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Como reviver Goethe usando um fonógrafo?

Matheus Maciel













Goethe
Goethe em 1828, óleo sobre tela de Stieler.

Goethe morreu em 1832.


Em 1877, Thomas Edison anunciava a invenção do fonógrafo – o primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir sons. Alguns anos depois, um jovem engenheiro, inspirado pela sua pretendente, fã apaixonada do escritor alemão, constata algo: as vibrações estimuladas pela voz do romancista ainda estariam reverberando, mesmo que enfraquecidas, no seu escritório. 


O plano de Abnossah Pschorr para impressionar Anna Pomke era simples. Foi preciso, primeiro, construir um aparelho capaz de captar e amplificar um sinal sonoro emitido há, pelo menos, quarenta anos. Depois, invadir a cripta de Goethe e tirar moldes em cera da laringe do seu cadáver. Por fim, conseguir acesso à antiga casa do autor de Fausto, convencendo seus herdeiros a respeito da pertinência disso tudo. 


Tudo flui, tudo funciona. Em meio a alguns pigarros, ouve-se em alto e bom som, através desse curioso registro, suas conversas com Johann Peter Eckermann. Goethe estava vivo, ressuscitado por uma tecnologia que hoje ninguém hesitaria em julgar como obsoleta. Como diz Friedrich Kittler, filósofo alemão das mídias, “o reino dos mortos é tão grande quanto as possibilidades de registro e difusão de uma cultura”. Se a literatura é alucinatória porque nos faz ver coisas e delirar cenários impossíveis a partir de pequenos sinais arbitrários dispostos no espaço, os aparelhos midiáticos são, quando não necromantes, pelo menos mediunísticos – não é por acaso, afinal, que mídia e médium têm a mesma origem


Muito pouco tempo depois da invenção do telégrafo, em 1844, os Estados Unidos foram assolados por uma onda de pessoas que, tentando assimilar o impacto de uma tecnologia que, pela primeira vez na história, era capaz de vencer o espaço e o tempo, acreditavam que nosso mundo estaria recebendo, constantemente, mensagens vindas do mundo dos mortos através de um – literal – telégrafo espiritual. O corpo do médium (geralmente feminino, aliás) era visto como um receptor das mensagens dessa curiosa tecnologia de comunicação vinda do além, criada por cientistas entediados durante o pós-morte. 


Alguns anos mais tarde, por volta da década de 1960, se popularizaram também serviços de fotografias que exibiam figuras translúcidas, normalmente borradas e quase irreconhecíveis, às voltas dos retratados. Hoje, qualquer um que saiba fotografar já imagina a trucagem: eram imagens com exposição múltipla em negativos reaproveitados. Para todos os efeitos, William H. Mumler enriqueceu bastante – pelo menos até seu julgamento por fraude – com a possibilidade de fotografar seus clientes acompanhados de fantasmas.


A mediação entre o nosso mundo e o que nos assombra já assumiu formas muito diferentes  – e elas, como sempre, deságuam em produções culturais e artísticas que nos ajudam a ler os sintomas dos receios de uma dada época e lugar. No cinema, filmes como Videodrome (1983), Pulse (2001) e We’re All Going to the World’s Fair (2021) são bons exemplos dessa sintonia do horror com um certo espírito medial do tempo


A linha que separa histórias sobre mídias das histórias de mídias, no entanto, é tão desinteressante quanto pouco produtiva: existe um circuito de retroalimentação entre ficção e a assim-chamada realidade que é, ao mesmo tempo, produzido e muito bem aproveitado pelo que existe de mais encantador por aí. Dispositivos técnicos informam formas narrativas, que, por sua vez, reorganizam os nossos modos cotidianos de dar sentido às coisas e vice-versa – essa preocupação, aliás, atravessa todos os filmes que listei. 


