Narrar para existir: identidade, memória e ficção em "O Nome do Vento"
- Tiago Marinho

- há 23 horas
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Em O Nome do Vento, primeiro volume da série A Crônica do Matador do Rei, Patrick Rothfuss constrói uma narrativa que vai além da fantasia tradicional ao colocar no centro da história não apenas feitos heroicos, mas o próprio ato de narrá-los. A obra é organizada pelo relato de Kvothe, um lendário herói, a respeito dos grandes feitos que realizou durante a vida, contados anos depois, enquanto ele vive escondido sob a nova e desconhecida identidade de Kote, um estalajadeiro.

O leitor logo percebe que Kvothe não é um narrador neutro, muito pelo contrário, ele próprio admite, de certa forma, ser pouco confiável. Ele é, ao mesmo tempo, personagem e autor de sua própria lenda e, ao recontar sua trajetória, marcada por genialidade, perda, sofrimento e ambição, Kvothe seleciona eventos, enfatiza emoções e constrói sentidos.
A memória, nesse contexto, não aparece como um arquivo fiel do passado, mas como uma narrativa organizada a partir do presente, em busca de explicar o herói, e não o homem. O que conhecemos de Kvothe tem menos a ver com um registro objetivo de fatos de sua vida, e mais a ver com uma versão cuidadosamente construída de si mesmo.
Essa dimensão narrativa da identidade dialoga com a ideia de que o sujeito se constitui por meio das histórias que conta. Ao longo da obra, Kvothe assume diversos papéis: músico, estudante, sobrevivente, amante, mago. Cada um reforçado pela maneira como ele se apresenta e é lembrado.
O poder dos “nomes verdadeiros”, elemento central no universo do romance, simboliza essa capacidade imensa da linguagem de criar e fixar identidades. Saber o “nome verdadeiro” de algo é dominar aquilo, e a partir disso isso, podemos pensar que narrar a própria história é, de certa forma, tentar dominar a própria essência de quem você é. Essa estrutura vai aos poucos convidando o leitor a uma reflexão fundamental:
somos definidos pelo que vivemos ou pelo modo como contamos aquilo que vivemos? E até que ponto nos convencemos de que somos o que contamos?
A distância entre o Kvothe narrador, poderoso herói de fantasia, e Kote, o humilde estalajadeiro, sugere uma profunda ferida interna: o homem que conta a história parece não coincidir mais com a lenda que a viveu. Essa dissonância levanta a possibilidade de que a narrativa, longe de ser apenas afirmadora, também possa aprisionar: ao se tornar refém de sua própria lenda, Kvothe perde a capacidade de agir no presente e vive pensando naquele Kvothe do passado. A história que o definiu passa a ser um peso, e não uma fonte de sentido.
Nesse ponto, O Nome do Vento problematiza de certa forma o papel da ficção na construção do eu. Narrar pode ser um ato de sobrevivência, e quem sabe uma forma de organizar o caos da experiência e dar sentido à dor, mas também pode se tornar um mecanismo de fuga.
Ao revisitar o passado incessantemente, Kvothe evita confrontar sua condição atual, e ao mesmo tempo, começa a se perder na própria mentira da identidade que criou para se esconder, tornando-se mais Kote do que Kvothe, mais alguém que admira a lenda que a lenda em si. A fantasia, então, não surge apenas como imaginação criadora, mas como espaço ambíguo entre a elaboração e o escapismo.
Além disso, o romance sugere que toda identidade é, em alguma medida, performática. Kvothe aprende desde cedo que histórias têm poder social: elas inspiram medo, admiração ou respeito. Assim, a construção do “eu” não ocorre isoladamente, mas em diálogo com o outro. O sujeito pode se tornar aquilo que é reconhecido pelos demais e não o que ele mesmo reconhece.
E as histórias que nosso narrador conta a respeito de seu passado mostram bem os momentos nos quais a performance dele diante da realidade gerou uma fantasia, e a lenda de Kvothe, o herói, se tornou algo maior que a história de Kvothe, o homem, superando a verdade fática e se tornando uma verdade repetida aos quatro ventos. O homem que não sangra, o matador de dragões.
A fantasia de Rothfuss, nesse sentido, reflete uma condição profundamente humana: vivemos cercados de narrativas, sejam elas pessoais, sociais ou culturais, e todas elas moldam nossa percepção de quem somos e de onde estamos.
Ao transformar o ato de contar histórias em tema central, O Nome do Vento convida o leitor a uma reflexão mais ampla. Se somos feitos de memória e linguagem, até que ponto temos controle sobre nossa identidade? Somos autores de nós mesmos ou personagens de narrativas que nos antecedem e nos ultrapassam? A obra não oferece respostas definitivas, mas sugere que existir é, inevitavelmente, narrar, e que toda narrativa carrega tanto o risco da ilusão quanto a possibilidade do autoconhecimento.





Acho que é logo no início, após ser abordado sobre quem é, que Kote fala algo como "não posso contar essa história de qualquer forma, precisa de um preparo..." e talvez um "as história têm poder". Como que já preparando o leitor para esse tema abordado no ensaio: a importância da narrativa e a construção de uma identidade a partir dela. Excelente ensaio!
Ótimo ensaio, essa questão central acerca da performance, identidade, memória e narrativa traz uma reflexão profunda acerca de nós mesmos e o nosso ser no mundo. Como sempre a leitura tem esse poder mágico de nos fazer refleti profundamente sobre nós. Obrigado por compartilhar essa inquietação.