O encontro da ficção científica com o terror por meio do body horror
- Caio Capella

- há 6 dias
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Em um labirinto interminável de cavernas de aço no subsolo jaz uma criatura sem qualquer semelhança com um humano, seu corpo é um aglomerado inchado e irregular, na qual ossos, músculos e carne foram fundidos em uma massa disforme, sua anatomia foi apagada.
Esta não é uma simples mutilação corporal, mas uma reprogramação, que não permite que o indivíduo experiencie o corpo, é uma negação do eu através do corpo. Esse corpo não pode interagir ou sentir fisicamente o mundo, mas que ainda pensa. E de toda a sua agonia uma frase projeta-se no vazio de sua imaginação: Não tenho boca, e preciso gritar!
Não tenho boca, e preciso gritar (I Have no Mouth, and I Must Scream) de Harlan Ellison é, sem dúvidas, um clássico da ficção científica moderna. Um conto curto, que hoje pode ser encontrado em coletâneas, ou nas águas profundas da internet. Escrito em 1967 apresenta um mundo distópico na qual a guerra fria é finalmente escalada e as três potências: Estados Unidos da América do Norte, China e União Soviética entram em conflito com o auxílio dos supercomputadores AM (Allied Mastercomputer).
Apesar de ser um conto de ficção científica, Não tenho boca, e preciso gritar é um ícone para pensar no body horror, não apenas enquanto tortura e mutilação, mas enquanto o horror que surge a partir da perda do controle sobre seu corpo. Essa perda influencia diretamente na construção do eu, pois é através do corpo que primeiro experienciamos o mundo e construímos nossa subjetividade.
O horror para Harlan não é acidental, mas sistemático.
Harlan apresenta a existência como problema central em seu conto, na medida em que os supercomputadores AM tomam consciência, se unificam e se voltam contra a humanidade, renomeados doravante como AM (Aggressive Menace), e conseguem exterminar a humanidade, restando apenas cinco seres humanos: Benny, Ellen, Nindok, Gorister e Ted que são mantidos em cavernas subterrâneas por AM que passa a torturá-los.
A sigla AM (Allied Mastercomputer/Aggressive Menace) é uma jogada com a palavra AM (primeira pessoa no singular/sou) e reflete o grande questionamento do supercomputador: Eu sou? Ao longo do texto aparecem códigos (alfabeto de telégrafo) que representam a fala do supercomputador, estes códigos quando traduzidos trazem uma profundidade à obra: I Think, Therefore I Am. (Eu Penso, logo existo) e Cogito Ergo Sum (Eu Penso, logo existo, em latim) frases centrais na obra do filósofo René Descartes.
Descartes busca em sua obra encontrar uma verdade indefectível, e a partir da dúvida metódica para encontrar essa verdade ele percebe um ponto central: o fato de pensar (duvidar) demonstra que eu existo. Mais tarde o autor se aprofunda neste insight, observando o res cogitans (coisa pensante), no qual, o simples ato de pensar garante a existência, mas não a existência plena enquanto sujeito encarnado. Há assim um paradoxo no pensamento de Descartes: o cogito garante a existência lógica, mas não garante a existência experiencial/subjetiva, é necessário que este pensamento explicite o ser pensante, isto é, esse pensamento não pode existir sem que eu exista, o que explicita a subjetividade enquanto ponto de partida do conhecimento moderno.
Assim, há uma tensão para AM, pois apenas pensar, não garante sua existência enquanto sujeito, tendo em vista que lhe falta uma característica fundamental do ser humano: a subjetividade, que é construída a partir da experiência (física e mental). No conto, os cinco personagens já estão sob poder de AM há 109 anos, que os mantinha vivos de maneira indefinida, além de os torturar. Há, através das intervenções de AM no corpo dos indivíduos uma busca pela tensão nas partículas do ser de cada indivíduo, retirando-lhes características fundamentais de sua subjetividade, além da afirmação frequente de AM: Eu penso, logo existo, sem que ele apresente uma subjetividade clara.
Os personagens são desenvolvidos, para além do conto, no jogo homônimo no qual o autor tem coparticipação. No jogo, o autor faz a voz de AM, na qual, para além da frase repetida no conto há ponderações sobre a existência, aprofundando a ideia do autor acerca do ser. A obra se mostra atual ao nos permitir também refletir sobre a inteligência artificial e suas interações com o ser humano.
