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O Mentor e o Caminho do Leitor: um guia para o Belo Reino












Dando um reboot na coluna, com novos colaboradores e assumindo sua edição, tenho comigo a certeza de começar debatendo um tropo entre os muitos que moldam a fantasia, dos quais poucos são tão universais quanto o mentor.


Merlin ensinando Arthur Pendragon, da Bretanha
Merlin ensinando Arthur Pendragon, da Bretanha
“Tropos de fantasia são temas ou recursos recorrentes que escritores comumente usam em histórias de fantasia. Esses elementos ajudam os leitores a explorar e compreender um mundo imaginado, fornecendo padrões reconhecíveis e permitindo aos autores espaço para a criatividade” (HARRIS; s.d.).

O MENTOR surge nas histórias como aquele que aponta a estrada, mas raramente a percorre até o fim. Em vez de carregar o herói, desperta sua capacidade de caminhar sozinho, ainda que em muitos casos tenha sua própria senda a trilhar. Antigo, é fácil reconhecê-lo nos contos de fadas, nos épicos medievais e nos romances modernos. Contudo, o que há nele que ecoa tanto em nós colunistas e vocês, escritores e leitores, a ponto de ultrapassar as fronteiras do fantástico e tocar a realidade?


Nas obras clássicas, o papel do mentor é nítido. Tolkien nos deu Gandalf, inicialmente o cinzento errante, que guia Bilbo e depois a Sociedade do Anel, que também desaparece em momentos cruciais, obrigando os personagens a amadurecerem. Robert Howard, pai de Conan, apresenta conselheiros e sábios que, mesmo na brutalidade hiboriana, insinuam que força sem sabedoria se torna um “caminho curto”.


Já Le Guin fez do aprendizado e da escuta a essência do mago Ged, guiado por mestres que o ensinam a conhecer o próprio nome – e, com ele, a verdade de si mesmo. E o mito arturiano destaca em Merlin, mentor, articulador e mago, o conhecimento e a falseável natureza humana que o torna prisioneiro da Dama do Lago e nos mostra que nossos ícones também podem falhar.  


Todos revelam que o mentor não é um solucionador de problemas, mas um guardião de perguntas e da arma que forja o reino, conhecedor das chaves que revelam a jornada e a melhor forma de percorrê-la. Oferece chaves simbólicas – uma palavra, uma espada, uma visão – para abrir portas que só o herói pode atravessar. O tropo, assim, fala de nossa própria travessia como leitores: cada história de fantasia também nos convoca a crescer. Quando Gandalf some em Moria, Ged enfrenta sua sombra sozinho, Excalibur se parte e Luke Skywalker adentra a caverna em Dagobah, o texto nos sussurra que, no fim, também teremos de agir sem garantias.


E aqui, nesta coluna, ampliamos esse paralelismo. Não é a fantasia um grande exercício de mentoria?

O Belo Reino, aquele território simbólico onde arte, mito e verdade se encontram, não é uma geografia pronta no mapa. É um horizonte que se revela quando somos provocados a vê-lo e a ele se dirigir. Ao escrever sobre fantasia, os colunistas procuram fazer como os mentores fazem: apontar caminhos, sugerir sentidos, explicitar o implícito. Todavia, o passo final – o mais importante – é sempre seu, leitor.


Contudo, não está congelado no tempo. Novas abordagens e veículos, incluindo nacionais, o reinventam. Na série de histórias em quadrinhos “Orixás”, de Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole, Exu e Oxalá guiam com humor e mistério, desafiando-nos a conectar o mito afro-brasileiro ao nosso presente. Assim, revelando que a fantasia nacional incorpora sua própria herança cultural, dando ao tropo do mentor novas cores e vozes.


Na realidade, todos precisamos de mentores: professores, amigos, artistas, até personagens que encontramos no que lemos ou assistimos.

Porém, o maior ensinamento do tropo é que, cedo ou tarde, precisamos atravessar a ponte por conta própria. O Belo Reino não é um lugar ao qual se chega levado por outro – é um espaço de transformação interior. O mentor nos lembra que a fantasia não é fuga, mas revelação: um espelho mágico no qual vislumbramos quem podemos nos tornar.


Ao fechar este texto que reinicia a coluna, com novos colaboradores de diferentes vozes – da academia, da cena das pulp fictions, da produção nacional, da fantasia na cultura pop – penso que o mentor é a voz dessa verdade, sussurrando que a aventura é nossa. Que o caminho é incerto, mas inebriante. E que o Belo Reino nos espera, não porque alguém o mostre inteiro, mas porque ousamos buscá-lo – guiados, por um tempo-espaço mítico, por aqueles que vieram antes, e, depois, guiando outros, como todo bom conto de fantasia sempre nos convidou a fazer.


Por fim, aproveito para deixar o texto de referência para a definição de tropo, para que observem mais alguns tropos de fantasia, em uma leitura leve, de linguagem acessível e em português.


Referência:

HARRIS, David. Tropos de Fantasia: Descubra a Magia por Trás dos Seus Contos Favoritos. Adazing [s.d]. Disponível em: https://www.adazing.com/pt/fantasy-tropes/#What_Are_Fantasy_Tropes.

2 comentários


Fred Cavalcanti
há 3 dias

Muito instigante e maravilhoso este texto, com um belo desvelar da sabedoria que existe por trás destas palavras! Gratidão!

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Volnei Freitas
Volnei Freitas
há 3 dias
Respondendo a

Meu caro, grato pelo apoio! A sabedoria está intrínseca às histórias, ao tema, desvelá-la é o desafio que nos compete.

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