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Você adentra o Grand Guignol

Retrato em preto e branco de Celina Falcão; texto azul diz que é editora, tradutora e escreve sobre gênero e sexualidade.







Paris, 1910. É uma noite morna, e você caminha com as mãos nos bolsos entre um mar de passantes. O domo imponente da Sacre-coeur e as luzes de Montmartre há muito ficaram para trás. As multidões ao seu redor se detém diante do enorme moinho vermelho do Moulin Rouge, antecipando uma noite de música e dança regada à champagne. Você, também, antecipa um espetáculo e tanto, mas não ali. Você segue em frente, penetrando as entranhas escuras do distrito de Pigalle. Seus sapatos estalam sobre o paralelepípedo de um beco escuro, estreito, cercado de paredes altas. Outros patronos, assim como você, baixam os chapéus, ocultando os olhos. Uma antiga capela reformada se ergue adiante. Do outro lado das estreitas portas de madeira maciça, flutua o espectro olfativo de olíbano e mirra, dois enormes anjos de pedra sobre a orquestra, confessionários convertidos em camarotes, de onde se pode ouvir o som insinuante de casos ilícitos. Você adentra o Théâtre du Grand Guignol. 


Atualmente, o termo Grand-Guignol se refere a um gênero que se pode perceber como uma espécie de antecessor do tão querido slasher. Além da violência gráfica e realista, a genética habita na tendência ao melodrama e na inserção de cenas de cunho sexual ou humorístico, dinâmica na época batizada “La douche écossaise”. Mas, antes de batizar todo um gênero de performance teatral, o termo fazia referência ao homônimo teatro parisiense inaugurado em 1897.


Concebido como um teatro naturalista, as primeiras peças do Grand Guignol tinham como objetivo uma retratação crua e realista da vida cotidiana, muitas vezes inspiradas pela literatura de autores como Émile Zola e Guy de Maupassant. O conteúdo das peças visitava frequentemente casos reais e conhecidos de crimes violentos e lendas urbanas. Ainda que a representação de personagens anteriormente censuradas ao público, como prostitutas, pessoas desabrigadas e criminosos, fosse já bastante controversa, não parecia ser suficiente para escandalizar, e, apesar do tom pessimista característico do movimento naturalista, não se podia necessariamente dizer que tendesse ao terror. No entanto, o segundo diretor do teatro, Max Maurey, rapidamente se deu conta de que as peças mais brutais e perturbadoras, aquelas que de fato provocavam reações viscerais, eram também as que atraíam o maior público. Em suma, o horror era uma boa tática de negócios. 


Assim, embora tenha mantido a veia naturalista que tinha fundado a companhia, jamais tendendo ao sobrenatural, as peças se tornaram cada vez mais macabras, e o nome Grand 


Guignol se tornou sinônimo de horror e choque. A equipe do teatro foi responsável por criar efeitos práticos especialmente tecnológicos e impressionantes para a época, como sangue que parecia coagular sob os holofotes e látex que conferia à pele uma aparência derretida. Maurey empregou um médico que permanecia no teatro durante as apresentações, em parte para auxiliar em casos reais de desmaios e vômito durante as apresentações, mas também como tática publicitária que contribuía para a mística sórdida, o boato de que em média dois desmaios ocorriam por noite. O dramaturgo André de Lorde, um dos principais escritores do Grand Guignol, ficou conhecido como “Príncipe do Terror", e a atriz cujo nome é diretamente associado aos anos dourados do teatro, Paula Maxa, como “A mulher mais assassinada do mundo”. 


O teatro fechou as portas em 1962, após um período de esvaziamento. Um dos possíveis contribuidores é o crescimento do cinema, mas a dramaturga Agnes Pierron atribui a derrocada à diretoria de Jack Jouvin, que mudou o repertório do Grand Guignol, abandonando o gore explícito em favor de um terror mais psicológico que, aparentemente, não era da preferência do público. 


Há um argumento, no entanto, no sentido contrário à sede de sangue do público. O teatro teve popularidade entre as forças alemãs que ocupavam a Paris dos anos 1940, mas não é surpreendente que o pós-guerra tenha visto crescente aversão aos espetáculos de tortura e carnificina. No ano do fechamento, o último diretor do Grand Guignol, Charles Nonon, afirmou: 


“Nunca poderíamos competir com Buchenwald. Antes da guerra, todos achavam que o que acontecia no palco era puramente imaginário; agora sabemos que essas coisas — e algumas piores — são possíveis.”


Seja lá o que foi que guilhotinou o teatro sombrio de Paris, seus ecos permanecem plenamente vivos na divulgação de desmaios em sala de cinema como tática de marketing, no apreço persistente por efeitos práticos. Para os curiosos, o Brasil tem até mesmo uma companhia de teatro dedicada à exploração da estética do Grand Guignol, a Vigor Mortis. Mas, acima de tudo, permanece na paixão popular pelo slasher e pelo true crime, fazendo de muitos de nós eternos guignoleurs


REFERÊNCIAS 

QUIGLEY, Karen. Theatre On Call: Participatory fainting and Grand-Guignol theatre. In: Performance Research, v. 16, n. 3, pp. 105–107, 2011. 

PIERRON, Agnès. TREISMAN, Deborah. The House of Horrors. In: Grand Street, n. 57, pp. 87-100, 1996. 

WILLIAMS, Holly. Why the Grand Guignol was so shocking. Disponível em: https://www.bbc.com/culture/article/20190304-why-the-grand-guignol-was-so-shocking. Acesso em: 24 ago. 2026.

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