"E o Demiurgo, hein?" Gnosticismo e Cosmicismo em Lovecraft
- Caio Capella

- há 7 dias
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Em tais viagens, havia perigos locais incalculáveis; bem como aquele perigo final chocante que balbucia indizivelmente fora do universo ordenado, onde nenhum sonho alcança; aquela última praga amorfa da mais profunda confusão que blasfema e borbulha no centro de toda a infinitude – o ilimitado sultão demônio Azathoth, cujo nome nenhum lábio ousa pronunciar em voz alta, e que rói faminto em uma câmara inconcebível e escura além do tempo, em meio ao rufar abafado e enlouquecedor de tambores vis e ao gemido fino e monótono de flautas amaldiçoadas; o som de batidas e silvos detestáveis dançam lenta, desajeitadamente e absurdamente os gigantescos deuses supremos, os cegos, mudos, tenebrosos e irracionais Outros Deuses, cuja alma e mensageiro é o caos rastejante Nyarlathotep.
LOVECRAFT, Howard-Philips. The Dream-Quest of Unknown Kadath. Em: H.P. Lovecraft Complete Fiction, p. 410, BookAnnex, 2008. Tradução do colunista.
Se Lovecraft nos ensinou algo, é que o universo não está nem aí para nós, e que por vezes, saber demais pode ser nossa ruína.
A realidade é, para o autor, um tecido frágil que se rasga diante de conhecimentos proibidos e entidades indescritíveis. O criador do horror cósmico, repete um tropo central: a insignificância do humano perante o universo. Este tropo está correlacionado com o medo do desconhecido, seja ele criaturas indescritíveis, deuses com desígnios incompreensíveis e conhecimentos horríveis sobre a realidade. Aqui, o estranhamento da realidade é fundamental. Mas e o Demiurgo, hein? Qual a relação dele e do gnosticismo com o cosmicismo de H.P. Lovecraft?
Daniel Dutra, em O Horror Cósmico de H.P. Lovecraft (2017), articula de forma magistral a noção de cosmicismo na obra de Lovecraft. O cosmicismo em Lovecraft representa a insignificância da humanidade perante a vastidão do cosmos. Esta noção está conectada, segundo o autor, principalmente à sensação de estranhamento, que surge na medida em que os personagens entram em contato com os conhecimentos e criaturas que fazem com que o indivíduo tenha esse vislumbre acerca da insignificância da humanidade. O que incomoda não é o monstro em si, mas a sensação de que ele sempre esteve ali, nos observando das profundezas abissais das quais não temos capacidade de compreender.

