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Linguagem, Identidade e Magia em Terramar

Tiago Marinho












Desde que escreveu O Feiticeiro de Terramar em 1968, Ursula K. Le Guin demonstrou ser uma das grandes escritoras a moldar a fantasia como a conhecemos hoje. No lugar de batalhas épicas e linhagens grandiosas, constrói um universo em que o elemento central é vinculado à nossa linguagem, os nomes verdadeiros.


Contos de Terramar, animação do estúdio Ghibl
Contos de Terramar, animação do estúdio Ghibli / Informações e trailer disponíveis em https://studioghibli.com.br/filmografia/contos-de-terramar/

Em Terramar, conhecer o nome verdadeiro de algo é compreender sua essência e, portanto, exercer poder sobre aquilo. Esse conceito está presente em algumas ideias de magia do caos propagadas por outro autor extremamente famoso, Alan Moore, assim como no sistema de magias de nomear do atual Patrick Rothfuss, em seu renomado Nome do Vento.


Inspirada por diversas tradições místicas e anímicas - que carregam a crença de que os nomes têm força espiritual - Le Guin transforma isso em uma regra de seu universo. A Língua Antiga, um idioma primordial, não é formada de palavras vinculadas ao que as coisas parecem ser, mas atreladas ao que elas realmente são.


Por isso, dominar seus vocábulos não é só aprender um sistema; é deter na ponta da língua o próprio dicionário da realidade. Cada palavra dita com precisão altera o tecido do mundo, exigindo cuidados: quanto mais um mago sabe, mais ele deve ponderar seus atos, pensamentos e palavras. Com isso, a ética toma um plano central na obra.


Capa do livro "O Feiticeiro de Terramar"

Esse vínculo entre nome e essência torna o conceito de identidade particularmente poderoso. O nome verdadeiro é o segredo mais íntimo de cada um, revelado apenas a quem se confia plenamente, pois entregar o nome é se tornar totalmente vulnerável.


Ged, protagonista da saga, aprende isso jovem: ser conhecido verdadeiramente por alguém é um gesto arriscado, mas fundamental para formar laços reais. A metáfora se mostra bastante clara: abrir-se ao outro implica em aceitar uma fraqueza, porém, desse ato também nasce uma nova força, impossível de ser alcançada sozinho, representando o poder da coletividade.


A jornada de Ged aprofunda essa reflexão diante de vários erros que comete com boas intenções, com destaque para o momento em que liberta a sombra que é parte de si, e precisa persegui-la até reconhecer o nome dela, que também é seu próprio nome. O momento em que Ged nomeia a sombra é também o momento em que ele se reconhece por inteiro, aceitando sua luz e sua escuridão como partes inseparáveis que formam o núcleo de sua crença, do seu ser.


Com isso, Le Guin sugere que não há poder sem autoconhecimento, e que fugir de si mesmo apenas fortalece aquilo que se teme.

A ética do poder é outro pilar da série. Terramar não celebra a magia como instrumento de dominação, mas como prática que exige equilíbrio. Intervir no mundo pela palavra pode gerar desajustes profundos e por isso mesmo, o foco do treinamento dos magos é em sabedoria, e não em proezas mágicas.


Le Guin parece criticar de forma sutil a ambição desenfreada que move tantos personagens da fantasia tradicional, exercendo poder e força coercitiva diante de qualquer desafio. Em seu universo, o verdadeiro mestre é aquele que conhece seus limites e age com ponderação diante da complexidade do mundo, entendendo a profundidade das consequências de seus atos e se questionando a respeito de como agir apesar disso.


A própria Língua Antiga introduz um paradoxo interessante: é um idioma que não permite mentiras, dado que cada nome carrega um único significado verdadeiro. Isso também levanta questões sobre o livre arbítrio: se os nomes dizem quem somos, até que ponto podemos mudar? Le Guin responde mostrando personagens que evoluem, amadurecem e, em certos casos, transformam suas identidades por meio de consciência e de suas escolhas.


A linguagem em Terramar, portanto, é ao mesmo tempo um limite, mas ao demonstrar esse limite, ela permite que o caminho para sua superação também seja vislumbrado.

A relevância da obra permanece até os dias atuais porque Le Guin, ao falar de magia, fala também a respeito de nós. Em uma era na qual as palavras circulam rapidamente, às vezes imponderadas, e que muitas vezes acabam sendo usadas de forma irresponsável,


Terramar lembra que nomear exige responsabilidade, que conhecer o outro demanda respeito, e que o poder verdadeiro só existe quando guiado por compreensão e empatia profundas.


Terramar é uma ode à identidade, à ética e ao equilíbrio. É uma fantasia que elucubra, questiona e permanece atual, como um testemunho de que grandes histórias usam o imaginário para revelar aquilo que existe de mais humano entre nós.

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