As interações sádicas entre AM e os cinco personagens, focam-se principalmente na quebra de aspectos da subjetividade de cada um destes seres pensantes a partir do corpo. Benny, talvez seja o que mais sofreu intervenções de AM, um cientista cujo intelecto, beleza e orientação sexual eram centrais em sua subjetividade foi transformado em uma criatura simiesca, despojado de seu intelecto com um “membro” de tamanho enorme. Ellen, a única com sua raça definida, uma mulher negra, antes virgem, foi transformada por AM em uma ninfomaníaca, que busca o intercurso com os outros quatro sobreviventes, tendo Benny como seu preferido.
Gorister, um pacifista idealista, foi transformado em alguém apático e sem sentimentos, invertendo totalmente suas emoções. Nindok, o mais velho, sobre o qual não se tem muitas informações, por vezes desaparece e retoma machucado ou traumatizado, de modo que Ted, o protagonista do conto acredita que ele passa por sessões de tortura guiadas pelo supercomputador. Ted, o protagonista, é visto como o que menos foi tocado por AM, acreditando que os outros têm inveja dele. O conto é estruturado a partir do ponto de vista de Ted.
Em Benny, o body horror não está apenas na deformidade corporal, mas na perda da razão, reduzindo a experiência do cientista apenas à experiência corporal sem reflexividade e a hipersexualização. Ellen, por outro lado, sofre de uma violação de sua autonomia corporal, de modo que a compulsão sexual esvazia o sentido do ato sexual, há desejo, sem contudo objeto de modo que o corpo reduz-se apenas a um mecanismo de repetição.
Gorister apresenta um body horror silencioso, no qual sua experiência é anestesiada, seu corpo parece funcional, mas completamente esvaziado de afetos, de modo que ele não responde mais ao mundo, preso em uma existência apática. Nindok, por sua vez, apresenta a fragmentação da experiência, seu corpo é marcado pelos traumas invisíveis, o não dito transforma a violência de AM em algo inominável – aqui há o não dito enquanto ferramenta do horror. Ted possui a mais refinada tortura: a forma com que percebe o mundo foi alterada, o protagonista foi manipulado por AM de modo a se tornar paranoico e introvertido, e acredita que não foi alvo das experiências do supercomputador.
O ponto central na relação do supercomputador com cada uma de suas vítimas é a alteração de traços que formam a subjetividade de cada uma de suas vítimas. A exploração da experiência corporal, através das torturas, alterações físicas e a supressão de sentidos não tem um objetivo claro segundo Ted, além do ódio e sadismo de AM. É importante então retornar à filosofia de Descartes, na qual o ser está relacionado ao pensamento e a subjetividade que enquadra o pensamento, ao despojar suas vítimas de sua subjetividade AM visa explorar as fronteiras que definem o ser. Paradoxalmente, apesar de afirmar Eu penso, logo existo, AM não consegue preencher os demais critérios apresentados por Descartes para a existência, dentre eles a subjetividade e a experiência corporal. AM apenas é, ele não existe.
Ao final do conto, AM enfurecido pela morte das outras quatro vítimas, modifica Ted ao ponto de que sua forma corporal não lhe permite tentar se suicidar, ou mesmo expressar seus sentimentos, sua mente passa a funcionar de um modo lento, de modo que cada pensamento e sentimento leva meses para ser processado. Ao afirmar “Não tenho boca, e preciso gritar.” Ted apresenta um tema central no body horror: a perda do controle sobre seu corpo que em última instância conecta-se à perda de uma das bases de sua subjetividade – a experiência corporal – e consequentemente a perda do ser.
AM por outro lado, vivencia o horror de pensar, mas não conseguir definir de fato sua existência, pois como afirma Descartes, apenas pensar não é prova de existência, é necessário que exista uma subjetividade – marcada pela experiência corporal e mental – que guia este pensamento. Apesar da consciência do supercomputador, a experiência física estará sempre ausente a ele, gerando a curiosidade e o sadismo nela em perpetrar sobre suas vítimas as torturas e experimentos torpes.
AM apenas é. Ted, ao final do conto, aprisionado em uma massa disforme que visa negar a experiência corporal, também apenas é, existindo apenas enquanto pensamento aprisionado: “Não tenho boca, é preciso gritar!”



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