem filmes que exploram um outro tipo de horror, que também costumamos chamar de terror religioso: a própria religião, sua natureza dogmática, sua estética, causam medo.
A Bruxa (2015) e a série Missa da Meia-Noite (2021) flertam com essa ideia. Embora o sobrenatural esteja de fato presente, não corresponde exatamente às expectativas sustentadas pelas personagens religiosas, e são apenas uma fração da força antagônica. Já filmes como Herege (2024) e Midsommar (2019) adotam uma visão nuançada, contraditória da crença religiosa. Há menos de especulativo nessas histórias, menos fenômenos divinos ou demoníacos. Mas o que fica claro é: diante da inexistência de evidências, a fé pode ser extremamente perigosa, inclusive mortífera.
Pessoalmente, meu favorito no balaio é Saint Maud (2019). A história de uma jovem enfermeira devota que, acreditando ter recebido um chamado divino, se torna cuidadora de uma indulgente ex-dançarina com câncer terminal, Saint Maud nos apresenta um confronto entre fé e fragilidade, propósito e loucura, morte e sexualidade. O medo se contrapõe completamente ao bordão de que os que choram serão consolados e os mansos herdarão a Terra.
Em todas essas histórias, os comportamentos de personagens devotos são igualmente, senão mais insidiosos, que qualquer ameaça sobrenatural. Aqui, fiéis e até mesmo membros da igreja também podem ser gananciosos, soberbos, irados, vilões. Quando vítimas, são vitimados pela força opressora de sua própria crença, pelas ilusões nas quais acabam por acreditar, não pelos adversários de seu Deus. Nesses filmes, a interpretação que a religião dá aos fatos gera uma violência brutal, institucional e profundamente humana.



Essa análise é interessante, penso que essa linha entre pregação e heresia é bem tênue no ideário cristão. Ao passo que muito se usam essas imagens como forma de conversão elas são expurgadas quando se tornam entretenimento. Ótima reflexão.