“Casa dos Sonhos” como luta contra a violência do arquivo
- Celina Falcão

- há 3 dias
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No fim do ano passado, comecei a trabalhar num cujo título provisório era Tradwives e um compilado de terror doméstico. Depois de inúmeras reformulações e muitas crises de auto estima, resolvi engavetá-lo por hora, mas se ele aparecer aqui na coluna algum dia, você saberá que minha teimosia foi mais forte. Se não, esqueça o que eu disse.
Eu queria tratar disso porque acho que por trás desse fenômeno das redes, a propaganda desse estilo de vida como um tentador retorno bucólico e aconchegante a um passado idealizado, mora um dos perigos mais assombrosos da vida real: um número avassalador de mulheres financeira e emocionalmente dependentes, submetidas ao controle e aos desígnios de uma outra pessoa que, muitas vezes, a tratará como posse e nada mais. Posse que se pode usar ou isolar, vender ou destruir. Em filmes como O Bebê de Rosemary (1968), Watcher (2022) e Acompanhante Perfeita (2025), as consequências não são mais arrepiantes do que as que encontramos na vida real.
Embora seja difícil para mim admitir, – e meus anos de estudos, e meu lugar de fala, e minha jornada interminável de desconstrução? – acho que sei por que não me ocorreu, em momento algum, incluir Na Casa dos Sonhos, de Carmen Maria Machado, nesse tal compilado. Afinal, Machado é uma de minhas autoras favoritas, parte central do meu projeto de mestrado, uma mestra do horror. Nesse rascunho de ensaio, eu chego até a citar seu conto, O Ponto do Marido. E Casa dos Sonhos é uma história de terror real. Mas algo a distingue de todos os outros títulos que designei de “horror doméstico”. Naqueles, a figura monstruosa, a ameaça tentadora, a força controladora, é sempre um homem. Num nível mais abstrato, a opressão de gênero que ele representa. A violência é caracteristicamente masculina.
Em Na Casa dos Sonhos, Carmen Maria Machado analisa e revisita, através de tropos clássicos da história da casa mal-assombrada, sua experiência real com o abuso e a violência doméstica numa relação sáfica. É um esforço de resgatar uma história de sua própria vida, mas também de lutar contra aquilo que Machado chama, reproduzindo Saidiya Hartman, de “violência do arquivo”: quando sofremos a destruição de uma parcela de nossa história coletiva porque as vozes que as contam são silenciadas.

O livro é composto por dezenas de vinhetas curtas que variam entre memória, ensaio, prosa poética e confabulações que criam um caleidoscópio fantasmagórico deste período na vida da autora, mas, também, da violência doméstica como fantasma em tantas histórias, de tantas famílias. Esse formato se presta maravilhosamente à proposta de Machado, mesclando história pessoal e coletiva, realidade e ficção, justamente, “elaborando uma série de argumentos especulativos” para “contar histórias impossíveis”.
No todo, mas mesmo entre pessoas queer, a violência doméstica dentro de relações homoafetivas é um certo tabu. O silêncio a respeito dela é multifacetada: vem, em parte, pelo medo de confirmar estereótipos homofóbicos sobre as dinâmicas e a experiência de casais homoafetivos, pelo distanciamento de amigos e família que muita vezes é experimentado por pessoas queer e agravado pelo abuso, em parte pela invisibilização das relações homoafetivas no geral, de forma que a violência pode parecer uma parte “natural” da relação. Machado escreve:
“Então, quando ela chega dizendo que namorar mulher é assim, você acredita nela. E por que não acreditaria? Você confia nela, e não tem nenhuma outra referência. Você passou a vida inteira ouvindo seu pai falar da emoção, da sensibilidade das mulheres. (...) Tantos anos dizendo ao seu pai que ele estava falando merda, que precisava descolonizar a cabeça e parar com o essencialismo de gênero, e olhe você aqui aprendendo que relações lésbicas são, de certa forma, diferentes — mais intensas e mais bonitas, mas também mais dolorosas e mais inconstantes, porque as mulheres também são tudo isso.” (Na Casa dos Sonhos, edição Kindle, p. 76)
No Brasil, a ABRAFH (Associação Brasileira de Famílias HomoTransAfetivas) lutou para solidificar no STF, em 2025, uma interpretação ampla da Lei Maria da Penha que protegesse também pessoas vítimas de violência doméstica em relações homoafetivas. Embora a decisão seja uma conquista imensurável em termos de jurisprudência, sozinha, não destrói o estigma.
Mas aí é o trabalho da literatura. É preciso conhecer as histórias de pessoas como nós, e as histórias de pessoas completamente diferentes de nós. É preciso lutar contra a normalização do abuso, escrever horror sobre o horror real. Essa é a literatura que luta contra a violência do arquivo.



Amei o texto! 💥 Nunca li Machado, mas tem um episódio muuuuito tudo-de-bom sobre os contos da autora no podcast Leitura Estranha, vale ouvir!!!