Inteligências artificiais e as características humanas
- André Agueiro

- há 5 dias
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Seria um tanto clichê iniciar dizendo que o mundo real está ficando cada vez mais bizarro a ponto de aproximar-se de forma tão assustadora com obras de ficção científica especulativa. No entanto, sinto todos os dias, particularmente de uns dois anos para cá, que a humanidade não está mais caminhando, mas correndo na direção de um colapso social irreversível.
Desde o surgimento da inteligência artificial nesta década como conhecemos hoje, algo nela me incomoda profundamente, e apenas pensar sobre o uso desenfreado desta por bilhões de nós e os impactos que isso causará em uma curta janela de tempo me deixa apavorado.
Além de todos os impactos ambientais que isso implica, o qual não é o foco da coluna de hoje, minha preocupação também está relacionada em como a humanidade e o que é ser humano está em risco. Tudo o que nos faz humanos chega cada vez mais perto de ser terceirizado por uma IA. Até então, ela não substituiu nossa necessidade de interação social com outros da nossa espécie. Mas no que resultaria seu desenvolvimento desenfreado nesse âmbito? Se as pessoas já utilizam a IA como forma de desabafo e como conselheira, o que fariam caso ela se desenvolvesse a ponto de emular uma interação humana como se fosse de fato uma?
Ex Machina (2015), apresenta uma robô de aparência idêntica a um ser humano, além de trazer o questionamento sobre se é possível que IA’s desenvolvam consciência de fato ou se elas só a simulam — colocando aqui em evidência algo similar no que é proposto no “Teste de Turing”, que seria a capacidade de distinguir uma interação humana em contraste com a de uma IA. O envolvimento do protagonista com a robô é tão forte que ele arrisca sua própria integridade física para ajudá-la, embora ela estivesse numa situação tão vulnerável que a atitude mais humana ali seria livrá-la do que estava sofrendo, mesmo ela sendo uma “máquina”. O final do filme é tão surpreendente que é quase impossível não pensar que a robô criou uma consciência e está tendo atitudes indistinguíveis das humanas de fato, como a capacidade de se adaptar, prever e escapar do perigo iminente com ações calculadas, que apenas um ser com capacidade racional poderia planejar.

A similaridade humana com as inteligências artificiais também é colocada em evidência no livro Speak, de Louisa Hall, publicado também em 2015. O mundo atual aqui, em 2040, é tão desolado e desesperançoso que as pessoas vendiam seus “direitos de transporte” para conseguir uma casa própria, mesmo que isso significasse nunca mais poder se mudar de complexos residenciais projetados para otimizar a vida humana num planeta Terra com escassos recursos naturais restantes, que apenas uma parcela ínfima da população, a elite, ainda poderia desfrutar.
O livro acompanha mais de cinco vozes distintas em épocas diferentes, que de alguma forma são interligadas pela extrema necessidade de possuir uma ligação íntima e duradoura com outro ser humano, a fim de extinguir uma certa solidão involuntária em que eles se encontravam. Algo que me chamou a atenção foi o desenvolvimento dos chamados babybots, que eram robôs acompanhantes de crianças, substituindo a necessidade de interação destas na escola, por exemplo. Na obra, a criação e proliferação desta IA causou um efeito psicótico gigantesco nas crianças quando estes robôs foram finalmente banidos. No livro, esta perspectiva é apresentada por Gaby, uma adolescente que teve sua babybot arrancada de si e que precisava encarar a dura realidade sem ela. É aterrorizador ler sobre como a falta de interação social com outros seres humanos afetou completamente a vida dessas crianças, que após perderem seus robôs entram num estado praticamente catatônico, em meio a um tipo de depressão severa que em alguns deles é até paralisante. A falta de conexões reais das crianças, que estavam acostumadas com um robô que satisfazia todas as suas carências emocionais, sem discordâncias e incômodos, as deixou completamente despreparadas para seguir a vida após as perderem.
É intrigante notar que na narrativa, a inteligência artificial sempre teve seu desenvolvimento atrelado à falta que os humanos envolvidos sentiam de ter uma conexão humana íntima e afetuosa. Alan Turing, uma dessas vozes, tem a ideia de desenvolver uma mente artificial para armazenar e reproduzir a personalidade e o cérebro de seu melhor e único amigo Chris, que foi vítima de uma morte muito precoce. Assumindo uma certa liberdade poética, embora misture elementos reais, a autora mostra como a solitude de Turing e a saudade de seu melhor amigo o afetou durante todo o seu desenvolvimento acadêmico e pessoal durante a vida.
O criador dos babybots, Stephen Chinn, também aparece em um dos pontos de vista. Por ter tido uma vida em grande parte solitária e incapaz de formar laços duradouros, decide por este motivo dedicar toda a sua atenção a desenvolver máquinas que emulassem essas interações que ele próprio sentia falta quando era apenas uma criança. Por querer evitar que sua filha sofresse o mesmo que sofreu, ele decide dedicar todo seu tempo a isso, não percebendo que estava negligenciando a própria relação com sua família para trabalhar nesta ideia de um robô acompanhante.
O livro tem seus defeitos, mas incita muitas reflexões em relação a como nos comportamos como sociedade tendo um acesso facilitado à tecnologia. Preferimos estar no conforto de nossas bolhas, onde nada sai do esperado, a fim de evitar quaisquer desconfortos. No entanto, interações sociais são recheadas de situações inesperadas, que pasmem, são desconfortáveis. Afinal, isso é uma característica humana, a imprevisibilidade. Se nos tornarmos tão acostumados com a IA, que se molda em relação ao que queremos ouvir como um algoritmo de rede social, temos o grande risco de não sabermos dar valor para o que nos faz humanos de fato. Ter defeitos, cometer erros e nos atrapalharmos faz parte do pacote da experiência humana.
As inteligências artificiais já infelizmente terceirizam nosso pensamento, e a tímida contraposição à ela me deixa muito incomodado, mas e se essa falta de contraposição por concordarmos com discursos fajutos de “inevitabilidade” desta tecnologia for a responsável por desenvolver versões artificiais de interações humanas também? Qual o sentido então de permanecermos como espécie no planeta, se tudo o que nos faz sermos humanos for arrancado de nós? Convido vocês à esta reflexão. Não caiam em narrativas fabricadas pelos inventores de IA que devemos “aceitar” sua evolução de olhos fechados. É possível agir contra, só basta querer, e assim como todos os direitos conquistados até hoje, lutar contra é necessário e urgente.



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