O Mentor e o Caminho do Leitor: um guia para o Belo Reino
- Volnei Freitas
- há 4 dias
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Dando um reboot na coluna, com novos colaboradores e assumindo sua edição, tenho comigo a certeza de começar debatendo um tropo entre os muitos que moldam a fantasia, dos quais poucos são tão universais quanto o mentor.

“Tropos de fantasia são temas ou recursos recorrentes que escritores comumente usam em histórias de fantasia. Esses elementos ajudam os leitores a explorar e compreender um mundo imaginado, fornecendo padrões reconhecíveis e permitindo aos autores espaço para a criatividade” (HARRIS; s.d.).
O MENTOR surge nas histórias como aquele que aponta a estrada, mas raramente a percorre até o fim. Em vez de carregar o herói, desperta sua capacidade de caminhar sozinho, ainda que em muitos casos tenha sua própria senda a trilhar. Antigo, é fácil reconhecê-lo nos contos de fadas, nos épicos medievais e nos romances modernos. Contudo, o que há nele que ecoa tanto em nós colunistas e vocês, escritores e leitores, a ponto de ultrapassar as fronteiras do fantástico e tocar a realidade?
Nas obras clássicas, o papel do mentor é nítido. Tolkien nos deu Gandalf, inicialmente o cinzento errante, que guia Bilbo e depois a Sociedade do Anel, que também desaparece em momentos cruciais, obrigando os personagens a amadurecerem. Robert Howard, pai de Conan, apresenta conselheiros e sábios que, mesmo na brutalidade hiboriana, insinuam que força sem sabedoria se torna um “caminho curto”.
Já Le Guin fez do aprendizado e da escuta a essência do mago Ged, guiado por mestres que o ensinam a conhecer o próprio nome – e, com ele, a verdade de si mesmo. E o mito arturiano destaca em Merlin, mentor, articulador e mago, o conhecimento e a falseável natureza humana que o torna prisioneiro da Dama do Lago e nos mostra que nossos ícones também podem falhar.
Todos revelam que o mentor não é um solucionador de problemas, mas um guardião de perguntas e da arma que forja o reino, conhecedor das chaves que revelam a jornada e a melhor forma de percorrê-la. Oferece chaves simbólicas – uma palavra, uma espada, uma visão – para abrir portas que só o herói pode atravessar. O tropo, assim, fala de nossa própria travessia como leitores: cada história de fantasia também nos convoca a crescer. Quando Gandalf some em Moria, Ged enfrenta sua sombra sozinho, Excalibur se parte e Luke Skywalker adentra a caverna em Dagobah, o texto nos sussurra que, no fim, também teremos de agir sem garantias.
E aqui, nesta coluna, ampliamos esse paralelismo. Não é a fantasia um grande exercício de mentoria?
O Belo Reino, aquele território simbólico onde arte, mito e verdade se encontram, não é uma geografia pronta no mapa. É um horizonte que se revela quando somos provocados a vê-lo e a ele se dirigir. Ao escrever sobre fantasia, os colunistas procuram fazer como os mentores fazem: apontar caminhos, sugerir sentidos, explicitar o implícito. Todavia, o passo final – o mais importante – é sempre seu, leitor.
Contudo, não está congelado no tempo. Novas abordagens e veículos, incluindo nacionais, o reinventam. Na série de histórias em quadrinhos “Orixás”, de Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole, Exu e Oxalá guiam com humor e mistério, desafiando-nos a conectar o mito afro-brasileiro ao nosso presente. Assim, revelando que a fantasia nacional incorpora sua própria herança cultural, dando ao tropo do mentor novas cores e vozes.
Na realidade, todos precisamos de mentores: professores, amigos, artistas, até personagens que encontramos no que lemos ou assistimos.
Porém, o maior ensinamento do tropo é que, cedo ou tarde, precisamos atravessar a ponte por conta própria. O Belo Reino não é um lugar ao qual se chega levado por outro – é um espaço de transformação interior. O mentor nos lembra que a fantasia não é fuga, mas revelação: um espelho mágico no qual vislumbramos quem podemos nos tornar.
Ao fechar este texto que reinicia a coluna, com novos colaboradores de diferentes vozes – da academia, da cena das pulp fictions, da produção nacional, da fantasia na cultura pop – penso que o mentor é a voz dessa verdade, sussurrando que a aventura é nossa. Que o caminho é incerto, mas inebriante. E que o Belo Reino nos espera, não porque alguém o mostre inteiro, mas porque ousamos buscá-lo – guiados, por um tempo-espaço mítico, por aqueles que vieram antes, e, depois, guiando outros, como todo bom conto de fantasia sempre nos convidou a fazer.
Por fim, aproveito para deixar o texto de referência para a definição de tropo, para que observem mais alguns tropos de fantasia, em uma leitura leve, de linguagem acessível e em português.
Referência:
HARRIS, David. Tropos de Fantasia: Descubra a Magia por Trás dos Seus Contos Favoritos. Adazing [s.d]. Disponível em: https://www.adazing.com/pt/fantasy-tropes/#What_Are_Fantasy_Tropes.
Muito instigante e maravilhoso este texto, com um belo desvelar da sabedoria que existe por trás destas palavras! Gratidão!