Você acredita?
- Nicolas Dobarro Cassemiro

- 10 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Em 1516, o autor Thomas More publica sua obra "Utopia", onde descreve a estrutura e os costumes de uma sociedade do Novo Mundo, visando indicar uma sociedade ideal. Desde então, o termo "Utopia", cunhado pelo próprio More a partir do grego οὐ (não) e τόπος (lugar), vem sendo utilizado para se referir a diversos tipos de organização social, tidos como perfeitos ou ideais.
Porém, a figura de uma sociedade perfeita, ou próxima disso, está presente no imaginário humano desde muito antes de More, seja na forma de narrativas mitológico-religiosas como o Jardim do Éden da tradição judaico-cristã e os Campos Elísios da mitologia grega, ou de conceitos filosóficos, como a República, de Platão.
Nos dias atuais a noção de utopia aparece frequentemente na literatura fantástica, servindo muitas vezes de uma imagem de um futuro ao qual devemos tender, ou então como uma figura que escancara características da sociedade na qual vivemos.

Na literatura fantástica, um dos principais exemplos de utopia é apresentado pela célebre autora Ursula Le Guin, em seu texto, parte ensaio, parte conto, “The Ones Who Walked Away from Omelas”. Na obra, Le Guin começa descrevendo um festival, que acontece na cidade de Omelas: a imagem é a de uma cidade idílica e cidadãos alegres, ela segue descrevendo os cidadãos, felizes, inteligentes, mas não ingênuos, sua única dor sendo intelectual.
A autora pede para que, caso não estejamos satisfeitos com sua descrição, imaginemos a cidade da maneira como preferirmos, seja com ou sem tecnologia, com ou sem drogas, e tudo o mais que se possa imaginar. Então, descrita a cidade, Le Guin nos faz uma pergunta, que entendo como o cerne da questão proposta pelo conto: “Você acredita? Você aceita o festival, a cidade, a alegria? Não? Então deixe-me descrever mais uma coisa.”
Com essa frase, Ursula introduz a imagem mais marcante do texto, nessa cidade, em algum dos edifícios, ela pede que imaginemos uma criança, presa perpetuamente numa sala, sua única companhia um rato que ocasionalmente a morde, recebendo apenas o mínimo possível de alimento para ser mantida viva. Ademais, a existência da criança não é algum segredo sombrio da cidade, todos os cidadãos sabem, ou virão a saber ao atingirem determinada idade, alguns visitam-na, outros não, mas todos estão cientes de sua existência.
Ao descobrirem sobre a criança, é dito aos cidadão também o porquê de seu estado miserável: a alegria, a prosperidade, a beleza de sua cidade, tudo isso está predicado no sofrimento dessa única criança. Porém, algumas das pessoas que a visitam, ao invés da reação usual de tristeza e/ou raiva, simplesmente andam pelas ruas de Omelas, saem pelos portões da cidade e partem para algum outro lugar. Esse outro lugar, segundo Le Guin, é ainda mais inimaginável que a cidade utópica, não podendo nem mesmo ser descrita.
Eis então a proposta de Le Guin: a felicidade e prosperidade de toda uma cidade, em troca do sofrimento de uma única criança.
Esse clássico problema da filosofia moral, se vale a pena salvar muitos em troca de uma minoria, aqui aparece escancarado. Porém, a discussão fomentada por Ursula não se resume ao debate sobre cálculos utilitários de prazer/dor, quando se leva em consideração como é possível transpor esse cenário fictício para o nosso mundo.
A figura de uma sociedade cuja prosperidade é predicada no sofrimento de outros não é algo tão fantástico quanto se pode imaginar à primeira vista, basta que olhemos por exemplo para os Estados Unidos, que construiu e mantém ainda seu império neoliberal nas costas de países estrangeiros, explorando países menores e lucrando com guerras forçadas (Vietnã, Iraque e atualmente seu suporte à ocupação israelense na faixa de gaza).
Todos os dias somos confrontados por uma nova criança presa na sala, sejam imagens diretas de guerras ocorrendo ou mesmo da população mais precária de nosso próprio país. Diante de tudo isso, devemos fazer como os cidadãos de Omelas e aceitar o sofrimento de outrem como necessário para a manutenção de nossa forma de vida? Ou então devemos seguir o exemplo daqueles que partiram de Omelas? Que forma essa partida tomaria para nós?
Por fim, aos leitores deixo nova pergunta, assim como questiona Le Guin: vocês acreditam? O ideal de uma cidade próspera como Omelas (talvez sem o sofrimento da criança) é imaginável como algo para o qual devemos nos esforçar para alcançar?





Comentários