Azathoth, enquanto figura central no panteão de Lovecraft, ilumina questões fundamentais acerca da relação entre Gnosticismo e Cosmicismo presentes na obra do autor. Em The Haunter of The Dark, Azathoth, é conhecido por seu epíteto O lorde de todas as coisas, pois toda a criação deriva de seus pensamentos. O Deus judaico-cristão, descrito no Gênesis, cria por vontade e propósito, Azathoth cria por acidente, como uma explosão inconsciente de caos, e o próprio ato de acordar de seu sono pode destruir a realidade. O homem não é imagem e semelhança de Deus, mas um acidente não tendo importância alguma no ordenamento cósmico.
Na tradição judaico-cristã, o homem é visto enquanto imagem e semelhança do criador, carregando a centelha divina e o livre arbítrio. Na história narrada no Gênesis, o ser humano é banido do Éden ao desobedecer o criador e comer o fruto proibido, que está na árvore do conhecimento do bem e do mal. A tradição mística dentro do judaísmo, Kabbalah, compreende o fruto enquanto uma metáfora velada para Da’ath, o conhecimento proibido que vai para além do intelecto.
Esse acesso ao conhecimento proibido gera o afastamento da humanidade do Deus criador, que posteriormente – na tradição cristã – realiza duas alianças com o ser humano, a antiga aliança no antigo testamento, focada na lei dada à Moisés com o foco na preparação para o messias e a outra no novo testamento, a partir da figura de Cristo que religa o humano ao seu criador.
O gnosticismo surge como ponte, e, ruptura, entre a visão de Lovecraft e seu cosmicismo (insignificância da humanidade) e a perspectiva judaico-cristã (humanidade enquanto imagem e semelhança do criador). O gnosticismo, enquanto um conjunto de correntes religioso-filosóficas, acredita que a salvação está conectada ao acesso ao conhecimento secreto (gnose) e a sabedoria divina (Sophia), que são capazes de libertar o indivíduo do mundo material, que é visto enquanto uma prisão.
No gnosticismo, como ressalta Guess (2025), acredita-se que o mundo material foi criado pelo demiurgo (Yaldabaoth), um deus menor, filho de Sophia, que possui o corpo de serpente e a cabeça de leão. Este deus deformado foi banido por sua mãe do reino dos deuses para outro plano, e, encontrando-se apartado deles, criou um trono para si, nomeado-se YAHWEH, moldando o novo universo à sua imagem e semelhança. Criou arcontes que ajudam a sustentar a ilusão do mundo material e manter os seres humanos aprisionados. A figura de Cristo nesta cosmologia é a do filho de um destes arcontes (Sabaoth) que se revolta contra o demiurgo – criador maligno – buscando guiar a humanidade a libertar-se dessa ilusão, olhando através do véu construído pelo demiurgo. Aqui, como no mito judaico-cristão, os humanos possuem uma centelha divina que se origina deste deus deformado.
Guess, em sua obra The Guide to Writing Occult and Pulp Fiction and Cosmic Horror within the Lovecraftian Mythos (2025), apresenta a correlação entre Azathoth e Yaldabaoth, fundada principalmente na insignificância da humanidade nestas duas cosmologias. Os paralelos entre Azathoth e Yaldabaoth são tangíveis, ambos são malignos e são responsáveis pela criação do mundo, o primeiro de modo não intencional e o segundo de modo intencional. Ambos possuem um séquito ao seu redor, o primeiro os Deuses Exteriores – entidades cósmicas e incompreensíveis –, o segundo rodeado por Arcontes, que são responsáveis por manter a ilusão e prender os humanos na ilusão criada pelo demiurgo.
Todavia, o brilhantismo do Cavaleiro de Providence é exatamente subverter a lógica cristã, pois mesmo no gnosticismo os humanos, que estão presos na ilusão, possuem a centelha divina do demiurgo, enquanto que nos mythos de Lovecraft os humanos são apenas um engano, sem importância alguma na escala cósmica. O horror, contudo, reside no mesmo tropo central do cosmicismo: o conhecimento que desfaz todas as convicções acerca da realidade. Assim, a figura de Azathoth é fortemente influenciada pela figura de Yaldabaoth, os próprios epítetos do segundo influenciam os epítetos que o autor viria a criar para a figura central de seu panteão. Epítetos de Yaldabaoth: Saklas (tolo ou idiota); Samael (deus cego); Nebro (o rebelde); Pthail-Utra (criança do caos); Demiurgo (artesão/criador). Epítetos de Azatoth: O deus cego idiota; Idiota Abissal; O sonhador Cego; Supremo Lorde e Criador de Todas as coisas dentre outros.
Deste modo, cosmicismo e gnosticismo são indissociáveis, tendo em vista a forte influência que o segundo teve no primeiro. No gnosticismo, levantar o véu da ilusão gera o estranhamento a partir do conhecimento proibido (gnose) e o encontro com a sabedoria divina (Sophia). No cosmicismo, por outro lado, a base do estranhamento surge a partir do conhecimento proibido que revela a total falta de propósito e insignificância do ser humano perante O Sonhador Cego – não há centelha divina, há apenas o caos. Essa tensão entre o poder e perigo que emana do conhecimento é central para Lovecraft, vide a relação das bruxas, feiticeiros e cultistas que oferecem sua sanidade nos altares profanos de Nyarlathotep (avatar de Azathoth) em busca de conhecimento e poder.
Ao analisarmos as tradições ocultistas modernas, nas quais a passagem pelo Da’ath (conhecimento oculto) exige que o magista confronte Choronzon, o demônio do abismo, que representa a fragmentação do Ego do magista, é possível compreender a tensão entre conhecimento e poder. Desde Aleister Crowley (criador da Thelema), uma das figuras mais importantes e controversas do ocultismo ocidental até Neil Gaiman, (profícuo escritor e também polêmico) relatam/retratam em suas obras esse processo do enfrentamento de Choronzon em busca do conhecimento proibido, Da’ath. Há, nessa busca pelo poder, através do conhecimento oculto, um risco óbvio: a fragmentação do ego no processo.
O horror reside então não apenas no desconhecido, mas no conhecimento desconhecido (Da’ath) que é capaz de fragmentar o ego do indivíduo. Afinal, alguns conhecimentos, como afirma Lovecraft, são demais para que a mente humana consiga processar. O divino, seja ele um deus criador benevolente e ordeiro, um demiurgo maligno ou o caos profundamente adormecido no vácuo do espaço, é incognoscível e a busca por esse conhecimento pode despedaçar a sanidade de qualquer indivíduo, afinal há um preço para se enxergar através do véu da realidade e poucos saem ilesos.





Texto brilhante, Capella!
A tecitura construída entre cosmicismo e gnosticismo para então apresentar a diferença na insignificância e o risco do conhecimento para o despreparado está profunda, fluída e interessante!
Abçs, meu caro