Qualquer um que goste de horror sabe, mesmo que intuitivamente: medo e tecnologia sempre andaram de mãos dadas. Todo avanço técnico ou científico é estopim de ansiedades das mais diversas. Muitas delas, talvez as mais facilmente justificáveis, estão relacionadas aos efeitos concretos desses aparelhos na vida das pessoas – sorte é não precisar ter medo do ChatGPT roubar o seu trabalho. Outras, provavelmente as mais interessantes, têm a ver com formas de registro, transmissão e armazenamento


Tecnologias de registro, transmissão e armazenamento, grossíssimo modo, são, em geral, mídias. A fotografia, o rádio, a televisão, o filme – são todos aparelhos técnicos que, cada um a partir dos seus critérios, registram informações com o intuito de guardá-las ou transmiti-las. O caso do computador é diferente, mas podemos incluir ele aqui também. Todos eles, como é fácil perceber, são frequentemente usados como meios de expressão para, justamente, dar vazão aos receios que com frequência eles próprios trouxeram. 


O problema – e o cerne da questão aqui – é que esse tipo de dispositivo não produz só (nem principalmente) formas de expressão. Ao contrário da escrita, que passa sempre pela codificação simbólica de um filtro humano que escolhe, deliberadamente, quais palavras utilizar, esses aparelhos têm seu próprio programa. Aquilo que passa pelas lentes de uma câmera, embora, claro, possa ser modulado por uma intenção, nunca se resume a ela. Essa premissa, bastante simples e até certo ponto um pouco óbvia, produziu uma inflexão incontornável na maneira como a humanidade tem lidado com o sobrenatural nos últimos duzentos anos.


A necromancia de Goethe, claro, é falsa – o relato vem de um conto de Salomo Friedlaender, escrito em 1916 –, mas é sintomático da maneira como viemos lidando com esse inevitável elemento de não-compreensão que perpassa a nossa experiência com esses dispositivos. O próprio Thomas Edison, ao fim da vida, trabalhava no protótipo de um aparelho com o mesmíssimo objetivo. Curiosamente, o caso alimentou lendas de que o espírito de Edison teria retornado em 1941 para fornecer instruções sobre como completar a máquina. Com base nas comunicações mediúnicas, o projeto foi finalizado; mas, até onde sabemos, não funcionou. 


Existe aí um aparente paradoxo: as técnicas de registro criadas ao fim do século XIX nos deixaram mais perto do que nunca do que quer que seja o real. Ao mesmo tempo, introduziram elementos completamente estranhos à nossa percepção. O que são os grunhidos, o chiado, as distorções? Disso decorrem, por um lado, coisas como o telégrafo virando metáfora espírita e, por outro, as muitas maneiras de explicar a presença, em algo que se parece tanto com a realidade, de coisas que nossos sentidos foram condicionados a ignorar.


Cada aparelho, quando delimita aquilo que poderá ser registrado, transmitido ou armazenado, introduz junto uma dinâmica própria entre sinal e ruído – entre o que é aceitável, funcional e reconhecível ou esquisito, destoante e problemático. Tudo que é opaco à nossa experiência cotidiana acaba por se traduzir em horror: aparições espectrais inscritas no tempo longo da fotografia, vozes distorcidas nos sulcos do vinil, interferências alienígenas nas transmissões de rádio, figuras instáveis e corpos fragmentados na estática da televisão ou entidades erráticas nos glitches e artefatos de compressão da imagem digital. 


No fim, Goethe retorna como horizonte. Não porque as suas vibrações ainda estejam realmente lá, esperando pacientemente por um aparelho mais sensível, mas porque a própria ideia de que há um sempre um resto organiza nossa relação com as mídias desde então. Os dispositivos registram demais, escutam demais, veem demais – e a possibilidade de que a nossa fisiologia não seja a medida mais confiável das coisas segue nos assombrando.  



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KITTLER, Friedrich. Gramofone, filme, typewriter. Belo Horizonte: Editora UFMG, Rio de Janeiro, EdUERJ, 2019. 

SCONCE, Jeffrey. Haunted media: electronic presence from telegraphy to television. London, Duke University Press, 2000. 

1 comentário


Celina Falcão
Celina Falcão
há 2 horas

Amei essa! Acho que, grande parte do tempo, a gente acha que domina esses meios e se assusta quando percebe que eles podem ir além dos nossos desígnios 👻

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