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Harry Potter x Percy Jackson: Como fazer (ou não) representação

Nicolas Cassemiro











A representação é um elemento crucial na literatura, pois espelha a diversidade do mundo real e oferece aos leitores a oportunidade de se verem refletidos nas histórias que consomem. As sagas de fantasia infanto-juvenil, em particular, têm um papel significativo na formação de valores e perspectivas de jovens leitores.


Nesse contexto, as franquias Percy Jackson e Harry Potter ambas tratam a representação de maneiras muito distintas, portanto vale a pena discutir as formas como são bem-sucedidas (ou não) nessa representação.

 


Harry Potter, entre livros, filmes, peças de teatro e uma série de TV (em produção), é uma das maiores franquias de entretenimento do mundo, porém é também infame pela maneira como sua autora trata certas minorias. Um exemplo desse tratamento é Dumbledore, um dos personagens mais importantes da série e a principal representação LGBTQ+ da franquia. Onde está o problema nisso? Simples: a posição de Dumbledore enquanto personagem gay é algo que existe exclusivamente fora do texto, por meio de declarações da própria autora em entrevistas e tweets.

 

A representação na obra de Rowling é frequentemente retroativa, meramente implícita e extratextual. O que encontramos de verdade são personagens neutros, ou seja, brancos, ou caricaturas raciais, como a personagem asiática Cho Chang, cujo nome é o amálgama de um nome coreano e um sobrenome chinês. Ressalto o termo “asiática”, visto que ela nunca recebe textualmente uma etnia específica.

 

Em contrapartida, o universo criado por Rick Riordan funciona quase como um anti-Harry Potter, embora compartilhe diversos dos mesmos tropos. Já em sua gênese, o universo de Percy Jackson parte de um lugar de inclusão: Riordan tinha em mente criar uma história para seu filho, que havia sido diagnosticado com dislexia e TDAH. A neurodivergência dos personagens é o coração da narrativa, sendo repensada por um viés mitológico.

 

Com o passar do tempo, o universo de Percy Jackson (e séries secundárias associadas) ficou cada vez mais diverso. Ainda que nos primeiros livros haja um elenco principal composto majoritariamente por personagens brancos, logo se torna um mosaico com diferentes histórias e culturas, que:


não são apenas meras características descritivas, mas relevantes e impactam a narrativa e a jornada dos personagens.

 

Outro ponto onde Riordan é bem-sucedido: sua representação de personagens LGBTQ+. Ao contrário do que acontece em Harry Potter, a identidade dos personagens não é mera nota de rodapé ou tweet após a obra, mas parte crucial da caracterização. Os personagens são abertamente queer, desde Nico Di Angelo e seu relacionamento com Will Solace (casal que chegou a receber um livro dedicado) até Alex Fierro, personagem gênero-fluído que usa pronomes masculinos e femininos alternadamente (e cujos pronomes são respeitados pelos outros personagens do livro).

 

Porém, o ponto mais importante que distingue ambos é a maneira como seus respectivos autores agem no mundo real e como respondem às críticas. J.K. Rowling frequentemente assume uma postura defensiva quando confrontada com críticas à representação em sua obra e famosamente vem assumindo uma posição cada vez mais radical acerca de questões trans, usando de sua posição enquanto figura pública para fazer diversos ataques aos direitos de pessoas trans.

 

Por outro lado, a posição adotada por Rick Riordan é uma de melhoria e evolução, a representação de seus personagens (longe de ser perfeita, especialmente em seus trabalhos mais antigos) está em contínuo aprimoramento, muitas vezes com a ajuda de autores dos próprios grupos sendo representados. Além de sua própria obra, Riordan também abriu espaço para que diversos autores pudessem escrever suas próprias histórias por meio do selo Rick Riordan Presents, a partir do qual seleciona autores de diversas origens para escreverem sobre suas próprias culturas.

 

Em suma, a comparação entre as franquias Harry Potter e Percy Jackson no que tange à representação revela um contraste fundamental na abordagem criativa e ética de seus autores. Abordagens essas que se estendem para fora das páginas e contribuem para impactos (positivos e negativos) na representação cultural e de vida de pessoas reais.

 

Enquanto J.K. Rowling frequentemente utiliza a representação de forma tardia, extratextual e, em alguns casos, problemática, limitando o impacto e a autenticidade das minorias em seu universo, Rick Riordan adota uma postura proativa, inclusiva e textual. O universo de Riordan integra a diversidade (seja ela neurodivergente, racial ou LGBTQ+) como parte intrínseca da identidade e do desenvolvimento da trama de seus personagens.

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