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"Os Pássaros" e o "Fim dos Tempos"

Frederico Cavalcanti









Para algumas concepções epistemológicas ligadas com a Fenomenologia-Existencial-Humanista, dentro da Psicologia, é dito, à luz de um conceito próprio do que seria o termo solidão, que esta solidão consistiria em uma condição da existência (Angerami, 2007)


Quando Ludwig Wittgenstein trata de uma “Indeterminação Objetiva do Outro”, pode estar cuidando de fenômenos semelhantes, em diversos aspectos.


O ser humano vive em uma certa concha de solitude: ninguém, talvez nem ele mesmo, possa alcançar uma compreensão profunda e verdadeira sobre a própria existência, tamanha é a complexidade real de si e do mundo. E, se não consegue de si, muito menos seria capaz de fazê-lo acerca do outro. 


A compreensão seria um caminho de eterna caminhada.


No filme Os Pássaros (1963), Alfred Hitchcock conduz uma espécie de conjunção entre drama e terror, de modo a se haver construído um castelo, a partir de uma cadência de ritmos, dentro da qual, até metade do tempo do filme, uma dinâmica peculiar e romântica entre os protagonistas é perpassada por duas ou três estranhezas, cenas com pássaros em estado comportamental extremamente incomum, mas apenas como um prenúncio duvidoso, do que poderia estar por vir.


Os Pássaros (1963)
Os Pássaros (1963) é um filme norte-americano do gênero de suspense, dirigido por Alfred Hitchcock.

O cuidado com o qual a narrativa é desenvolvida no início serve de contraste para quando os ataques iniciam, tendo-se criado uma atmosfera de uma relativa normalidade, que deveria ser quebrada pelo levante violento dos pássaros: isto, por si, pode ter representado um movimento de suspense, em longo prazo, dentro de uma perspectiva de tempo subjetivamente tomado, já que as cenas de terror só se iniciam com maior incidência e frequência a partir de metade do tempo do filme haver tido curso.


Contudo, o drama é uma substância e uma configuração permanente dentro do filme. A primeira visão de um morto, morto pelos pássaros, é seguida por um profundo questionamento existencial acerca da solidão.


Será que a grande expressão de terror de Hitchcock possuiria relação com uma mistura de conexão e contraste entre grandes e sutis questões existenciais e a possibilidade de, a qualquer momento, tais questões serem interrompidas pelo terror, pelo ataque da onipotente natureza?


Entretanto, o próprio ser humano é também da natureza: um animal, ainda que capaz de pensar e criar dentro do complexo.


E o que seria o silêncio, senão uma música que serviria para acentuar as vozes repletas de drama e medo, lágrimas e gemidos, dos personagens? E o que sentir, quando uma criança narra um ataque, uma morte, na própria voz infantil tomada por sofrimento extremo e uma falta de entendimento que toca o desespero?


Em Fim dos Tempos (2008) pelo cineasta M. Night Shyamalan, por sua vez, surge uma premissa de que o ser humano teria atacado demais à biosfera, à própria natureza da qual deveria saber que é parte, que é força a se harmonizar, mas não sabe.


O reino vegetal, supostamente, estaria produzindo toxinas, a serem levadas pelo vento, para se livrar da ameaça humana.


A ideia de que o mundo guarda uma inteligência própria, uma alma do mundo, é temor humano de que seja percebido, pela poderosa natureza, o quão o ser humano tem sido ameaçador e pouco sábio em tender a destruir uma essência sem a qual não se poderia existir: o ambiente.


Há uma crise climática em curso, justa e provavelmente, porque o ser humano pensa e age, como se superior fosse, como se estivesse em suspenso em relação às coisinhas do mundo.

Ironicamente, é assim que o ser humano coisifica a si mesmo, fazendo de toda, ou quase toda, alteridade, um objeto para a ganância de si, para o ganho limitado, provindo da exploração exagerada do que lhe deveria ser sagrado: a vida.


Em Os Pássaros, novamente, a senhora Bundy, uma ornitologista amadora diz: “É a humanidade que insiste em fazer da existência da vida, uma dificuldade neste planeta” (It is mankind rather who insists to be making a difficult for life to existing on this planet). Ela, cética, enquanto um outro personagem, o Bêbado, esbraveja, logo depois: “É o fim dos tempos!”.


O que será que a arte está tentando ensinar?


Cada um faz a própria crítica.


Aliás, existe uma ilusão de que ser inteligente significa ser mordaz e saber apontar os defeitos e erros dos outros, muitas vezes, ignorando os defeitos e erros de si, o que não parece muito lógico, pois os defeitos e erros dos outros, cabem-lhes à solidão existencial, e não se pode realmente compreendê-los, tampouco, transformá-los.


Será que o ser humano é inteligente, ou um mero ator ultratécnico, avançado tecnicamente, e pouco desenvolvido, política, ética, social e cientificamente?


Tudo que a humanidade tem alcançado recebe a crítica das artes, que aponta defeitos e erros, também.


Será que haveria, aqui, uma presença circular do ser humano sobre o próprio humano?


A questão estaria na intenção? Talvez possa ser inteligente apontar defeitos e erros, quando a intenção é conscientizar e salvar a humanidade inteira, criar uma discussão profunda acerca de nossas próprias condutas coletivas e questionar nossa própria (falta de) sabedoria e inteligência. Pode-se parafrasear Banksy:


"A arte serve para perturbar os confortáveis e confortar os perturbados. Algo assim…"

Para você, leitor, qual seria uma das mensagens mais importantes para este momento?




Referências Bibliográficas

ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto. Psicoterapia Existencial. São Paulo: Thomson Learning Brasil, 2007.

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