Os Mares do Fantástico
- revistaespecular
- há 1 dia
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Todas as gerações, de uma forma ou de outra, redescobrem a Odisseia de Homero. O famoso poema grego é quase tão antigo quanto o próprio tempo e, ainda assim, insistimos em lê-lo, relê-lo e adaptá-lo infinitamente. Caso recente do novo filme épico de Christopher Nolan, onde toda uma nova geração foi impactada, de forma intencional ou não, por esta narrativa e inserida no debate cultural desta história e de seus elementos principais. Neste ensaio vamos nos deter em um personagem que, embora escape aos olhares mais desatentos, considero como principal nesta história: O Mar.

Já debatemos aqui, em colunas passadas, o lugar da floresta como ponto de encontro com o fantástico. O mar ocupa também um espaço, interessantíssimo, de ruptura com o cotidiano e de destaque na produção do imaginário da fantasia, o mar é também um dos cenários consagrados para desenvolvimento do sobrenatural, do mágico, do místico e do fantástico.
São muitas as obras literárias que fazem do oceano seu cenário primordial e que o usam como pano de fundo para construção de narrativas maravilhosas. A Odisseia, que usei de gancho para introduzir este assunto, é o exemplo mais célebre no ocidente, mas não nos esqueçamos da literatura oriental que também tem sua boa cota de aventuras fantásticas marinhas, como é o caso do marujo Sinbad, das mil e uma noites.

Sinbad teve diversos encontros sobrenaturais em suas viagens marítimas, viu ilhas que eram gigantes baleias, encontrou terríveis monstros marinhos e até mesmo ciclopes. Mais à frente na linha do tempo, temos obras como “As viagens de Gulliver” que, apesar de ser uma grande sátira e crítica social, também nos mostra sociedades fantásticas e eventos impossíveis em terras distantes, só atingidas pela navegação.
Não nos esqueçamos também do velho Tolkien que em seu maravilhoso universo reservou especial lugar para o fantástico no mar: pois é em Valinor, terra abençoada cheia de farturas e belezas, que os Elfos estão se dirigindo. É a última viagem ao oeste, quando os navios velejarão rumo ao maravilhoso e nunca mais retornarão à Terra Média.
Muitos outros exemplos na literatura, no teatro ou no cinema caberiam para montar este fantástico quadro, mas bastam esses para dizer que o mar é um eterno representante do desconhecido.
O Mar personaliza tudo aquilo que foge ao comum, que escapa de nossos sentidos e, portanto, é o local perfeito para o desenvolvimento de todas essas histórias maravilhosas.
Ele é um espaço que não está ao alcance. Nem todos conseguem, por falta de habilidade ou de coragem, velejar até as terras distantes onde os relatos fantásticos aconteceram. Também há nisso um elemento de confiança no narrador, já que ninguém sabe se tudo que Odisseu relatou, sobre ciclopes, bruxas e monstros marinhos é de fato verdade. Cabe a cada um acreditar ou duvidar, ou ainda, velejar e experimentar o mar por si mesmo.
Portanto, da próxima vez que estiver lendo, assistindo ou ouvindo histórias sobre viagens marítimas, lembre-se de todo o peso simbólico que este tópico tem nas narrativas humanas. Talvez, guarde consigo uma pitada de desconfiança sobre as coisas que ouvir de terras muito distantes. Porém, cuidado: somente aqueles que se entregam por inteiro às incertas ondas do mar, merecem viver o extraordinário além do horizonte.


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