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O cinema fantástico brasileiro respira!

há 5 horas
4 min de leitura
Retrato em preto e branco de Titi Bayarri; texto azul diz que é pessoa não-binária transfeminina, professora e escritora.







Os festivais de cinema fantástico fazem muito, e há muito tempo, pelo cinema de gênero. Mais do que espaços de exibição e fruição cultural, onde o público consegue ter acesso a produções de diversos países que exploram cinematograficamente o horror, a fantasia, a ficção científica ou formas híbridas desses gêneros, é através destes festivais que conseguimos ter um olhar amplo quanto ao que anda se produzindo contemporaneamente.


Internacionalmente, talvez o mais famoso deles seja o Fantasia International Film Festival, realizado anualmente no Canadá. Em âmbito nacional, com muito orgulho podemos dizer que sediamos o FANTASPOA - Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o mais longevo do país, que anualmente traz para a capital gaúcha dezenas de curtas, médias e longas-metragens fantásticos do mundo inteiro, além de realizadores e fãs do gênero de todos os cantos.


Nos últimos anos, muitos mais festivais do tipo têm sido realizados pelo Brasil, sempre com exibições que visam democratizar o acesso ao cinema, com programações para diferentes idades e por vezes contando também com premiações, rodas de conversa e ações formativas.

Entre o final de agosto e início de setembro desse ano foi a vez da realização de dois grandes festivais de cinema de gênero (em tamanho de programação, claro, mas também em beleza): o 17º Cinefantasý - Festival Internacional de Cinema Fantástico, realizado em São Paulo/SP, e o DJANHO! 2026 - Festival Internacional e Interbairros de Cinema Fantástico de Curitiba/PR


Como tem sido costume nos últimos anos para alguns festivais de cinema fantástico, tanto o Cinefantasy quanto o DJANHO! tiveram parte de sua programação disponível virtual e gratuitamente através da plataforma da Darkflix. Embora suas programações tenham sido bastante amplas, contando com diversas obras internacionais, me dediquei a acompanhar e assistir tudo o que pude das produções nacionais, na busca por entender, através desse recorte, o que se tem produzido nacionalmente no gênero. 


Já adianto que tenho toda a certeza de que o cinema fantástico nacional está em boas mãos. Então uso este espaço para trazer alguns dos destaques positivos dessas produções nacionais, dentro do que consegui assistir nos dois festivais.

Uma das maiores surpresas entre os curtas-metragens do Cinefantasy foi Pedra-Mar (2026), escrito e dirigido por Janaína Lacerda. Nele, temos uma história de horror de criatura muito atmosférica que se utiliza de elementos góticos e de folk horror muito bem. O filme não mostra mais do que deveria mostrar: é contido, imersivo, e daí sabe também mostrar uma força poética muito grande. De todos os curtas que assisti, é o que mais teria vontade de ver dando origem a um longa - não que seja isso o que os curtas devem almejar, mas é que a narrativa é tão bem aparada que fica a vontade de ver o que mais a diretora tem para mostrar.



Cartaz dividido: Cinefantasy 17 com navio e tentáculo; Djanho! 2026 com urso feroz e sangue, fundo vermelho e preto.
Cartazes de divulgação do 17º Cinefantasy e do DJANHO! 2026.

Duas outras produções de horror que destaco são Como fazer um strogonoff (2025), de Maya Boaretto e em exibição no DJANHO!, e Diu (2025), de Camila Schincaglia, exibido no Cinefantasy. Ambos se encontram em alguns aspectos, temáticos e visuais: trazem um horror que parte da experiência feminina na sociedade a partir do olhar e da violência masculina, e utilizam imagens de comida para criar estranhamento. No curta de Maya Boaretto, o horror vem de um lugar mais sóbrio, sugerindo mais do que mostrando, e apostando mais no aspecto psicológico. Diu, por outro lado, se apresenta de uma forma mais ousada, trabalhando muito bem elementos de body horror com uma protagonista que rouba completamente a cena.


Com um financiamento relativamente maior do que os demais, além de um diretor que já tem mais visibilidade no cinema nacional, Samba Infinito (2025) vem ao Cinefantasy após uma boa caminhada por festivais internacionais. O curta, dirigido por Leonardo Martinelli e com participações especiais de Camila Pitanga e Gilberto Gil, é visualmente impecável e tem um roteiro que sabe emocionar, mas o que mais me chama atenção é a beleza acertada por Martinelli ao trazer a fantasia e seus elementos fantásticos para dentro do carnaval de rua brasileiro, uma festividade que já é, por si só, fantasia.



Duas mulheres em luz neon roxa, rosto a rosto, uma mão no ombro, em fundo escuro e íntimo.
Frame do curta-metragem Defesa Pura (2025).


E falando em visualidade, é impossível não olhar com deslumbre para outras produções no Cinefantasy que surpreenderam com estéticas muito originais. É o caso do pesadelo queer de George Pedrosa, Defesa Pura (2025), um horror de ficção científica que se promete como um marco do cinema queer brasileiro: é punk, é futurista e é underground, não somente em estética, mas em narrativa. Também muito original é a animação Ybyra Aú: Espírito da Floresta (2025), de Jonny Cansado. Mesmo utilizando elementos de fantasia e ação que já conhecemos em animações consagradas, o curta consegue apostar em imagens que experimentam a forma por vezes de maneira abstrata e subjetiva, sem cair em um lugar pretensioso. O destaque aqui vai, também, para a narração e poema de Miu Yuná, que faz com que a obra tenha uma força ímpar.


Chegando então em algumas das maiores surpresas, pra mim, temos duas animações de stop motion que compuseram a mostra Pupilos do Djanho, dedicada às produções universitárias. A primeira delas é Mãe da Manhã (2025), de Clara Trevisan, que estava na programação dos dois festivais e cujas imagens construídas são tão deslumbrantes que parecem tiradas de um sonho. Me soa, de um jeito estranho, como um encontro estético entre os universos da Hello Kitty e de Dark Souls, e tudo se faz com bonecos e elementos extremamente bem animados e uma narrativa carregada de poesia.



Acima, criatura peluda encara peixes brilhantes no céu; abaixo, zumbi emerge da terra num cemitério sombrio.
De cima para baixo, frames de Mãe da Manhã (2025) e A vaidade é a última que morre (2025), ambos na programação do DJANHO! 2026.


Também com bonecos artesanalmente construídos temos A vaidade é a última que morre (2025), de Natalia Zambon. Aqui, a cineasta nos entrega uma história bem curta e camp ao seu próprio modo, no encontro do horror com o humor, com uma estética que chama muita atenção: ao mesmo tempo que reverencia e referencia a animação gótica que a precede, consegue criar sua própria identidade, em um conto conciso, divertido e muito bem executado.


Por fim fica o convite, a quem leu até aqui, de atentar-se ao que tem sido produzido no cinema de gênero em nosso país, visto que são muitas produções apaixonantes e realizadas, claramente, com muita garra e desejo. E se você tiver a oportunidade de assistir a algum dos curtas-metragens que cito aqui, ou outras produções das pessoas por trás destas obras, aproveite: não tem como não brilhar os olhos.


 
 
 

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